Troquei ofensas com o piano de Fiona Apple
Troquei ofensas com o piano de Fiona Apple
Por que a Fiona Apple canta de maneira tão agressiva? Sempre me perguntei isso desde que comecei a ouvir as músicas dela. Algumas letras são tão raivosas, tão cheias de mágoa, às vezes um xingamento aqui e ali, um verdadeiro ressentimento. Depois de um tempo, acho que entendi: é uma necessidade de gritar, de botar para fora esse ódio acumulado, essa coisa ruim, entalada na garganta, que precisa ser expelida. É um desabafo. Um grito.
Fiona já disse em diversas entrevistas, e em algumas músicas também, que foi estuprada quando era apenas uma menina no início da adolescência. Acho que uma pessoa que passa por um evento tão traumático, cresceria com muita raiva mesmo. Raiva do violentador, raiva do mundo tão patriarcal e machista, raiva de si mesma. Sei lá. Ela foi uma vítima de um crime hediondo, difícil enxergar beleza em si mesmo e no mundo depois disso.
Acontece que ela o fez, enxergou beleza, especialmente através da música, mas o fez com raiva. Seu piano parece uma briga de bar e as suas letras uma facada nas costas. Fiona compõe com ódio e, particularmente, acho isso muito bonito. É sincero. O amor é um pouco mais cínico — e não é cínico de maneira filosófica, é cínico de falso. Por amor, mudamos tudo, até aquilo que não queremos. Dizem por aí: faço tudo por amor. Mentira. Ninguém cura a si mesmo por amor. O ódio é um impulsionador muito mais forte. Comece a odiar alguém e verá o quão longe consegui ir só de raiva. Perceberá a cura chegar, porque, só de ódio, você vai melhorar. Afinal, ninguém merece sua dor.
O amor pode ser gostosinho, mas só o ódio constrói um edifício inteiro bem estável e grande. Firme. De concreto puro e de veracidade, não há mentiras no ódio.
No final de uma de suas canções, a Senhorita Mação canta: “it’s time the truth goes out, that he don’t give a shit about me”. Seja lá quem for, ele não dá a mínima, e ela, claramente, está ressentida. Em outra canção, ela manda “I thought he was a man, but he was just a little boy”, um crianção e não um homem. Voltando à primeira “fucking go! ’Cause I’ve done what I could for you and I do know what is good for me”, vá-se embora! Cansei. Suma!

Ainda assim, quando canta sobre amor, como em uma das canções do álbum Fetch the bolt cutters, I want you to love me, ela canta com agressividade. Até nisso, até amar, ela faz com raiva. Que mulher fascinante!
Me lembra um pouquinho algumas músicas da Lana del Rey que, mesmo tão benevolente, indulgente e entregue, às vezes canta algo como “I don’t wanna give you nothing, ’cause you never give me nothing back. Why can’t you be good for something?” ou “I know, I know, I know that you hate me”. O ressentimento e o ódio fazem canções melhores que o amor, ao menos para mim, que também sou meio raivoso. Se lembram do Kid Abelha? “Não faça nada por mim. Não vá pensando que eu sou seu”.
Ódio e amor não são distintos. Nos apegamos ao objeto do nosso ódio, assim como nos apegamos ao objeto do nosso amor. Acredito, na verdade, que o amor pode gerar ódio e vice-versa. Claro, crimes de ódio ainda são crimes, trato aqui do ódio a aqueles que te fizeram mal, que te cicatrizaram, que te fizeram sentir ódio.
Eu, que não sou muito criativo, gostaria de fazer boxe e trocar socos com o cara que me assediou no ano passado. Já a Fiona Apple escreveu canções maravilhosas e tocou o seu piano com tanta fúria que conseguiu nos alcançar. Quebrou a barreira entre artista e apreciadores.
Como dito, o ódio é mais honesto. Não violentem ninguém, mas descubram um jeito de botar para fora. Acredite, não será menos humano por gritar ao mundo o teu ressentimento. A Senhorita Maçã continua linda, linda. Apesar da raiva, ela ficou ao lado de sua cachorrinha, Janet, até o câncer a levar. Meu coração se parte só de imaginar. Uma pessoa, afinal, cheia de tudo, mas, principalmente de amor e de ódio. Que pessoa incrível é a Fiona Apple!
Tem um vídeo no YouTube, do canal antiheroines, que conta um pouco sobre a Senhorita Maçã. Vale a pena. A sensibilidade é, de fato, uma bênção. E uma pessoa tão sensível como Fiona Apple é, de fato, abençoada. Seu ódio, apesar de ser ódio, agride de um jeito bom. Toda vez que escuto uma de suas músicas, me sinto numa discussão fervorosa com alguém — esse alguém é sempre alguém específico, claro. É relaxante trocar ofensas com o piano da Fiona Apple.
https://youtu.be/G7YTv67Bg7E?si=D7y0ZxnnJTYypDzF
Só existimos se sentimos. Se for o caso de sentir raiva, que seja! O mundo vai acabar, apesar disso.
Aliás, a Fiona já foi casada com o diretor de cinema Paul Thomas Anderson. Ele dirigiu alguns clipes maravilhosos dela, como o das canções Paper Bag e Fast as you can — também dirigiu alguns clipes das irmãs muito legais HAIM. Mas acredito que o melhor trabalho dele com a Fiona seja o clipe de Hot knife. A letra da música? Bem… “If I’m butter, then he’s a hot knife” e logo em seguida “I’m a hot knife, he is a pad of butter”. Interprete como quiser, mas veja o clipe. Ela está violentíssima.
메타데이터
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- 2026-07-22 07:06:13