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o amor de soul mate

já faz um tempo que os k-dramas não me pegam. os roteiros são muito similares, tem um padrão que já enjoei. e tá aí uma diferença entre as…

mxdgrl · 2026-05-19 19:18 · 0 claps · 4.3 min read
#bls #relacionamentos #narrativa #lgbtqia
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o amor de soul mate

já faz um tempo que os k-dramas não me pegam. os roteiros são muito similares, tem um padrão que já enjoei. e tá aí uma diferença entre as produções coreanas e japonesas: as japonesas se mostram diversas. digo isso pois, se for elencar as produções disponíveis no netflix da coreia e do japão, vai notar a diversidade de assuntos no discurso japonês.

para citar alguns doramas inusitados: “otto no chinpo ga hairanai” (nós temos um grande problema) que tem como plot um casal que não consegue fazer sexo pois o pênis do marido não consegue penetrar — apesar da comicidade do problema, insere-se em uma discussão da relação dos casais que não transam; “sannin fuufu” (dois maridos e uma esposa) — um casal de namorados que, a partir de uma insegurança em se casarem, como se a responsabilidade fosse muita, resolvem convidar uma terceira pessoa para dividir essa responsabilidade, de modo leve coloca em cheque o modelo de relacionamento, a família, a sociedade de um homem e uma mulher; “hiyama kentarou no ninshin” (ele está esperando) — esse é o clássico “e se os homens também parissem?”, apresentando um discurso das relações entre homens e mulheres na sociedade, a desigualdade no trabalho, como o criar filho fosse uma tarefa apenas das mulheres.

ou seja, as produções japonesas, mesmo quando tratam de romance, parecem ser mais reais ou ainda, colocam o espectador a refletir sobre questões que muitas vezes são da própria sociedade japonesa. e é justamente essa capacidade de surpreender e causar desconforto que me faz preferi-las.

eu não acho que os doramas japoneses são atrativos logo de cara, diferente dos coreanos que dá vontade de dar play só com o título. mas os coreanos se mostram mais do mesmo enquanto os japoneses nunca se sabe o que vai ser. eu costumo dizer que os japoneses não têm dó da gente, pois acabam com os casais, famílias, pessoas morrem, casais não ficam juntos, projetos dão errado, pode se esperar qualquer coisa mesmo que cause desconforto.

agora, voltando aos k-dramas: alguns meses atrás eu li que a china havia censurado alguns plots de roteiro de doramas por entender que não era saudável para a sociedade esse discurso de mulher pobre e homem rico, amor sendo a causa de tudo, as personagens são perfeitas mesmo reproduzindo o patriarcado e a submissão das mulheres. e eu concordo. não com a censura, mas com a problemática que os k-dramas divulgam.

outro ponto relevante é a quantidade de episódios, que para mim se relaciona com a forma discursiva. as produções nikkeis zelam por oito episódios, de modo geral, enquanto nos k-dramas pode chegar até dezesseis episódios — aqui não vou nem falar dos c-dramas pois é outra história. oito episódios e apenas uma única temporada parece pouco comparado com a grande maioria de séries e dramas disponíveis no netflix, mas talvez seja esse o lance: não tem sensação de enrolação, cada minuto é válido, e sim, os roteiristas fazem bem o trabalho deles. um exemplo é o “nae nampyeongwa gyeolhonhaejwo” (a esposa do meu marido) que é baseado em um webtoon, e possui uma versão em drama coreana com dezesseis episódios e uma versão japonesa com dez episódios.

talvez um dos pontos estruturais dessa diferença entre as duas indústrias de entretenimento, japonesa e coreana, seja que o japão tem seu soft power reconhecido e admirado há décadas, sendo construído desde o fim da segunda guerra mundial, enquanto na coreia o esforço começa na década de oitenta mas ganha força apenas nos anos 2010. com isso quero dizer que a coreia está reproduzindo um padrão comercial que deu sucesso, e a sua indústria trabalha nesse sucesso, enquanto para o japão os temas variam pois nós já conhecemos o soft power deles. mesmo buscando reforçar sua autoimagem, nos parece sem esforço justamente por já ser reconhecida. entendo que as duas indústrias são diferentes: a coreana tem um dedo mais estatal ou buscando uma imagem coreana para o exterior, enquanto o japão tem um histórico mais diverso, construído ao longo de um tempo maior.

foi pensando nessa diferença de maturidade industrial e também na forma como cada país trata o amor e os relacionamentos nas telas que comecei a refletir de verdade depois de assistir “soul mate”, que me fez chorar demasiadamente — acho que chorei do mesmo modo após assistir “silent”. “soul mate” se enquadra no gênero BL, que é uma categoria japonesa primeiro em literatura e depois para anime e dramas. e eu sou leitora de BL há alguns anos, e quando começaram a produzir dramas BL eu vi que: o japão tem os mais bem produzidos e melhor expressados. as personagens não são rasas, os atores são os mesmos de qualquer drama e não desconhecidos, não são apelativos e não são óbvios.

e o que “soul mate” reforçou foi o motivo de eu gostar de BL, que eu sei que é um gênero repleto de estereótipos e preconceitos. e sempre que me coloco para pensar no que me faz gostar de BL, eu chego ao ponto de que é sempre uma história de amor. uma história de amor que não diz sobre gênero. não vou entrar no ponto de que há uma omissão das lutas lgbtqia+, pois sim, há uma omissão, mas para mim é porque o intuito dessas obras é outro, é de fato expressar sobre os sentimentos e relações humanas. poderia ser um canal de militância? sim, poderia. mas não precisa ser, e eu acho que não é.

em “soul mate” a gente acompanha a construção de um relacionamento entre dois homens, um coreano e outro japonês, que se conheceram em berlim, e é lindo de ver. também discute o conceito de família: família é sangue? não, não precisa compartilhar o mesmo sangue para ser uma família; não precisa ter um vínculo formal para ser uma família; da mesma forma que para ter um relacionamento com alguém não precisa ter um nome ou um rótulo; amar alguém não necessariamente tem como objetivo um casamento, o mesmo que não precisa necessariamente ter relação física.

e “soul mate” é mais um drama japonês que fala de amor mas não de um modo clichê. e abre para discussões atuais como imigração, famílias desestruturadas (que são mais reais do que se imagina), sobre o preconceito com a mãe solteira, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, sobre o cuidar, a amizade e sobre o amar. “soul mate” reforçou a minha interpretação de BL como histórias de amor, e daí seu encanto.


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