Um enigma chamado Kaspar Hauser
Este que é um dos casos mais estranhos do século XIX, ainda gera celeuma e fascina o mundo científico e artístico, e como não poderia…
Um enigma chamado Kaspar Hauser

Este que é um dos casos mais estranhos do século XIX, ainda gera celeuma e fascina o mundo científico e artístico, e como não poderia deixar de ser, foi incorporado pelos ufólogos, que tomam Kaspar Hauser como um abduzido ou até mesmo um náufrago de outro planeta ou de outra dimensão. Mas por que a chegada desse jovem a Nuremberg gerou tantos estudos, peças de teatro, filmes e até mesmo conferiu nome a uma síndrome psiquiátrica? Segundo Freud, porque Hauser “desperta em nós o ressentimento infantil e a fantasia de que, talvez, também sejamos príncipes perdidos”.
Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

O rio Pegnitz, ao passar por Nuremberg, a cidade onde Kaspar Hauser surgiu. Fotografia de meados do século XIX. Fonte: StadtBild.
A chegada
Há pouco mais de 195 anos, em 26 de maio de 1828, segunda-feira de Pentecostes, dois homens conversavam na Praça Unschlittplatz, em Nuremberg, quando foram abordados por um adolescente.
Depois de pedir informações sobre a New Gate Street, ele tirou uma carta do bolso endereçada ao “Capitão do Quarto Esquadrão do Regimento Schmollischer, Neue Thor Strasse (New Gate Street), Nuremberg”. Um dos homens, um sapateiro chamado Weichmann, ofereceu-se para levar o menino até lá porque ele estava indo naquela direção. Ao longo do caminho, eles conversaram brevemente, e Weichmann presumiu que ele era apenas um cavalariço com base no dialeto da Baixa Baviera que ele falava. Após apresentar o menino a um cabo regimental, Weichmann seguiu seu caminho.

Quando Kaspar Hauser chegou à Praça Unschlittplatz, vestido “à maneira dos camponeses, de casaca curta, lenço vermelho ao pescoço e botas altas”, o sapateiro Weichmann levou-o até ao capitão do quarto esquadrão do Sexto Regimento de Dragões de Nuremberg, tal como pedido na carta trazida pelo jovem. Quadro do século XIX, artista desconhecido. Fonte: Wikimedia.
Após ser levado para a casa do capitão von Wessenig, o menino deu o nome de “Kaspar Hauser”, e o criado permitiu que ele entrasse na casa para aguardar o retorno do capitão. Quando perguntado de onde tinha vindo, Kaspar respondeu que “não devia dizer” e então começou a chorar. Ele alegou que foi forçado a viajar dia e noite. O criado, emocionado com sua história, ofereceu-lhe comida e um lugar para dormir.
Quando o capitão voltou para casa, abriu o envelope de Kaspar, que continha duas cartas contraditórias, ambas não assinadas. A primeira carta era de uma “pobre diarista com dez filhos”, que dizia que Kaspar Hauser havia sido trazido a ela quando criança em 7 de outubro de 1812 por uma mulher que lhe pediu para criar a criança. A carta afirmava ainda que ela havia criado o menino da melhor maneira possível, ensinando-o a ler e escrever, até finalmente despachá-lo para se tornar um soldado, como seu pai. A mulher havia dito que ele era filho de um falecido soldado do 6º Regimento de Cavalaria.
Isso, em si mesmo, não constituía um grande problema. Afinal de contas, estávamos na Europa pós-napoleônica e, lembra-nos Henri Marie Beyle, que usava o pseudônimo de Stendhal (1783–1842), todos os jovens estavam ansiosos em busca de aventura.
A segunda carta foi aparentemente escrita pela mãe do menino e simplesmente afirmava que ele havia sido batizado e recebeu o primeiro nome de Kaspar:
“O seu nome é Kaspar […] Suplico que cuide de meu filho até os 17 anos. Ele é batizado. Nasceu em 30 de abril de 1812, sou uma mulher pobre, não posso alimentá-lo.”
E arrematava: “Se não quiser ficar com ele, mate-o ou enforque-o em uma árvore”.

A carta que Kaspar Hauser trazia consigo ao chegar a Nuremberg estava escrita com mão pouco hábil em um alemão cheio de falhas. Fonte: National Geographic.
Um exame revelou que a tinta da primeira carta não era tão velha como deveria ser se datasse de há 15 anos. Além disso, o 6º Regimento de Cavalaria acabara de chegar de Nuremberg onde não estivera na época provável do nascimento do jovem. A carta, obviamente, era falsa.
A segunda também o era. Escrita com mão pouco hábil, possuía muitos erros de ortografia que pareciam do tipo daqueles que teriam sido cometidos de propósito por alguém que quisesse livrar a sua pessoa de qualquer responsabilidade.
Exceto que o menino era filho de um soldado, não havia outra informação. O capitão não conseguiu descobrir nada mais do menino e, não estando particularmente interessado em sua história, o mandou para a polícia como um fugitivo. A polícia, sem saber o que fazer com ele, jogou-o em uma cela de prisão.

Este é o mais retrato mais fiel de Kaspar Hauser, elaborado por alguém que o viu como tal era em 1828/29. Autor desconhecido. Fonte: Wikipedia.

Kaspar Hauser em uma peça teatral de 1928.

Cena do filme O enigma de Kaspar Hauser (título brasileiro do filme Jeder für sich und gott gegen alle), do cineasta alemão Werner Herzog (1942-), lançado em 1974, e que expõe com crueza os mecanismos mais reacionários da sociedade. O ator que encarnou Kaspar, Bruno Schleinstein (1932–2010), conhecido como Bruno S., era filho não desejado de uma prostituta, tendo sofrido frequentemente abusos da mãe na infância, e passou parte da sua vida internado em hospitais psiquiátricos.
Cavalo de madeira
Nos dois meses seguintes, o menino foi relativamente bem tratado na prisão. Seus carcereiros notaram que Hauser era mais perspicaz do que parecia, mas embora pudesse escrever seu nome, “Kaspar Hauser”, ele teve dificuldade em responder a muitas das perguntas que lhe foram feitas devido ao seu vocabulário limitado. Não obstante, graças à sua curiosidade infantil e memória notável, incutiu várias noções muito depressa, e à medida que ficou mais à vontade, contou uma história incrível.
Ele disse que passou toda a sua vida trancado em uma cela de dois metros de comprimento, um metro e meio de largura e um metro e meio de altura, sem contato humano, onde tinha apenas uma cama de palha e um cavalo de madeira. A cela era tão pequena que ele nem conseguia ficar de pé e vivia em uma escuridão quase perpétua desde que as duas pequenas janelas da cela foram fechadas com tábuas. Todas as manhãs encontrava apenas pão e água para se alimentar. Ele estava na cela desde que conseguia se lembrar, e o único ser humano com quem tivera contato fora um homem com o rosto coberto que o ensinara a andar, a escrever o seu nome e a repetir a frase do cavaleiro. Mais tarde, ele foi libertado e informado de que seria levado para ser um soldado como seu pai. Finalmente então, ele fora retirado do local em que se encontrava e posto dentro de uma carruagem que o levou ao centro de Nuremberg.


Cenas de O Enigma de Kaspar Hauser.
Em novembro do mesmo ano, Kaspar Hauser repetiu sua história perante uma comissão especialmente designada de magistrados em Nuremberg (não sob juramento). O fato de ele ser capaz de andar e falar, apesar de ter sido mantido em uma cela toda a sua vida, sem exposição à linguagem ou exercício físico, não foi questionado. Para ser justo, alguns de seus defensores explicaram as inconsistências e sugeriram que Kaspar havia se confundido em alguns detalhes de sua história. Durante as tentativas de interrogá-lo ou fazê-lo expandir sua história, Kaspar costumava reclamar de dores de cabeça ou negar que já havia dito o que ouviram dizer.
Homoanimal
Um grande número de pessoas passou a acorrer à cidade bávara curiosa para ver aquele “homem meio selvagem”, criado à margem da civilização. A história de Kaspar Hauser tornou-se amplamente aceita e fez dele um objeto de simpatia em toda a Alemanha e na Europa. Ele tornou-se o “filho dileto da Europa”, ocupando a vaga deixada pelo Menino Selvagem de Aveyron, encontrado em 1798 e falecido naquele ano.

A “Criança Selvagem” (Jean-Pierre Cargol) na cena de abertura de L’enfant sauvage (O garoto selvagem), de 1970, dirigido por François Truffaut.
Os médicos que o examinaram concluíram que ele era um “homem animal” que havia sido isolado de outras pessoas e só agora estava aprendendo a viver como um ser humano. Embora outros casos de “crianças selvagens” fossem relativamente bem conhecidos, o caso de Kaspar Hauser parecia ser único.
Os médicos atestaram que Hauser não estava devidamente desenvolvido para a sua idade — ele parecia um menino dentro de um corpo adolescente –, bem como anomalias físicas na sua pélvis e pernas, das quais deduziram que ele deveria ter passado muitos anos sentado. A planta de seus pés tinha a pele fina como a de um bebê. Sua cabeça e pernas estavam cobertas de velhas cicatrizes, que se acreditava serem as marcas de abuso físico precoce. Encontraram também uma marca de vacina contra a varíola, que só era administrada às crianças das classes privilegiadas.
Hauser tinha uma personalidade simples e gentil e algumas habilidades peculiares. Podia enxergar muito longe, no escuro, e sabia lidar com os animais. Por outro lado, não percebia a terceira dimensão e foi necessário inculcá-la nele. Não apenas seus olhos eram extremamente sensíveis à luz, mas ruídos altos, incluindo tempestades e bandas regimentais, o perturbavam muito. Ele tinha um olfato aguçado e era repelido pelo cheiro de qualquer flor. Preferia beber apenas água e nunca aprendeu a gostar de beber vinho ou cerveja.

Kaspar Hauser por Johann Friedrich Carl Kreul (1804–1867), por volta de 1830. Fonte: Wikipedia.
Como Hauser era considerado um idiota (como o termo era usado naquela época), esses visitantes não hesitaram em discutir seu caso em sua presença, juntamente com todo tipo de teorias fantasiosas sobre suas origens. Se ouvir essas histórias inspirou ou não Hauser em suas reivindicações posteriores, ninguém sabe.
Os rumores da verdadeira identidade de Hauser começaram a voar. Nesse ínterim, a polícia vasculhou o país tentando encontrar qualquer vestígio das origens de Hauser. Ninguém que correspondesse à sua descrição jamais foi encontrado, e nenhum relatório de pessoa desaparecida que pudesse estabelecer sua verdadeira identidade jamais apareceu.
Georg Friedrich Daumer
Em julho de 1828, Kaspar Hauser foi formalmente adotado pela cidade de Nuremberg, e uma pensão anual foi aprovada para sua manutenção. As autoridades puseram Hauser sob a guarda de Georg Friedrich Daumer (1800–1875), um poeta, filósofo e ocultista que por vários anos havia sido professor no ginásio de Nuremberg, mas que devido a problemas de saúde, foi aposentado em 1832 e, a partir de então, dedicou-se inteiramente ao trabalho literário. Daumer já havia começado a educar Hauser em sua cela e havia notado seu incrível progresso em aprender a ler e escrever. Esta educação não correu bem, no entanto. Daumer reclamou do fluxo constante de visitantes que estavam interferindo nas aulas de seu aluno.

Georg Friedrich Daumer
De protestante ortodoxo, Daumer tornou-se gradualmente um amargo inimigo do cristianismo, que atacou em vários escritos e pelo qual se esforçou para substituí-lo por uma nova religião “de amor e paz”. Daumer sonhava com uma nova religião e via em Hauser um enviado de Deus, “tão puro como a luz”. Ele ensinou-o a ler, a escrever, a pintar e a jogar xadrez e incentivou-o a escrever tudo o que se recordasse do seu passado. Também o submeteu a inúmeras experiências de homeopatia e magnetismo, muito populares nessa época.
O primeiro atentado
Um ano depois de ter chegado em Nuremberg, Hauser sofreu o primeiro atentado. Em 17 de outubro de 1829, Hauser foi encontrado agachado no porão da casa de Daumer. Ele estava sangrando de um corte na testa que, embora leve, o manteve acamado por dois dias. Mais tarde, ele disse que havia sido atacado por um homem com um lenço preto no rosto, que o atingiu com uma faca e disse que seria morto. Hauser disse que reconheceu a voz do homem como aquele que o manteve prisioneiro pela primeira vez e o levara para Nuremberg. Apesar das dúvidas sobre como alguém poderia ter entrado na casa sem que ninguém percebesse, uma investigação policial não encontrou vestígios do misterioso agressor. Dada a natureza implausível da história e questões sobre a credibilidade de Hauser, os céticos o acusaram de inventar o ataque.

Kaspar Hauser teve diversos tutores entre 1829 e 1833. Este desenho da época mostra-o na casa de Georg Friedrich Daumer, o primeiro deles.
Hauser foi colocado sob observação policial e era vigiado regularmente por dois policiais sempre que saía de casa. O professor Daumer pediu que Hauser fosse enviado para outro lugar para morar. Não só Daumer estava cansado do escrutínio, como também passou a acreditar que Hauser era um mentiroso compulsivo. Em uma carta, Daumer afirmou que “a natureza de Kaspar Hauser havia perdido muito de sua pureza original e que uma tendência altamente lamentável à falsidade e dissimulação havia se manifestado”. Ele acrescentou que ele e Hauser brigaram no mesmo dia do alegado ataque porque Hauser estava negligenciando seus estudos. Depois de deixar os Daumers, Hauser tornou-se oficial do Barão von Tucher e foi colocado na casa de um comerciante de Nuremberg chamado Biberbach.
Sua estada com os Biberbachs não durou muito, pois eles ficaram ainda mais enojados com as mentiras e preguiça de Hauser do que os Daumers. Em 30 de abril de 1830, após uma briga particularmente desagradável com os Biberbachs, a polícia que guardava a casa se assustou com o som de um tiro. Kaspar foi encontrado sangrando de um ferimento no lado direito da cabeça. Embora ele tenha considerado um acidente, as circunstâncias pareciam implausíveis e os Biberbachs pediram que ele fosse removido de sua casa. Mas ele foi devolvido à casa dos von Tucher, onde viveu por mais dezoito meses. Cada vez mais desencantado com Hauser, von Tucher o acusou de ser “moralmente corrompido” pela atenção que recebeu quando foi descoberto pela primeira vez.
Foi também nessa época que o caso de Kaspar Hauser começou a atrair a atenção internacional. Uma série de panfletos sobre “o notável enjeitado de Nuremberg” foi publicada, alguns céticos em relação a suas afirmações, enquanto outros especulavam sobre suas origens.
Philip Henry Stanhope
Em 1831, um aristocrata inglês, Philip Henry Stanhope, 4º Conde Stanhope (1781–1855), presidente da Medico-Botanical Society of London, vice-presidente da Society of Arts, agente secreto, homeopata amador e pesquisador do ocultismo, interessou-se pela história do “enjeitado” Kaspar.

Retrato de Philip Henry Stanhope, 4º Conde Stanhope, século XIX.
Com seu amigo íntimo Edward Bulwer Lytton (1803–1873), Stanhope 4º, assim como Benjamin Disraeli (1804–1881), era um membro do Círculo Órfico ocultista na década de 1830. Seu filho, Philip Henry Stanhope, 5º Conde Stanhope (1805–1875), manteve correspondência com Charles Darwin (1809–1882).
Philip Henry Stanhope sentou-se no Parlamento por Wendover em 1806–7, Hull em 1807–12 e Midhurst de 1812 até sua sucessão ao título de nobreza em 15 de dezembro de 1816. Como outros membros de sua talentosa família, principalmente sua irmã Hester Stanhope, ele geralmente é retratado como um personagem um tanto excêntrico. Tendo estudado na Alemanha, ele viajava extensivamente pela Europa (a maioria das vezes sozinho, embora fosse casado e tivesse um filho e uma filha), convivendo com várias cortes principescas e gastando muito dinheiro. Em contraste com alguns relatos, que sugerem que ele viveu além de suas posses, parece certo que ele era rico, pelo menos depois de ter sucedido seu pai em 1816.
Stanhope logo sentiu uma forte afeição pelo jovem: de fato, o relacionamento deles poderia ter tido conotações homo eróticas, como sugeriam rumores contemporâneos. Ele o dotou generosamente e pagou por pesquisas (inúteis) na Hungria para esclarecer a origem do jovem, já que este último, em 1830, afirmou lembrar algumas palavras húngaras e eslavas que levaram a especulações de que ele poderia ter vindo de lá.
Em dezembro de 1831, Stanhope tornou-se o pai adotivo de Hauser e o transferiu aos cuidados de um professor. Em janeiro de 1832, ele voltou para a Inglaterra, de onde continuou a se comunicar por carta com seu filho adotivo e também com os funcionários que examinavam o caso. Stanhope favoreceu a teoria de que Hauser provinha de magnatas húngaros, mas teve que desistir dessa ideia quando foi informado de que novas investigações na Hungria haviam, mais uma vez, falhado completamente.
Em uma carta ao presidente da corte da Baviera, Paul Johann Anselm Ritter von Feuerbach (1775–1833), datada de 5 de outubro de 1832, Stanhope expressou claramente suas dúvidas sobre a credibilidade de Hauser, que começara a agir mais como um príncipe no exílio e se adaptado rapidamente ao seu novo papel social, ainda que, cabe frisar, ele não tenha realmente incentivado tais histórias.

Retrato de Paul Johann Anselm Ritter von Feuerbach. Autor desconhecido. Fonte: Wikipedia.
Em 1832, Feuerbach, nada menos do que o fundador da moderna doutrina do direito penal da Alemanha e pai do filósofo e antropólogo Ludwig Andreas Feuerbach (1804–1872), que influenciou o pensamento de Karl Marx (1818–1883) e Sigmund Freud (1856–1939), publicou Kaspar Hauser: Exemplo de um crime na vida mental do homem (Kaspar Hauser. Beispiel eines Verbrechens am Seelenleben des Menschen), na qual descreveu com eloquência a tragédia da história de Kaspar Hauser. Feuerbach tornou-se um fervoroso defensor e, mais tarde, um dos guardiões de Kaspar.

Stanhope seguiu todas as pistas e até levou Hauser para a Hungria com base em sua vaga memória de algumas palavras em húngaro. Hauser gostou da atenção e von Tucher escreveu uma carta a Stanhope reclamando que seu pupilo estava se tornando mais vaidoso do que nunca. Os burgueses de Nuremberg cancelaram a pensão anual de Hauser e insinuaram que Stanhope deveria se encarregar dele. Eles certamente ficaram encantados quando Lorde Stanhope concordou em fazer de Hauser seu pupilo e o colocou sob os cuidados de um mestre-escola chamado Meyer. Embora Kaspar desfrutasse desse novo status, quaisquer esperanças que ele tivesse de ir para a Inglaterra duraram pouco quando Stanhope voltou para casa sozinho.
Embora continuasse a pagar as despesas de vida de seu filho adotivo, ele nunca cumpriu sua promessa de levá-lo para a Inglaterra e suas cartas para Hauser tornaram-se menos afetuosas. Hauser percebeu essa mudança de humor. Ademais, qualquer prazer que Hauser tivesse com toda a atenção que recebia desapareceu quando ficou claro que as pessoas estavam ficando menos interessadas nele. Ele deixou de ser uma novidade e começaram a se espalhar histórias que o descreviam como enganador e manipulador. Foi quando começaram os atentados contra sua vida.
A busca pela família biológica de Hauser continuou, e ele começou a alegar que era filho de uma condessa húngara. Quando Stanhope voltou a Nuremberg, ele iniciou uma nova investigação e enviou agentes para a Hungria, mas, como antes, nenhuma prova foi encontrada de que Hauser já esteve lá. Stanhope também ficou exasperado com os relatórios do professor Meyer de que Hauser não estava estudando adequadamente, bem como com as novas queixas de suas mentiras. Stanhope fez arranjos para que Hauser se tornasse escriturário, já que ele não parecia capaz de outra profissão. Em 9 de dezembro de 1833, Hauser teve uma discussão terrível com Meyer e temia abertamente o que Stanhope diria quando chegasse em casa alguns dias depois.
A morte de Kaspar Hauser
Cinco dias depois, Hauser correu para a sala onde Meyer e sua esposa estavam sentados. Ele estava sem fôlego e apontou para uma ferida em seu peito onde alguém o havia esfaqueado. Meyer o levou de volta para casa para ser tratado. Embora os médicos inicialmente acreditassem que a ferida era superficial, sua condição piorou drasticamente. A polícia o interrogou e ele disse que havia sido atraído para o Hofgarten com uma mensagem falsa de que forneceriam informações sobre sua origem e esfaqueado. Além de uma nota estranha encontrada em uma bolsa de seda perto de onde Hauser foi encontrado, nenhuma outra pista do ataque foi encontrada. Kaspar Hauser morreu em 17 de dezembro de 1833.

O atentado fatal em cena de O Enigma de Kaspar Hauser.
Uma autópsia levantou questões sobre o ataque de Hauser e sua versão dos acontecimentos. Os especialistas médicos que examinaram as evidências ficaram divididos sobre se o ferimento de Hauser foi autoinfligido ou se ele foi morto por um agressor desconhecido. Embora alguns apoiadores sugerissem que Hauser foi assassinado para impedi-lo de provar suas origens reais, os céticos especularam que Hauser realmente se esfaqueou para despertar o interesse público em sua história e julgou mal a profundidade do ferimento de faca. A faca nunca foi encontrada, mas pode ter sido jogada em um riacho próximo. Uma investigação formal concluiu que nenhum assassinato ocorreu e que Hauser havia se esfaqueado.
Embora Stanhope há muito tivesse parado de acreditar nas histórias de Hauser, a princípio ele era da opinião de que Hauser havia realmente sido assassinado, uma visão que ele mencionou em uma de suas cartas (datada de 28 de dezembro). Em outra carta de 7 de janeiro de 1834, quando recebeu mais informações sobre o ocorrido, uma mudança de opinião se anunciou; ele defenderia mais tarde a posição de que o próprio Hauser havia infligido a ferida por pressão e que tivesse espremido a ponta da faca em seu casaco acolchoado, ela havia penetrado muito mais fundo do que ele pretendia.
Em seu Tracts Relating to Caspar Hauser (1836), Stanhope publicou todas as evidências conhecidas contra Hauser. Stanhope, de fato, foi atacado por seguidores de Hauser e até acusado de planejar sua morte. Eles sugeriram que Hauser era um príncipe hereditário de Baden e foi assassinado por motivos políticos. Alguns historiadores profissionais, como Ivo Striedinger (1868–1943), defenderam Lord Stanhope como um “buscador da verdade” e como um filantropo enganado que percebeu sua ilusão.

O autor antroposofista Johannes Mayer, no entanto, comprovou as acusações contra Stanhope em Der Gegenspieler Kaspar Hausers (Urachhaus, 1988) um importante estudo biográfico sobre ele, e mostrou que ele era de fato um agente político britânico trabalhando para a Casa de Baden contra Kaspar Hauser.

Filho da grã-duquesa de Baden?
A história mais persistente era a de que Kaspar Hauser era na verdade fruto da união entre a filha adotiva de Napoleão, a grã-duquesa de Baden, Stéphanie Louise Adrienne de Beauharnais (1789–1860), e Carlos Frederico, grão-duque de Baden (1728–1811). Em 1812, Stéphanie deu à luz a um menino que tencionou batizar de Gaspard. No entanto, Luise, a madrasta de Karl, segundo mulher de seu pai, pretendendo assegurar a seu próprio filho a herança do trono de Baden — o que de fato acabou acontecendo –, trocou o filho de Stéphanie por um bebê doente, que morreria pouco depois.

A grã-duquesa de Baden, Stéphanie Louise Adrienne de Beauharnais, retratada por François Gérard em 1807. Fonte: Wikipedia.
O herdeiro saudável foi então trancafiado em um calabouço e alimentado a pão e água por um homem de cabelos pretos, cujo rosto ele nunca via. O menino passava a maior parte do tempo dormindo ou brincando com um cavalinho de pau. Perto da adolescência, o carcereiro abandonou-o em Nuremberg junto com a carta de apresentação ao capitão da cavalaria.
Destarte, para azar dos conspiradores, o rapaz começou a desconfiar de sua origem. Temendo que o reconhecessem, aliciaram o conde de Stanhope, que aproximou-se do jovem fingindo ser seu protetor. Ele teria sido o responsável pelas duas tentativas de assassiná-lo.

Cena de O enigma de Kaspar Hauser.
Avisada por Daumer, a grã-duquesa Stéphanie tentou conhecer Hauser. Este, no entanto, acabaria assassinado antes que o encontro se concretizasse. E o juiz Paul Johann Anselm Ritter von Feuerbach, encarregado do processo e julgamento do caso, morreu (em 29 de maio de 1833) antes que completasse suas investigações. Suspeita-se que tenha sido envenenado por Stanhope.
O “conto de fadas” foi totalmente refutado em 1876 no livro do juiz e jornalista alemão Otto Samuel Ludwig Mittelstaedt (1834–1899) intitulado Kaspar Hauser e seu Principado de Baden (Kaspar Hauser und sein badisches Prinzenthum).

A controvérsia, no entanto, se arrastou e panfletos foram publicados denunciando Stanhope e acusando várias pessoas na vida de Hauser de encobrir o assassinato.
Anos depois, o professor Daumer escreveu um livro no qual insistia que Stanhope havia planejado o assassinato de Hauser. A filha de Stanhope, Catherine Lucy Wilhelmina Powlett, Duquesa de Cleveland, publicou em 1893 The true story of Kaspar Hauser from official documents (London, Macmillan), em que defendia seu pai.

O mistério continua
Um exame de DNA realizado na Alemanha e divulgado em 24 de novembro de 1996, eliminou a hipótese de que Hauser fosse o herdeiro do trono de Baden. Dois institutos forenses compararam restos de sangue encontrados em sua cueca com o sangue de duas descendentes vivas da dinastia de Baden. Hauser efetivamente não pertencia a essa linhagem.[1]

Folha de S. Paulo, 25 de novembro de 1996, mundo, p.16, c.1.
O exame de DNA derrubou todas as hipóteses românticas que ainda remanesciam e que se ajustavam bem à atmosfera da época. Restou apenas uma: a de que Hauser não passava de um mendigo que fingia ser nobre para atrair a simpatia alheia. Ele próprio, portanto, teria se ferido ao perceber que o interesse por sua figura estava diminuindo.
Jeffrey Moussaieff Masson ratificou essa hipótese em O príncipe perdido: o mistério não resolvido de Kaspar Hauser (The lost prince: the unsolved mistery of Kaspar Hauser, Free Press, 1996).

O livro fornece a tradução completa do texto escrito por Feuerbach, em 1832, precedida de uma longa introdução em que defende a tese do príncipe perdido. Mas por que, afinal, essa história nos desconcerta e nos preocupa até hoje? Freud oferece uma explicação:
“Temos razão ao recriminar a natureza e nosso destino pelas nossas desvantagens infantis e congênitas e pedimos reparação pelas feridas que, desde cedo, foram abertas em nosso narcisismo e auto-estima. Por que a natureza não nos deu os cachos louros de Balder ou a força de Siegfried, a capacidade intelectual do gênio ou o nobre perfil do aristocrata? Por que nascemos num lar de classe média e não num palácio real?”. Hauser desperta em nós o ressentimento infantil e a fantasia de que, talvez, também sejamos príncipes perdidos.[2]
Atualmente, hipótese mais aceita centra-se no Tirol, onde o nome de Kaspar Hauser surge num monólito que recorda os mortos em 1809, na luta contra as tropas bávaras que tinham ocupado a região no início do século. Sabe-se que existe nessa região uma doença endêmica que provoca as anomalias musculares e cerebrais documentadas em Hauser. A marca no seu braço se deveria ao fato de as autoridades bávaras terem, nessa época, introduzido a obrigatoriedade da incipiente vacina contra a varíola, que causava danos na zona.
É lícito supor assim que Hauser fosse fruto da relação entre um soldado bávaro e uma camponesa local. Os tiroleses teriam devolvido um rapaz doente, sem qualquer utilidade, ao seu progenitor. Quanto ao nome, talvez quisessem recordar um Kaspar Hauser que morreu lutando contra Napoleão em 1809 e ao qual se prestou homenagem num monólito erigido na zona.

Memorial no local do atentado contra Kaspar Hauser nos jardins do Castelo de Ansbach. Fonte: Wikimedia.
O caso de Kaspar Hauser gerou dois mil livros e quinze mil ensaios, entre eles os de Rainer Marie Rilke (1875–1926), Klaus Mann (1906–1949) e Peter Handke (1942-).
O linguista, tradutor e semioticista Isidoro Blikstein (1938-), em seu livro Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade, analisa:
“O segredo de Kaspar Hauser resistirá à dissecação de seu cadáver e até mesmo à retalhação de seu cérebro; depois do exame inútil, aos pontificais cientistas — parece que saídos do quadro de Rembrandt — só resta ir embora e dar de ombros ceticamente. […] De fato, pior do que os enigmas atirados ao espectador, é o estranho mundo em que se vê, de repente, plantado, atônito, perplexo, o próprio Hauser. Seu olhar fixo diante de pessoas, ruas, casas, objetos, paisagens. Tudo assusta. As dimensões, os movimentos, a lógica, a perspectiva, o pensamento, a fala, o riso.”[3]
Apesar de decodificada pela linguagem (pelas palavras e por signos linguísticos), a paisagem em que foi colocado Hauser permanece turva e indecifrável:
“Tão turva quanto as sombras que se movem nos desertos de seus pesadelos. Conhecer o mundo pela linguagem, por signos linguísticos, parece não bastar para dissolver o permanente mistério e a perplexidade do olhar de Hauser. Talvez porque a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação linguística com que o recortamos…”.[4]

Na acepção de Charles S. Pierce (1839–1914),
“um signo, ou representâmen, é aquilo que sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto. […] Mas, para que algo possa ser um signo, esse algo deve ‘representar’, como costumamos dizer, alguma coisa, chamada seu objeto, apesar de ser talvez arbitrária a condição segundo a qual um signo deve ser algo distinto de seu objeto, dado que, se insistirmos nesse ponto, devemos abrir uma exceção para o caso em que um signo é parte de um signo. Segundo esta colocação, todo signo tem, real ou virtualmente, um preceito de explicação segundo o qual ele deve ser entendido como uma espécie de emanação, por assim dizer, de seu objeto.”[5]
O signo seria, afinal, algo que substitui ou representa as coisas, isto é, a realidade:
“O signo representaria a realidade extralinguística e, em princípio, é por meio dele que podemos conhecê-la. A Kaspar Hauser, por exemplo, impingiam todos os tipos de signos, na certeza de que ele compreenderia o insólito ambiente que o cercava. Cabe observar que essa inculcação semiológica não ocorre apenas com Hauser: de um modo geral, todo processo educativo e de socialização é tributário da representatividade e de socialização do signo; vale dizer que a educação, via de regra, não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade.”[6]
Seria no fenômeno da percepção-cognição, portanto, antes mesmo da linguagem, que se desenhariam as raízes da significação.[7]
“Fabricado pelos estereótipos”, enuncia Blikstein, “o referente se interpõe entre nós e a ‘realidade’, fingindo ser o ‘real’. A ideia de não percebemos o ‘real’, mas o referente, ou o ‘real fabricado’, foi visualizada com exatidão por R. Magritte, num quadro justamente denominado A condição humana. Explorando semiologicamente a composição de A condição humana, diríamos que o estereótipo é o quadro em si, com o seu ‘layout’ ou diagrama, o referente é o conteúdo pictural do quadro (a ‘paisagem’ pintada) e o real é o universo desordenado e contínuo que se encontra atrás do quadro. O que vemos, na verdade, é um referente ‘paisagem’ balizado pelos estereótipos de percepção. É o que se pode verificar no esquema básico do quadro de Magritte.”[8]

Cena de O enigma de Kaspar Hauser.
A linguagem criativa e poética, no conflito dialético com a práxis, desmonta os corredores isotrópicos e os estereótipos denunciando a fabricação da realidade:
“Por isso é que Hauser representa um incômodo: ao usar a linguagem para desafiar a percepção/cognição que lhe inculcam, ele mostra que a realidade tão bem ordenada e natural é apenas um produto da práxis da comunidade de Nuremberg. Hauser torna-se subversivo e abala os fundamentos da ilusão referencial. E é sobretudo por essa práxis libertadora (e não por um mero lance da novela policial) que ele deve morrer.”[9]
O juiz Feuerbach fez assunções fantásticas para a época:
“Kaspar Hauser demonstrava deficiência tão grande de palavras e ideias, uma ignorância tão acentuada das coisas mais comuns e um horror tão grande de todos os costumes, todas as conveniências e necessidades da vida civilizada, e, além disso, havia peculiaridades tão extraordinárias em sua disposição social, mental e física, que qualquer pessoa poderia ser levada a acreditar que ele pudesse ser um cidadão de outro planeta, transferido, através de algum milagre, para o nosso.”
Jacques Bergier em Os extraterrestres na história, emite proposições que apoiam Feuerbach, a quem confunde com o seu filho, o filósofo Ludwig Andreas Feuerbach:
“Talvez seja possível propor uma explicação extraterrestre. Em minha opinião, depois do período de simples controle e registro, veio o período de experiências, as quais consistiram em introduzir, em nosso meio, seres que instassem as mais diversas reações de modo a permitir um estudo completo do comportamento humano, da mesma forma que nós estudamos o comportamento de ratos em labirintos artificiais.”[10]

La leggenda di Kaspar Hauser (A lenda de Kaspar Hauser), filme italiano dirigido por Davide Manuli em 2012. Depois de ter desaparecido ainda pequeno, por mão dos seus inimigos, para que não pudesse herdar a coroa, o príncipe Kaspar Hauser (Silvia Calderoni) volta de repente a aparecer numa praia deserta do Mar Mediterrâneo, num tempo e num lugar não especificados. Deverá confrontar-se com a crueldade de uma grã-duquesa (Claudia Gerini) que sente ameaçado o poder que ela exerce sobre a comunidade. Para livrar-se do intruso loiro, procura então a ajuda de Pusher (Vincent Gallo), um criminoso com o qual tem uma relação. Mas ele esquece-se de tomar em conta o xerife, um DJ que considera Kaspar o Novo Messias.
Mas o que podemos dizer sobre Kaspar Hauser? Mesmo que certos aspectos de sua história possam ser descartados como exagero (ele aprendeu a falar e a andar de maneira suspeita, devido às suas alegações de ter crescido em uma cela), há poucas dúvidas de que ele sofreu abuso e negligência em sua infância. As cicatrizes em seu corpo e o nanismo psicossocial que ele experimentou (que ainda é conhecido como “Síndrome de Kaspar Hauser”) parecem testemunho suficiente disso. Desde então, estudos de DNA descartaram que ele fizesse parte da família real de Baden, embora ainda existam dúvidas sobre sua verdadeira identidade. O mistério contínuo pode ser um legado adequado para um estranho enjeitado que gostava de atenção.

NOTAS
-
“DNA mantém enigma de Kaspar Hauser”, in Folha de S. Paulo, São Paulo, 25–11–1996, mundo, p.16, c.1.
-
Hall, Allison. “Enigma de Kaspar Hauser continua insolúvel”, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9–3–1997, Caderno 2, livros, p.D-6.
-
Blikstein, Isidoro. Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1983, p.11–12.
4. Ibid., p.17.
-
Pierce, Charles. Semiótica, 2ª ed., São Paulo, Perspectiva, 1990, p.46–47.
-
Blikstein, Isidoro, op. cit., p.20–21.
-
Ibid., p.39.
-
Ibid., p.62–63.
-
Ibid., p. 86.
-
Bergier, Jacques. Os extraterrestres na história, São Paulo, Hemus, 1981, p.138.
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