Domínio eleitoral
PSDB se consolida como a grande força política camaquense
ELEIÇÕES
Domínio eleitoral
PSDB se consolida como a grande força política camaquense
Executivo de Camaquã é comandado pelo PSDB desde 2017 | Foto: Pedro Bugs
O cenário da política em Camaquã, no Rio Grande do Sul, pode ser separado historicamente em dois momentos: o anterior e o posterior às eleições municipais de 2016. Naquele ano, Ivo Ferreira de Lima (PSDB) conquistou 34,46% dos válidos para prefeito, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e, pela primeira vez, o partido venceu. Desde então, o município, que antes havia sido governado por diversas siglas, como PP, MDB e PDT, é comandado pelos tucanos. O partido ganhou força na Capital brasileira do arroz parboilizado e se consolidou como a grande frente partidária também no Legislativo.
A consolidação e a continuidade do PSDB em Camaquã, que tem cerca de 62 mil habitantes segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), podem estar ligadas a vários fatores, como o desenvolvimento do município, a falta de uma oposição unida e ao fenômeno de fidelização dos eleitores, destaca Jéssica Krislei, mestranda em Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Para Krislei, que faz parte do Núcleo de Pesquisa Política da UFRGS (NUPERGS) e estuda sobre a lógica político-partidária, uma das causas do fortalecimento do partido no município pode ser atribuída a ações que estejam visíveis à população. Com a chegada da usina de asfalto, que é administrada pelo poder público, entre 2019 e 2020, a zona urbana da cidade teve várias mudanças perceptíveis. Algumas vias foram pavimentadas, o que refletiu diretamente na mobilidade e pode ter influenciado a visão dos participantes.
Um dos reflexos da soberania tucana em Camaquã é o resultado das eleições de 2024. O município possui 50.934 eleitores, desses, 22.111 votaram em Abner Dillmann (PSDB), que se elegeu prefeito aos 31 anos, se tornando o mais jovem prefeito eleito na história camaquense. Ele teve 63,06% dos votos válidos. Abner acredita que os bons projetos, a união e a continuidade foram o diferencial na corrida eleitoral. “Toda a construção dos últimos oito anos do prefeito Ivo teve reflexo. A aprovação nos dá força para continuar representando o município”, diz Abner, que é o atual vice-prefeito de Ivo, vencedor nas eleições de 2016 e de 2020.
Abner Dillmann é o prefeito eleito mais novo da história camaquense | Foto: Pedro Bugs
Fortalecimento e manutenção do eleitorado
Contrariando o cenário nacional, onde o PSDB perde força, o partido, que nas palavras de Abner era praticamente “um nada” em Camaquã, se fortaleceu também usando a estratégia do clientelismo, na opinião de Krislei: “A proximidade entre políticos e eleitores facilita a formação de redes de apoio e clientelismo, o que fortalece a base eleitoral do partido no poder”. Essa situação não acontece em municípios maiores, onde o candidato não tem proximidade com o eleitor e não consegue estabelecer uma relação próxima. O professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Sergio Simoni Junior, analisa que as disputas partidárias são muito específicas e dependem do contexto local. “As relações interpessoais em municípios menores são muito mais importantes do que em municípios grandes”, destaca Simoni.
Eduardo Corrêa, 21 anos, estudante de Engenharia de Software na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), afirma que nunca havia votado no PSDB até as eleições deste ano, e que a escolha não teve relação com nenhuma questão ideológica. Corrêa diz que a opção se deve a dois fatores. Um deles é a falta de identificação com o Partido Progressista (PP), que também concorria. O segundo motivo foi visualizar o desenvolvimento no município: “Ainda falta bastante coisa, principalmente nas estradas do interior, mas é verdade que Camaquã se desenvolveu nos últimos oito anos”, aponta o estudante.
Evolução dos votos para os tucanos
Dados do TSE mostram a evolução na porcentagem dos votos válidos que o PSDB teve em Camaquã nas últimas três eleições
Dados do TSE mostram evolução dos votos válidos do PSDB nas últimas três eleições municipais | Arte: Pedro Bugs
Campanha eleitoral de 2024
A corrida eleitoral de 2024 em Camaquã foi marcada por polêmicas e acusações. A chapa do PSDB chegou inclusive a fazer um registro na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) contra acusações que os membros do partido consideravam que ultrapassavam o caráter político.
O município, de acordo com o TSE, teve uma taxa de 25,37% de abstenção. A falta de participação política foi sentida principalmente entre os jovens. O prefeito eleito diz que sua principal dificuldade foi conversar com pessoas mais novas, que preferem ficar alheias ao processo democrático. “Essa falta de adesão pode estar ligada a um contexto político mais amplo, visto que a abstenção cresceu em grande parte do Brasil”, relatou Abner.
Situação X Oposição
Com uma situação fortalecida com três mandatos seguidos no Executivo, o reflexo também é perceptível no Legislativo. Em um jogo político feito especialmente para esta eleição, a coligação, que tem, além do PSDB, MDB, União Brasil, PSB e Republicanos, conquistou dez das 15 cadeiras da Câmara dos Vereadores. Krislei destaca que esse cenário pode ser compreendido de duas formas. Por um lado, vai ocorrer uma fácil articulação para a aprovação de projetos e propostas, facilitando a governabilidade. Por outro, reduz o espaço para debates amplos, já que a aprovação de medidas se torna menos desafiadora para o Executivo.
“A Câmara de Vereadores se tornou um puxadinho do Executivo. Vereadores vendem seu voto por cargos na prefeitura”, Claiton Silva, vereador de Camaquã
O vereador Claiton Silva (PDT), eleito para o seu terceiro mandato consecutivo, é um dos políticos que faz oposição à situação. Para ele, um dos fatores que favorecem a continuidade do PSDB em Camaquã é o uso de uma forma mais agressiva do orçamento público para interesses partidários, o que pode trazer problemas aos cofres do governo.
Claiton diz que um fator que prejudica a organização da oposição é a falta de união e pensamentos uniformes. Ele afirma que haverá diálogo para que aconteça um fortalecimento para os próximos quatro anos. “A Câmara de Vereadores se tornou um puxadinho do Executivo. Vereadores vendem seu voto por cargos na prefeitura”, acusa o vereador.
Dez das 15 cadeiras da Câmara dos Vereadores estão na coligação que vai governar Camaquã pelos próximos anos | Foto: Pedro Bugs
Futuro camaquense
Não é possível afirmar que o domínio do partido que comanda a cidade vai perdurar por muitos anos, porém Krislei diz que será necessária uma ampla mobilização e união da oposição para que isso não ocorra.
Um dos problemas da cidade, que inclusive foi foco da campanha de oposição, são as estradas do interior. Camaquã possui vasta área rural e depende do tráfego dos agricultores nas vias para conseguir movimentar a economia. Abner reconhece que esse é um dos pontos que o governo precisa ter maior foco e disse que busca reverter esse cenário.
O desenvolvimento também deve continuar sendo foco do PSDB. Em um atual cenário ambiental, onde mudanças climáticas interferem na vida do cidadão, um plano especial para enfrentar os desafios provocados pelo clima deve ser implementado.
O grande salto no domínio local do PSDB pode estar relacionado a essa proximidade entre políticos e a comunidade e resta saber até quando essa soberania eleitoral durará.
Reportagem produzida para a disciplina de Fundamentos da Reportagem do Curso de Jornalismo da FABICO/UFRGS.
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