Entre recomeços e desafios: a realidade dos imigrantes e refugiados em São Paulo
Por Giovanna Guedes, Heloisa Moraes e Julia Moura, alunas do JOS1A
Entre recomeços e desafios: a realidade dos imigrantes e refugiados em São Paulo
Por Giovanna Guedes, Heloisa Moraes e Julia Moura, alunas do JOS1A
Pessoas de diferentes nacionalidades cruzam fronteiras em busca de melhores condições de vida na capital paulista.

Foto: Unsplash/Barbara Zandoval
“E strangeiro é o estranho, aquele que não pertence.” A definição de João Amorim, professor associado de Direito Internacional da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), evidencia como a ideia de pertencimento também entra em debate no processo migratório, já que toda pessoa que deixa seu país ou região de origem passa a ser classificada como migrante. O contraponto surge quando esse movimento se divide entre migração voluntária e migração forçada por motivos externos, como guerras, perseguições ou crises humanitárias, o que torna essas pessoas refugiadas.
A chegada ao destino final, no entanto, representa apenas uma das etapas vividas por aqueles que deixam seus países de origem em busca de segurança ou novas oportunidades. Para muitos refugiados que chegam à cidade de São Paulo, o processo de adaptação envolve desafios relacionados ao acolhimento, à convivência com novos costumes e à tentativa de construir uma nova vida em um ambiente ainda desconhecido.

Distritos de residência dos atendidos na cidade de São Paulo registrados pelo CRAI entre 2020 e 2025. Fonte: Metabase
São Paulo como porta de entrada no Brasil
Considerando como foco principal a cidade de São Paulo, o Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI) Oriana Jara — principal serviço do estado com esse objetivo — oferece suporte e ações públicas para o acolhimento desses fluxos. Dados recentes registraram um volume significativo de atendimentos entre 2020 e 2025, incluindo pessoas em situação de refúgio que ainda aguardam a aprovação do pedido de permanência no Brasil.

Situação migratória em São Paulo registrada pelo CRAI entre 2020 e 2025. Fonte: Metabase
O Estado de São Paulo tem desenvolvido diversas ações voltadas a esse contexto, onde o Governo Federal vem estabelecendo acordos de cooperação com o** Acnur (Agência da ONU), considerando que atualmente está entre uma das principais regiões do Brasil a receber cidadãos estrangeiros. O solo paulista conta com o maior aeroporto, o Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos (GRU), além do maior porto internacional do país, o Porto de Santos**. Essa infraestrutura oferece maior acessibilidade para a extensão que concentra uma das melhores economias com oportunidades profissionais.
Sob o ponto de vista de políticas públicas, o Brasil é reconhecido internacionalmente pela receptividade a esses indivíduos. Hoje, temos Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) e a Lei de Refúgio brasileira (Lei nº 9.474/1997) como principais meios de assegurar os direitos sociais e humanos, incluindo as necessidade específicas de proteção de um determinado grupo, tais como mulheres, crianças, adolescentes, indígenas, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e demais grupos vulneráveis. Mesmo com esse posicionamento jurídico de grande impacto, a inserção de recém-chegados no país ainda carece no quesito social.
Os obstáculos da integração
Embora o país apresente variados programas de ajuda e inclusão a essas pessoas, o choque cultural e o subemprego constituem os principais desafios. Ao chegarem ao Brasil, os migrantes são acolhidos por instituições que auxiliam no processo de documentação, no entanto, o caminho para se integrarem a uma sociedade completamente diferente envolve muitos outros fatores, que vão desde o aprendizado da língua até a conquista de oportunidades de trabalho.
“O problema era encontrar um emprego, especialmente quando você foge do seu país e não tem dinheiro.” (Afegã em situação de refúgio que optou por não se identificar, 42 anos)
Em um dos depoimentos coletados para esta reportagem, esta afegã relata que trabalhava como policial na segurança do recém-formado Parlamento Afegão. Em 2021, após diversos ataques e o retorno do Talibã ao poder, ela e sua família obtiveram o visto humanitário para a ida ao Brasil em situação de refúgio. Após a chegada, foi sendo revelada uma série de problemas, como a barreira da comunicação, a falta de informação por parte das instituições, o desemprego e a escassez de recursos financeiros. Mesmo após cinco anos estabelecida no país, a família ainda enfrenta dificuldades em adquirir elementos básicos em sua moradia.
Além disso, o ritmo acelerado, o trânsito intenso e o custo de vida elevado em uma metrópole como São Paulo tornam a adaptação ainda mais complexa. A busca por moradia acessível e a limitação em encontrar empregos formais reforçam a vulnerabilidade, e fazem com que esse contraste entre a diversidade e a realidade seja encarado como um cenário de estranhamento e readaptação constante.
“Um dos principais desafios foi me adaptar a São Paulo, que é uma cidade muito grande.” (Ismarvis Rosas, venezuelana, 28 anos)
Apesar da oportunidade de recomeço, a intolerância enraizada na sociedade dificulta a convivência. A forma como a mídia retrata essas culturas reforça estereótipos que se transformam em preconceitos no cotidiano. Essa construção simbólica não se limita aos imigrantes e indivíduos em situação de refúgio, mas também estende-se às gerações seguintes.
Heranças deixadas

Foto: Unsplash/Jonathan Ramalho
A herança dos imigrantes e refugiados em São Paulo apresenta uma dupla face: de um lado, a riqueza da miscigenação que molda a identidade paulistana; de outro, o preconceito e a xenofobia que ainda afetam filhos e descendentes desses grupos. Kiara Machado, 25 anos, filha de peruano, relata que começou a perceber o preconceito na adolescência. Ao mencionar ser filha de estrangeiro, foi alvo de comentários discriminatórios, mesmo tendo nascido no Brasil:
“Já ocorreu da pessoa se dirigir a mim como boliviana, ou até mesmo gritar comigo na rua para voltar ao meu país.”
Esse episódio não é único, muitos descendentes relatam situações semelhantes em que são tratados como estrangeiros mesmo tendo nascido e crescido no Brasil. A agressão verbal sofrida por Kiara revela como os estereótipos e a intolerância atravessam gerações, expondo as identidades culturais e o peso da exclusão.
Nádia Sueid, filha de libaneses, nasceu em Foz do Iguaçu (PR), cidade que abriga a maior comunidade muçulmana do Brasil. Cresceu em uma família que preserva os costumes libaneses. Aos 28 anos, decidiu adotar o hijab, símbolo de fé e identidade, e desde então passou a enfrentar olhares curiosos e questionamentos. Sobre sua religião, afirma:
“As pessoas acham que usar o hijab é sinal de submissão, elas não entendem que o lenço traz a possibilidade de estar protegida, de não ter medo de ser quem você é. Ele impede que meu posicionamento seja limitado à minha imagem, nunca fui restringida de falar ou agir diferente com qualquer pessoa, ele só me fortalece”.
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A presença de comunidades migrantes sempre foi o fator que moveu a cidade, trazendo uma diversidade cultural que se reflete na arte, na culinária e no comércio que são responsáveis pelo sucesso de São Paulo. No entanto, junto com essa riqueza, também se perpetuam preconceitos e estigmas. A experiência das novas gerações mostra que o desafio da integração não termina com a chegada ao país, mas se prolonga na luta por reconhecimento e respeito.
Vulnerabilidade social e os desafios do acolhimento
Como estabelecido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, pessoas refugiadas e migrantes desfrutam dos mesmos direitos que a população brasileira, mas a raiz da situação vai muito além do aspecto jurídico.
De acordo com o especialista em Direito Internacional João Amorim, por mais diversa que seja a formação da sociedade brasileira, essa população permanece marginalizada em relação ao acolhimento e reconhecimento. O próprio estado de São Paulo exemplifica essa diversidade, oferecendo um centro expandido com diferentes bairros imigrantes, como Liberdade, Mooca, Bom Retiro, Bixiga e Brás, que preservam parte da história de diversas nacionalidades.
“Historicamente, o Brasil é um país que se desenvolveu através do aproveitamento de deslocados forçados, como os escravizados africanos, durante mais de 400 anos.”
Ao abandonar seus países de origem, a população migrante já corre grandes riscos e desafios, como separação familiar, deportação e o sentimento de incerteza sobre o desconhecido. Para o professor, a inserção desses indivíduos socialmente se assemelha à parte da população brasileira que vive abaixo da linha da pobreza e marginalizada. Isso se explica porque, por mais que juridicamente existam diversas ações que protegem os direitos básicos, a sociedade brasileira possui estruturas terríveis historicamente estabelecidas, como racismo, machismo, xenofobia, homofobia, entre outros preconceitos refletidos na questão migratória.
“A situação do migrante, principalmente quando solicitante de refúgio, se agrava ainda mais, pois ele não fala o idioma, ele não conhece a cultura e tem contra ele todos os preconceitos sociais que um brasileiro de condição vulnerável tem.”
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Essa questão das bases enraizadas socialmente é reforçada em discursos políticos de extrema direita. Esses posicionamentos se apropriam da figura dos refugiados, acreditando que o termo “refugiado” é utilizado para “inocentá-los”, encobrindo as crises humanitárias e perseguições que levaram esses indivíduos a se deslocarem de seus países de origem.
Amorim levanta uma análise no contexto internacional, onde partidos conservadores permanecem crescendo no espaço político distribuindo discursos de ódio como forma de culpar a imigração pelos problemas econômicos e o aumento de conflitos e tensões globais. Tais situações aumentam estereótipos e a falta de pertencimento dos cidadãos estrangeiros no país.
Mesmo com todos os obstáculos, a questão do refúgio, acolhimento e igualdade perante o estrangeiro tem avançado. Atualmente o estado de São Paulo conta com dezenas de instituições e organizações sociais que buscam não só acolher essas pessoas, mas oferecer recursos que as incluam da melhor maneira possível.
Acolher além de ajudar
Em meio aos desafios enfrentados por quem busca um recomeço no Brasil, a cidade de São Paulo conta com diversas organizações sem fins lucrativos que oferecem apoio aos refugiados. Grande parte dessas Organizações Não Governamentais (ONGs) busca auxiliar para que as famílias consigam se estabelecer de forma segura no país, dando suporte principalmente na parte burocrática e no ensino da língua portuguesa, essencial para a integração e adaptação à nova realidade.
Essas instituições estão em sua maioria ligadas a igrejas e comunidades cristãs, como é o caso da Compassiva, ONG localizada no bairro do Glicério cujo trabalho pudemos conhecer de perto. Em entrevista, Edilene Yokomizo, a auxiliar administrativa da ONG, detalhou o papel da organização, que oferece aulas de português e auxilia principalmente na revalidação de diplomas dos refugiados. Edilene contou sobre a dificuldade nesses processos, que levam anos para serem concluídos, resultando na substituição de empregos formais por subempregos:

Foto: Pexels/Márcio Santos
“Tem diplomas que demoram muitos anos para serem revalidados, a gente já teve casos aqui de cinco anos para revalidar, e não é certeza que revalidam. Temos engenheiro que trabalha como caixa de supermercado”.
Para que o imigrante possa se reinserir no mercado de trabalho e ter uma convivência básica no país, o domínio da língua portuguesa se torna um passo fundamental nesse processo de adaptação, especialmente para adultos, que apresentam maior dificuldade no aprendizado e são habituados a culturas e línguas distintas. O principal papel das ONGs é justamente ensinar o básico da língua para que os refugiados possam se estabelecer no país e ter uma mínima forma de comunicação e integração com os brasileiros. Dessa forma, as ONGs atuam não só para levar recursos a esses povos, mas também para integrá-los e ampará-los em um momento de incertezas.
Uma vez instalados no território brasileiro, muitos recebem apoio direto dessas comunidades acolhedoras, que criam uma forte conexão com famílias vindas de diferentes realidades e oferecem suporte em situações cotidianas que, apesar de simples para brasileiros, podem se tornar desafiadoras para não falantes da língua, como entrevistas de emprego, consultas médicas, uso de transporte público etc. Edilene relata:
“Muitas vezes, por conta da relação próxima que criamos com os alunos, os próprios professores acabam assumindo um papel de estar mais perto. Eles fazem convites, acompanham passeios e, em alguns casos, até ajudam em consultas médicas e exames, principalmente quando a pessoa não fala português e precisa de alguém para ajudar na tradução”.
Em prol de um objetivo comum, ONGs e campanhas governamentais atuam muitas vezes em colaboração para auxiliarem de forma integral milhares de famílias refugiadas que deixam para trás sua história, seus lares e suas referências em busca de um novo começo. Entre o acolhimento, auxílio com documentação e apoio no processo de adaptação, essas instituições se tornam fundamentais para quem chega ao Brasil apenas com a esperança de uma vida melhor.
메타데이터
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