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Fernanda Bessa: Como as árvores se tornaram música

Investigadora na área da xilologia, o seu percurso pessoal e profissional esteve desde sempre intimamente ligado ao ensino, investigação e…

Vera Sequeira · 2016-07-11 17:35 · 0 claps · 4.1 min read
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Fernanda Bessa: Como as árvores se tornaram música

Investigadora na área da xilologia, o seu percurso pessoal e profissional esteve desde sempre intimamente ligado ao ensino, investigação e curadoria na área das madeiras tropicais, assim como à coordenação, ensino e formação na área da educação musical. Da fusão destas duas grandes áreas resultou a sua tese de mestrado. A atual coordenadora do Centro Ciência Viva de Sintra, Fernanda Bessa, elucida-nos sobre como as árvores se tornam música!

Por Sandra S. Soares e Vera Sequeira

Quadro pintado e oferecido pela mãe de Fernanda Bessa como presente pela conclusão do seu mestrado.

Quadro pintado e oferecido pela mãe de Fernanda Bessa como presente pela conclusão do seu mestrado.

Quando, em tenra idade, Fernanda Bessa tocou os seus primeiros acordes num acordeão e, mais tarde, dedilhou as cordas da sua guitarra clássica estava muito longe de saber que as nobres madeiras que musicalmente afagava seriam o cerne da sua vida.

À matéria que auxilia o Homem há mais de 300 milénios, e que é utilizada há mais de 10.000 anos para fabricar instrumentos musicais, viria a dedicar-se pessoal e profissionalmente.

[embed]Fernanda Bessa interpretando o “Estudo em Mi Menor” de Francisco Tárrega (1854–1909), na guitarra clássica que lhe foi oferecida aos oito anos.

A sua voz ainda se emociona ao recordar o seu falecido professor de guitarra, que “nunca desistiu” de a atrair para a área musical, mas foi por influência do pai, engenheiro agrónomo, que optou pelo curso de Engenharia Florestal.

Consciente que para a construção dos instrumentos musicais é indispensável o conhecimento das propriedades dos materiais de que são feitos, Fernanda Bessa apercebeu-se, no final da sua licenciatura, que “se não fizesse uma tese sobre as madeiras para a construção dos instrumentos musicais, mais ninguém o faria” sentindo mesmo “uma obrigação de fazer uma ligação destas duas áreas”.

A madeira faz parte da construção de um grande número de instrumentos musicais, desde os mais rudimentares até aos instrumentos de orquestra, estando contabilizada “a utilização de pelo menos 355 espécies diferentes”.

Desde sempre, a indústria de produção de instrumentos musicais tem-se preocupado com as propriedades acústicas, tendo em conta as características das peças de madeira das espécies que utiliza.

O luthier (mestre artífice) “escolhe a madeira que lhe parece a mais apta à utilização que pretende dar-lhe, tentando penetrar no segredo de cada prancha onde tenta ler a história individual da árvore que lhe deu origem”, no entanto, até à realização do seu trabalho na ligação entre as características acústicas e as propriedades anatómicas, físicas e químicas das madeiras, não existia informação ao nível dos parâmetros que poderiam ajudar a compreender a qualidade do som.

Kai Dase, luthier, a trabalhar no atelier “Torres & Dase”.

Kai Dase, luthier, a trabalhar no atelier “Torres & Dase”.

Com o intuito de colmatar esta lacuna, no ano 2000, Fernanda Bessa dedicou a sua dissertação de mestrado em Engenharia de Materiais Lenhocelulósicos à “Caracterização anatómica, física, química e acústica de madeiras de várias espécies para a construção de instrumentos musicais: uma aplicação à viola dedilhada”.

Analisou madeiras de diferentes espécies que fazem parte de um instrumento musical de caixa de ressonância, a viola dedilhada ou guitarra clássica. Caracterizou (anatómica, física, química e acusticamente) catorze espécies de madeiras tropicais habitualmente utilizadas na construção de instrumentos musicais, com vista a determinar o seu potencial uso na viola dedilhada.

“O estudo anatómico incluiu a observação macroscópica, microscópica e análise biométrica”. Os resultados obtidos mostraram ser coerentes com o conhecimento empírico dos construtores de instrumentos musicais, tendo conseguido “justificar cientificamente as opções que os luthiers fazem há anos”.

Foi, deste modo, possível “identificar as características que determinam, ou que estão correlacionadas, com as propriedades exigidas à madeira utilizada na construção específica de cada um dos componentes da viola dedilhada, bem como prever a potencial utilização destas madeiras na construção das diversas peças deste tipo de caixa de ressonância”.

Apurou-se assim que, com fundo e ilhargas em pau-preto (Dalbergia nigra), tampo em pinho do Oregon (Pseudotsuga menziesii) e braço e escala, em sapelli (Entandophragma cylindricum) e ébano (Diospyros crassiflora), seria possível construir a guitarra “perfeita”, respeitando as características específicas de cada uma destas madeiras.

As madeiras utilizadas neste estudo fazem parte de duas coleções do agora extinto Instituto de Investigação Científica Tropical, e das quais Fernanda Bessa é curadora. Estes verdadeiros arquivos de identificação, incluem amostras de 122 famílias, 985 géneros, 2.332 espécies, num total de 3.698 exemplares de madeiras de todo o mundo, em particular de espécies das florestas tropicais africanas. Designadas por xilotecas, são coleções de referência úteis em áreas onde se torna necessária a identificação de madeiras por comparação, permitindo ainda a definição dos seus potenciais usos tendo em conta as suas características.

[embed]Xiloteca do extinto Instituto de Investigação Científica Tropical alojada no Palácio dos Condes da Calheta, Jardim Botânico Tropical (música de Georg Friedrich Händel (1685–1759) “Menuett: un poco larghetto”).

Fernanda Bessa adora árvores porque,

“Tal como a música, são um monumento. Uma árvore conta sempre uma história!”

Sem dúvida, que as madeiras destas coleções são as páginas onde se podem ler os harmónicos episódios da sua vida!

Fotografias do atelier “Torres & Dase”.

Fotografias do atelier “Torres & Dase”.

Xiloteca do Instituto Superior de Agronomia.

Xiloteca do Instituto Superior de Agronomia.

Agradecimentos: Atelier Torres & Dase | Palácio dos Condes da Calheta, Jardim Botânico Tropical | Instituto Superior de Agronomia


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