A VIDA ME FEZ GREMISTA
Por Guilherme Natividade
A VIDA ME FEZ GREMISTA
Por Guilherme Natividade

Foto: Richard Dücker
Por mais materialista que eu particularmente possa ser, de maneira convicta — o que me faz não crer na mística irracional do destino — , contraditoriamente, devo me render ao clichê e dizer que fui, desde os meus primórdios existenciais, “predestinado”, pela vida, a ser gremista. Utilizando de um chavão popular mais objetivo, posso afirmar que, de certo modo, eu nasci para ser gremista. E certamente que, como de costume, somente para e com o Grêmio eu poderia me aproveitar das contradições e das hipocrisias que só o universo do futebol me permite para, enquanto torcedor fanático, usufruir do proveito das superstições, a fim de inflar a livre expressão do meu gremismo simbólico enlouquecedor.
O que pretendo expressar neste texto é que, aparentemente, as minhas raízes pessoais se vinculam diretamente e se assemelham com as marcas originárias da mística tricolor de maneira institucional. Talvez, para a minha própria história, me falte apenas o emblemático sangue azul, que, como na genealogia dos nobres, está intrinsecamente aglutinado nas trajetórias gremistas grifadas por incontáveis glórias e feitos heróicos e imortais. Porém, posso perceber e, assim, garantir que não me carece a mesma garra, a mesma raça, a mesma alma castelhana, a mesma essência do que compõe a minha autossuficiência e constitui a nossa imortalidade.
A nobreza real e a primeira semelhança direta parte do meu próprio nome, que contém a mesma letra inicial de minha grande e maior paixão de três belíssimas cores. A segunda, e não menos simbólica e importante, se vincula à minha origem, isto é, ao local de meu nascimento. Trata-se de uma demasiada “coincidência” que eu tenha vindo ao mundo justamente no Hospital Moinhos de Vento — antigo Hospital Alemão — , de tradição germânica e excelência na área da saúde em Porto Alegre e no sul do Brasil, de modo geral, estando localizado no bairro sede do saudoso Fortim da Baixada, primeira casa gremista.
Contudo, repare como, historicamente, as coisas boas da vida geralmente vêm em três (e quem tem mais, atualmente, tem três). Grandes franquias, grandes vitórias, grandes títulos, tudo tende sempre a resultar em “tri”, assim como, em especial, uma tripla conquista libertadora da América. O três, multiplicado por ele mesmo, resulta no total de letras que, combinadas, formam, com maestria, a esplêndida palavra “Grêmio”; enquanto o resultado desta soma, adicionado a mais três, totaliza o conjunto de sílabas que, divididas em três, completam a escrita da minha nomenclatura pessoal.
Portanto, a terceira semelhança que aqui aponto se refere especificamente à data de meu nascimento. Claro que não nasci literalmente a partir de uma bola no ano da graça de 1903, mas o simbolismo dessa época remete ao dia em que, próximo à localidade do antigo Estádio da Baixada do Moinhos de Vento, vim ao mundo como um genuíno gaúcho porto-alegrense. E óbvio, um predestinado futuro gremista.
Privilegiado pelo advento de chamativos olhos azuis da cor do céu e do mar — o que, com o passar do tempo, perdi em minha caracterização física, mas que combinaria exatamente com minha expressiva alma azul celeste — , na noite do dia 19 de março de 1999, o Rio Grande do Sul ganhou mais um cidadão gaúcho que, futuramente, se somaria às estatísticas que confirmam, há décadas, qual é a maior e melhor torcida deste estado sul-brasileiro. Curiosamente, retornando à premissa de que as coisas boas da vida costumam vir em três, março é, nada mais nada menos, do que o terceiro mês do ano. Seria essa, então, mais uma mera “coincidência” ou uma obra do destino e da mística tricolor?
Observe também que o ano de fundação do Imortal, 1903, ao ser datado em formato de dia, no calendário, se transforma na data exata de meu aniversário, 19/03. Ou seja, apesar de não ter nascido no memorável dia 15 de setembro, eu nasci relativamente numa data em que podemos considerar como a “data do Grêmio”, simbolicamente, assim como o horário das 19h03min representa, para nós tricolores, a clássica “hora do Grêmio”. E talvez isso seja mais um sinal.
A data do meu nascimento pode ser considerada como um “sinal” de que eu nasci em um dia de Grêmio. Melhor ainda, que eu nasci justamente numa noite de Grêmio. E mais simbólico ainda, em uma noite de vitória do Grêmio.
No bairro da Azenha, a alguns quilômetros do local de meu nascimento, às 20h30min do dia 19 de março de 1999, o Imortal Tricolor dos Pampas entrava em campo, no saudoso Estádio Olímpico Monumental, em partida válida pela 2ª rodada do Grupo 3 do Campeonato Gaúcho daquele ano. O confronto da primeira fase do torneio estadual foi disputado contra o Internacional de Santa Maria/RS e vencido pelo clube mandante pelo placar de 2 a 1, com gols do meio-campista Robert (46') e do atacante Rodrigo Gral (50') para o dono da casa. Até que, 02h15min após o término daquele jogo provavelmente sofrido e tenso para os pouco mais de 2.300 gremistas que o acompanharam in loco, às 22h45min, um novo futuro tricolor ganhava vida nos arredores do Moinhos de Vento.
Ter nascido em uma noite de Grêmio, com vitória tricolor sobre um time gaúcho trajado de vermelho e branco chamado Inter, no ano em que o Imortal se sagrou campeão do Gauchão pela 32ª vez e da inédita Copa Sul, faz parte das semelhanças simbólicas, das coincidências da vida e do destino previsto pela mística tricolor. Para muitos, tudo isso que fora aqui relatado pode aparentar se tratar de meras situações do acaso, resultantes de condições que moldaram as conjunturas históricas que, consequentemente, formaram a minha forte personalidade. Já para mim, que sou fruto de uma família, por parte paterna, incondicionalmente colorada desde os antepassados, todos esses fatores representam uma espécie de “predestinação” a um futuro radical e extremamente gremista.
Esse puro sentimento que foi eclodido dez anos após o meu nascimento, em um quarteto de avalanches tricolores realizadas durante uma incrível tarde de domingo no Olímpico — devido a uma fabulosa goleada de 4 a 1 sobre o Atlético-MG, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro de 2009 — , despertou a emoção que me foi privada e resguardada desde os primórdios. Aquele 23 de agosto estará, para todo o sempre, marcado como o dia em que adentrei no Estádio Olímpico pela primeira vez, vivenciando uma experiência fascinante que só a Geral do Grêmio poderia oportunizar a um garoto de uma década de vida que recém iniciava sua trajetória como torcedor de arquibancada. Mais do que isso, essa data simboliza o dia em que, graças ao meu querido tio, pude me tornar o gremista incondicionalmente apaixonado que sou hoje.
Costumo dizer que, hoje, no presente momento em que produzo este texto reflexivo, imortalizado como um registro de memórias de tricolor para tricolores, eu não sou tão gremista quanto serei amanhã; porém, no dia posterior, eu serei muito mais gremista do que fui hoje e do que fui ontem, e assim sucessivamente. O Grêmio é, de fato, a única alegria que tenho nessa vida. É um amor imenso, eterno e incondicional; um sentimento que não se explica, muito menos se termina.
Por vezes paro e reflito no quanto a minha vida seria triste, sofrida e vazia se não existissem essas três cores para seguir, até que percebo a felicidade que é vestir esse manto tricolor e erguer essa bandeira. Sigo o Imortal desde pequeno, aonde for, na boa e na ruim muito mais, como um vício que eu não quero deixar e uma loucura que jamais vou curar. Juro que, como bom torcedor que nunca abandonou, sem hesitar sequer e para o que der e vier, aplaudirei e honrarei o Grêmio, aonde e como ele estiver.
É por essas e outras razões que considero a noite de 29 de novembro de 2017 como a melhor e mais feliz de toda a minha vida. Nunca me senti tão alegre, pleno e realizado como naquele dia em que, após curtir a Fan Fest realizada na Arena tricolor, comemorei o tricampeonato da Libertadores junto a milhares de outros gremistas que ocupavam, com entusiasmo, a avenida Goethe, em Porto Alegre. Lá, onde hoje está localizado o Parcão, eu regressei às minhas origens de Moinhos de Vento, assim como o Grêmio, na Argentina, retomou sua essência copeira ao superar o Lanús em uma batalha em La Fortaleza.
Ao se referir ao craque imortal Eurico Lara no hino do cinquentenário composto em 1953, Lupicínio Rodrigues profetizou que, com o mesmo ideal, nós, gremistas, saberemos honrar o Grêmio, seus símbolos e sua história. Por isso já aviso, de antemão, que, no dia em que eu morrer, quero a bandeira tricolor no meu caixão, e este pintado nas cores azul, preto e branco, como o meu coração. Pois como o sábio Paulo Sant’Ana bem dizia: “ser gremista é o sonho delirante ou a realidade concreta de não conseguir na vida ser uma outra coisa”.
É muito confortante e gratificante ser assim, apaixonado, fanático, emocionado, louco e, até mesmo, iludido. O Grêmio desperta esses sentimentos de pertencimento e de identidade de uma maneira única em todos nós que o amamos coletivamente. E no meu caso, em particular, minhas próprias raízes fazem com que essas sensações descontroladas se aflorem ainda mais, proporcionando que a vida me faça ser do gremista e eu, reciprocamente, faça do Grêmio a minha vida.
Como é bom ser gremista!
REFERÊNCIA
Ficha Técnica: Grêmio 2 x 1 Inter de Santa Maria — 19/03/1999. Grêmiopédia, 2023.
LEIA TAMBÉM
NATIVIDADE, Guilherme. **aVARlanche: a avalanche tricolor em tempos de VAR no futebol**. Medium, 2022.
NATIVIDADE, Guilherme. **O mito do “racismo” no Grêmio**. Medium, 2023.
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