O Sino Atrasado
Acordei de uma noite mal dormida. Olho para a janela que dá para o jardim e vejo um sol claro, que não é o costumeiro pois acordamos cedo…
O Sino Atrasado

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Acordei de uma noite mal dormida. Olho para a janela que dá para o jardim e vejo um sol claro, que não é o costumeiro visto que acordamos bem cedo aqui no mosteiro, ainda pela madrugada. Foi então, que para o meu desespero, percebi que não tocaram o sino do despertar! Como não ouvi som de cantoria, presumi que ainda faltavam alguns minutos para a oração da manhã. Porém, ao conferir o relógio na cabeceira, me dou conta que já são cinco e quinze!
Ora, era uma manhã chuvosa de uma quinta-feira como todas as outras, que haveria de errado para que não ouvíssemos badalos naquele dia? Frei Hugo, o sacristão, sempre foi extremamente pontual e compromissado: era o primeiro a chegar e o último a sair em todas as horas canônicas. Eu mesmo nunca o vi nos corredores depois das Completas ou antes das Laudes.
Vesti o hábito sem nem conferir se pus o escapulário ou não. Logo que sai da cela, dou de cara com uma massa corpulenta, sonolenta e agitada: era Frei Alberto que também tinha perdido a hora de acordar e estava atrasado para a oração, assim como eu (se bem que aquele planeta com pernas devia estar mais preocupado com o desjejum do que com rezas).
Vínhamos andando apressadamente no claustro eu e Frei Alberto, a caminho da capela do mosteiro. Já passavam dàs cinco e meia, horário das Laudes, o que era suficiente para perdermos o Invitatório e levarmos um sermão do prior pelo atraso. Mas, para nossa surpresa, quem que estava fechando as pressas a porta da cela? O prior, Padre Andreas! A minha cara de espanto e o grito emudecido do irmão balofo deram lugar a uma breve corrida até o pátio para que chegassemos antes dele no coro.
Minha mente não parava de criar hipóteses para o atraso do toque e de planejar rotas para andarmos mais rápido que nosso superior.
Bem próximo ao pátio, esbarramos com mais quatro irmãos, os noviços João, Tomás e Marcelino, e o Padre Estêvão, que já era um ancião e estava sendo praticamente carregado pelos outros três. Os olhos encrustados de remela e os passos ligeiramente pesados como de mulas subindo uma encosta não negava que estavam também atrasados. Logo me dei conta que mais da metade do mosteiro estava ali rumando à capela e ainda nada havia soado das torres da igreja, e nada do sacristão aparecer.
Quando chegamos às portas da igreja, para indignação de todo o mosteiro, o sino toca. Entramos todos caçando o magricela do Frei Hugo com o olhar, e, quando enfim o encontramos, o cadavérico de hábito castanho teve a ousadia de quebrar o silêncio e dizer-nos:
— Irmãos, vocês são mesmo muito santos! Vieram todos rezar cedinho em dia de sábado!
(Não rezamos o Ofício nos finais de semana…)
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