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Memória construída em madeira: uma exposição na Japan House

Reflexões sobre a exposição Mestres da carpintaria, na Japan House (SP): cultura nipônica e sua forma de enxergar memória e tradição.

Rayssa Lisbôa França · 2026-05-02 12:18 · 0 claps · 6.1 min read
#museologia #memories #japanese-culture #japan-house-são-paulo
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Memória construída em madeira

Quando um passeio na Av. Paulista é atravessado por técnicas milenares da carpintaria japonesa

Existe um lado meio “mórbido” da memória do qual falamos pouco nas rodinhas de amigos, mas bastante intrínseco ao dia a dia de quem trabalha com isso. Essa dimensão está a espreita toda vez que você mexe um álbum de fotos, relembra datas e guarda objetos queridos em um caixa: a noção de finitude e de morte.

Quando tratamos de nossas lembranças e esquecimentos, somos confrontados pelo fato de que não estaremos aqui para sempre. Nossas nostalgias e saudades são fruto dos momentos que se diluíram entre compromissos e a pressa dos ponteiros, lembranças queridas que já se foram e não tem como serem repetidas. Ao tratarmos de nossos registros e legados, estamos lidando com uma dualidade entre ausência e a presença eterna na vida de alguém através das lembranças.

Recentemente, tive a grata surpresa de ver um pouco dessa conversa apresentada a um público não especializado.

A exposição “Imbuídos das forças das florestas do Japão — Mestres da carpintaria: habilidade e espírito” (Japan House, no coração da Avenida Paulista) fala sobre a arte da carpintaria nipônica, sua relação com as florestas, tradição e com a religiosidade. São apresentadas duas perspectivas: o trabalho dos construtores de arquitetura tradicional japonesa como templos e santuários, chamados dōmiya daiku; e os carpinteiros sukiya daiku, especialistas na construção de casas de chás.

No salão principal da Japan House são expostos 87 instrumentos de trabalho dos carpinteiros, vestimentas cerimoniais, lascas de árvores próprias do Japão — evidenciando suas particularidades de cheiro e textura — além de uma réplica em escala real da Casa de Chá Sa-an, do templo Daitoku-ji Gyokurin-in, localizado em Quioto, que representa a carpintaria sukiya. Construída em 1742, a réplica teve partes das paredes e teto foram parcialmente removidas para destacar sua “engenhosidade estrutural e a maestria dos carpinteiros”.

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“Para determinar a madeira adequada, os carpinteiros japoneses primeiro selecionam uma floresta e, em seguida, escolhem a árvore mais apropriada. Como as pessoas, as árvores têm características variadas e para aproveitá-las ao máximo e é essencial compreender seu ambiente: árvores que crescem do meio da montanha para cima, por exemplo, são mais indicadas para elementos estruturais, como pilares e vigas, já aquelas que crescem rapidamente nos vales são mais adequadas para elementos de acabamento e decoração”, explica o curador Marcelo Nishiyama.

Longe de ser uma especialista em cultura nipônica, algumas coisas me chamaram atenção de forma (muito) pessoal durante a exposição.

Primeiro, ficou marcado para mim o respeito aos ensinamentos do Mestre Carpinteiro por parte dos aprendizes. Seja no trabalho dos templos ou das casas de chá, existe uma dimensão do ensino e do respeito ao modo de fazer deste trabalho que permeia todo o trabalho dos carpinteiros. Mais do que erguer um prédio, a carpintaria japonesa integra-se ao ambiente, além de contribuir para a construção de uma identidade cultural que considera símbolos, crenças, com uma quase devoção à tradição dos movimentos, ferramentas e rotinas de suas atividades.

Além disso, existe uma perspectiva de transformação associada à ideia da eternidade. Ou seja, se a a natureza e a vida se transformam, a manutenção dos processos importa mais do que a matéria, do que a manutenção de ruínas.

Ao invés de pautar a estabilidade na permanência ou na robustez da estrutura do prédio, a imortalidade é associada à transmissão do conhecimento de geração em geração. Além disso, há uma preocupação de respeitar a floresta, ou seja, garantir que a matéria-prima primordial dos carpinteiros — as árvores — sejam cuidadas e nunca extintas.

Isso me transportou para o meu primeiro semestre do curso de Museologia, dos tempos em que estudava a história dos museus e das exposições.

*Ole Worm‘s cabinet of curiosities, from ‘’Museum Wormianum’‘, 1655. Original source from: [http://www.sil.si.edu/Exhibitions/wonderbound/crocodiles.htm Smithsonian Museum].*

Ole Worm‘s cabinet of curiosities, from ‘’Museum Wormianum’‘, 1655. Original source from: [http://www.sil.si.edu/Exhibitions/wonderbound/crocodiles.htm Smithsonian Museum].

Quando falamos do ponto de vista coletivo, das instituições de memória que conhecemos — museus, bibliotecas e arquivos — suas galerias de quadros pendurados e exposições abertas ao público são influenciadas por origens ocidentais, com ênfase na tradição europeia. De maneira geral, condicionamos o passado de acordo com a lente de objetos antigos, fotografias e documentos que escolhemos guardar e expor: recortes de momentos que são apresentados como pequenas janelas para um mundo que não conhecemos mais.

Segundo Almeida (2008), no final do século XVIII os gabinetes de curiosidades das Ciências Naturais e museus representavam o ápice da racionalidade iluminista. Após a Revolução Francesca, as coleções serviam como representantes da unidade “espiritual” ou da “tradição” da nação. Para burguesia que passava a ocupar novos espaços de poder, o museu se tornaria uma vitrine da escolha dos bens de propriedade pública que deveriam ser conservados e os que deveriam ser destruídos.

No entanto, essa é apenas uma forma de falar e registrar a memória.

Existe uma história que ficou marcada comigo ao longo de todo o curso de Museologia.

Há uma cerimônia chamada Shikinen Sengu, no Japão, comumente chamada apenas Sengu, consiste na reconstrução do Jingu a cada 20 anos. “O Jingu é um complexo de templos, sendo os principais Naiku (templo interior) e Geku (templo exterior). O primeiro é dedicado a Amaterasu Omikami, deusa do sol, enquanto o segundo homenageia Toyouke Omikami, deusa da agricultura, abrigo e indústria” (Tourinho, 2023).

Isso mesmo. A cada 20 anos, esses templos são destruídos e construídos novamente. Enquanto a nossa tradição diz “guarde e retenha”, essa festa de propõe uma celebração da impermanência. Muito próximo do que vi na exposição da Japan House, os processos de construção são mais valorizados do que o edifício em si.

Tourinho (2023) descreve a cerimônia: o templo é feito de madeira de cipreste, piso elevado e cobertura de sapê. “Como o templo é construído em madeira, a exposição às intempéries e o contato dos pilares com o solo desgastam os edifícios ao longo dos anos, fazendo-se necessária a construção de novos edifícios regularmente. A reconstrução é acompanhada de celebrações e eventos que envolvem toda a comunidade da região, e também são uma forma de manter as tradições, métodos construtivos e técnicas de carpintaria vivos.”

“O período de 20 anos entre cerimônias é preenchido com etapas da reconstrução: desde a coleta e preparo da madeira até a fabricação das partes do templo. O processo de preparo da madeira que estrutura o Jingu leva 8 anos. A madeira é proveniente em parte de uma floresta do próprio Jingu — que possui um terreno de reflorestamento com um plano de 200 anos para atingir a autossuficiência de matéria prima para o Sengu (…)” (Tourinho, 2023).

A memória, portanto, não está no prédio antigo. A preservação está na transmissão de conhecimento, na manutenção da técnica. O senso de permanência e estabilidade não está no edifício, mas na constância e na segurança da participação de diferentes indivíduos e gerações para garantir a manutenção de um modelo milenar de construção. Além disso, existe uma reabsorção dos materiais do templo antigo, que apontam para contínua transitoriedade das coisas e da transformação inteligente, proveniente da natureza.

Com essa história, não quero generalizar e dizer que todos os templos no Japão são celebrados dessa forma. Também não proponho aqui um discurso revoltado contra todos os prédios antigos preservados. São apenas formas diferentes de enxergar a preservação da memória, em que cada uma levanta suas próprias poesias e contradições.

Assim, ao entrar na exposição Mestres da carpintaria, foi impossível não ser tocada ao ver os instrumentos de trabalho e moldes de cortes expostos em paredes. Uma pequena fração de séculos de conhecimento imaterial em lugar de destaque. A exposição não era sobre grandes pilastras antigas, mas sim sobre seus machados, moldes e lixas.

Acredito muito que essa seja a função das instituições de memória e cultura: abrir horizontes, inspirar, nos fazer pensar e conectar diferentes modos de viver a vida. Sim, somos finitos. Mas existem formas de viver e pensar de forma mais plena, e defendo que investir na descoberta e preservação de nossas histórias seja um dos caminhos para pensar em legados mais relevantes.

Lembra que eu falei sobre contradições? Não posso deixar de pensar que, talvez, se formos considerar a filosofia que conduz a noção de preservação dos carpinteiros e artesãos japoneses, transformar o objeto comum em musealia (objeto de museu), não teria tanto peso assim para eles. Mas para que nós, ocidentais, latino-americanos, pudéssemos ter contato com essa forma de enxergar a vida, a exposição se tornou uma janela incrível. Com esse novo público, as lascas e tábuas árvores “mortas” expostas ganharam, assim, mais uma camada de significado.

Enfim, saí da exposição tocada e esperançosa de que mesmo em um mundo de ansiedades, correria e pressa para acumular cada vez mais, ainda existem momentos e espaços para respirarmos o ar da floresta e apreciarmos as construções — materiais ou não — daqueles que vieram antes de nós.

Referências

**Imbuídos das forças das florestas do Japão — Mestres da carpintaria: habilidade e espírito**

ALMEIDA, Cícero Antônio Fonseca de . A idéia de museu na cultura ocidental. In: Alayde Wanderley Mariani. (Org.). Memória e educação. Rio de Janeiro: IPHAN / Paço Imperial, 2008, v. 1, p. 55–59.

Helena Tourinho. A eterna arquitetura efêmera do Shikinen Sengu: o templo japonês reconstruído a cada 20 anos. ArchDaily Brasil. 17 Jul 2023. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/1002893/a-eterna-arquitetura-efemera-do-shikinen-sengu-o-templo-japones-reconstruido-a-cada-20-anos Acesso em 25 Abr 2026.


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