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Nossos atos têm consequências

Homilia da Terça-feira da 17ª Semana do Tempo Comum — 01/08/2017

Padre Celso Pôrto Nogueira · 2023-12-14 11:01 · 2 claps · 3.2 min read
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Nossos atos têm consequências

Homilia da Terça-feira da 17ª Semana do Tempo Comum — 01/08/2017

A Palavra de Deus hoje nos mostra como Deus leva a sério a nossa liberdade. Às vezes esquecemos que escutamos palavras na Bíblia justamente como essa da Parábola do joio. Um homem semeia o trigo no seu campo, mas vem o inimigo e semeia o joio, que é parecido com o trigo. Os servos do dono do campo querem arrancar o joio, mas ele não deixa porque sabe que as raízes do joio se entrelaçam com as do trigo e se os seus servos puxarem uma, acabarão puxando a outra também. Por isso, ele diz: “Não, esperem até o final da colheita! Aí nós vamos separar: o trigo vai para o celeiro e o joio vai ser amontoado e levado para ser queimado”.

Jesus explicita essa parábola e fala que no fim dos tempos Deus mandará os seus anjos para fazerem a separação dos que são filhos de Deus e dos que são joio (que pertencem ao Maligno). E aqueles que são do inimigo serão levados para a fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes.

Na leitura que escutamos do Antigo Testamento, vemos que Moisés, no meio do seu louvor a Deus, diz que Deus “não deixa nada impune, pois castiga a culpa dos pais nos filhos e netos até a terceira e quarta geração”.

Como entendemos essas palavras que nos falam sobre o castigo? Nós recorremos ao Catecismo da Igreja Católica, que fala da condenação do ser humano como uma autoexclusão. Deus quer levar todos à salvação, mas ele fez o ser humano livre. O ser humano com a sua liberdade, faz escolhas e essas escolhas têm as suas próprias consequências.

Muitas vezes entendemos de maneira errada essa ideia do castigo, como se Deus tivesse arbitrariamente estabelecido que certas ações são castigadas e outras não. E não é exatamente assim. Essas ações que merecem a condenação têm a força própria de nos excluir do convite da salvação que Deus faz a todos. Quando uma pessoa coloca a mão no fogo, aquela mão vai ficar queimada, mas não porque alguém estabeleceu que quem bota a mão no fogo recebe como castigo uma queimadura. Não, é o próprio fogo que queima a pessoa. A própria ação traz a sua consequência.

Parece-nos muito dura essa palavra que fala que Deus castiga o pecado dos pais nos filhos e netos até a terceira e quarta geração, mas nós nos esquecemos que o ser humano é feito de vínculos. Hoje em dia, a psicologia e outras ciências humanas nos evidenciam cada vez mais isso. Quantas vezes a psicologia descobre que houve uma briga entre o pai e a mãe durante a gestação, e a criança que estava no ventre ficou com uma memória negativa, com uma espécie de programação negativa por toda a vida. A criança não sabe por que sofre, até descobrir esse fato.

As ações humanas têm consequências. Portanto, as ações que se fazem na família têm consequências. No caso das famílias que se destroem, que se desfazem, muitas pessoas acham: “Ah, as crianças vão entender!”. A última pessoa que o adulto pensa é na criança. Mas a criança vai ficar com um trauma, uma memória negativa de desamor pelo resto da vida. Ainda mais que as crianças têm um egocentrismo natural, por isso elas acabam achando que a culpa foi delas. Se elas veem os pais brigando, elas colocam nelas mesmas a culpa: “Fui eu, eu que sou o culpado da briga, da separação, das ofensas que os meus pais se fazem. O culpado sou eu”.

Diante disso, nós conseguimos entender as palavras: “os pecados dos pais têm consequências sobre os filhos e sobre os netos até a terceira e quarta geração”. Isso é certíssimo, como também é certo que quando o ser-humano peca, a misericórdia de Deus é sempre muito maior do que o nosso pecado. Por isso, o mesmo Moisés que fala que o pecado dos pais é castigado até a terceira e quarta geração, também diz que Deus é “misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações”. A desproporção é enorme entre o mal que o ser humano é capaz de fazer e a misericórdia de Deus, que é muito maior.

Nós não estamos órfãos. Temos um Deus que é Pai, que é caridoso, clemente e misericordioso para conosco. Mas é um Deus que respeita a nossa liberdade. Por isso, se apesar de termos esse Deus rico em compaixão, preferimos escolher o caminho de ser joio e não o de ser trigo, de ser má semente e não de ser boa semente, nós nos autoexcluímos desse amor que Deus nos quer dar; nos autoexcluímos da comunhão com Deus, na graça e na glória.

Que tenhamos a seriedade de procurar fazer o bem na nossa vida, sabendo que tudo o que se planta tem consequências, tanto o trigo como o joio.

Peçamos a Jesus na Eucaristia, a graça de sermos o trigo puro de Deus para assim sermos recolhidos no celeiro.

Leituras: Ex 33,7–11;34,5b.28 Sl 102(103),6–7.8–9.10–11.12–13 (R. 8a) Mt 13,36–43


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