Um Corpo no Asfalto
Não era tão tarde assim, mas estava muito frio na rodovia e o clima de inverno tornava a estrada mais opressiva. Saindo da cidade com duas…
Um Corpo no Asfalto

Não era tão tarde assim, mas estava muito frio na rodovia e o clima de inverno tornava a estrada mais opressiva. Saindo da cidade com duas horas de antecedência. Chegaria no ponto de encontro antes da hora marcada. Teria que esperar, mas tudo bem.
Assim que o Maverick V8 subiu à última curva, encontrou o carona aguardando. Uma silhueta de quem vestia um pesado sobretudo, mal iluminado pela luz torta do poste confundia-se com as latas de lixo transbordando na beira da estrada. Ok, podemos chegar mais cedo, vai ser bom.
Encostou o carro, abriu as janelas embaçadas e molhadas pelo frio. O carona entrou com certa dificuldade de ajustar o grande casaco. Disse boa noite enquanto o passageiro resmungou alguma coisa. Arrancou com o carro queimando pneu. Gostava de sair acelerado para mostrar a força do V8, cor preta, para-choque com barras de ferro reforçadas, um verdadeiro monstro da estrada. Impressionava qualquer um que gostasse ou não de carros.
Pelos primeiros quilômetros permaneceram calados. Um cheiro forte de cigarro misturado com cheiro de cachorro molhado tomou conta do ambiente. Olhou ligeiramente para o lado, o passageiro tinha um cabelo loiro com aspecto de mal lavado e pele muito branca, mesmo com a pouca luminosidade dentro do carro foi possível perceber os contornos das veias quando levou a mão ao rosto para limpar o nariz.
Percebeu que algo não estava de acordo com o planejado. Tratou com o carona pela internet, não viu claramente a foto no perfil, mas começou a acreditar que pegou o cara errado. Ficou pensando em iniciar uma conversa, mas o passageiro olhava fixamente para frente, sua face dura se iluminava momentaneamente a cada passagem dos carros que vinham na direção contrária.
Começou a ficar tenso ao volante. Apertou o acelerador e começou a dirigir mais rápido, já passava dos 120 km/h quando entrou em uma parte deserta e mais sinuosa da estrada. A tensão e a angústia aumentaram quando tirou um fininho ao ultrapassar um caminhão em cima de uma curva à esquerda. O passageiro soltou um grunhido rouco e continuou com o olhar fixo. Na terceira ultrapassagem perigosa, finalmente o passageiro virou a cabeça e falou com voz rouca.
— Está querendo se matar, cuzão?
Pensou que finalmente conseguiria alguma reação e poderia começar uma conversa até sentir o cano gelado do revólver no pescoço. Engoliu em seco, rangeu os dentes e meteu o pé no acelerador até o fundo.
— Vai lá, estoura os meus miolos, não tenho mais nada a perder nesta vida mesmo! Vai ser épico a gente se arrebentar nessa porra!
O motor do V8 rosnava no máximo e a reta chegava ao final, sentiu a arma engatilhar. Ia ser agora. Mas não, ainda não. Alguns segundos, o vacilão se fodeu. Apertou no freio. Puxou o freio de mão, virou o volante para a esquerda, a arma disparou, acertou o teto. Hora de usar o dispositivo especial, já tinha pegado babacas como esse antes. Mesmo na inércia da derrapagem conseguiu colocar a mão na lateral do banco e puxou o botão. A porta se abriu, o carona foi lançado para fora.
Nos segundos seguintes, que pareceram durar minutos, seu corpo não tocou em nada, inércia total até seus membros encontrarem o asfalto áspero e duro. Tudo girou violentamente. Tudo se apagou. Sentiu que seus olhos estavam abertos, mas sem visão. Silêncio súbito, por um momento o não ser.
Até que a ânsia de vômito o trouxeram de volta à existência. Tentou se mover. Os membros não respondiam adequadamente, sentiu o corpo úmido. A visão embaçada começou a revelar algumas formas redondas e brilhantes. Gosto de sangue na boca, sons voltaram a se formar. O conjunto dos sentidos fez perceber o V8 a alguns metros à sua frente.
— Ficou aí esperando eu acordar, filho da puta!
O V8 acelera ameaçadoramente, viu chegando mais perto,
— Quer meter medo, seu viadinho! — Tentou levantar o dedo do meio e mandar à merda, mas não sentiu suas mãos. A dor finalmente chegou. Cuspiu sangue. Encostou a cabeça de novo no asfalto e começou a rir.
O V8 acelerou mais forte, pneus gritam no asfalto. O ronco se aproxima, veloz e furioso com uma besta infernal turbinada. Relaxou o corpo de vez, fechou os olhos… e o último som que ouviu foram seus ossos sendo destroçados.
메타데이터
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- 2026-07-13 06:23:13