Parte 8 | Teatro das Oprimidas
O Teatro das Oprimidas surgiu da necessidade de desenvolver processos estéticos feministas
Parte 8 | Teatro das Oprimidas
O Teatro das Oprimidas surgiu da necessidade, do desejo de ampliar as possibilidades de atuação e da urgência em desenvolver processos de representação teatral feminista.

Bárbara Santos, Augusto Boal e Amir Haddad ao fundo (2008) | Imagem do livro de Bárbara Santos ‘Percursos estéticos — imagem, som, ritmo e palavra: abordagens originais sobre Teatro do Oprimido’, publicado pela padê editorial, no ano de 2018, p. 20.
Certa vez, perguntado se faria uma peça feminista, Augusto Boal teria respondido que não. O teatrólogo, pessoa ciente de seu lugar social no mundo, dos privilégios e das limitações que este lhe impunha, teria dito que ao seu alcance estaria a possibilidade de fazer uma pela antimachista, antipatriarcal, mas que uma peça feminista deveria ser tarefa para dramaturgas feministas.
Então, para que surgisse uma perspectiva feminista do Teatro do Oprimido teriam que surgir as praticantes feministas desse método (SANTOS, 2019, p. 15).

Bárbara Santos | Imagem do livro ‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 405.
Bárbara Santos (2019, p. 16–17) ressalta que o Teatro das Oprimidas surgiu da necessidade, do desejo de ampliar as possibilidades de atuação e da urgência em desenvolver processos de representação teatral que não culpabilizassem as mulheres, tampouco, individualizassem a encenação dos conflitos que as desafiam. Ela define o Teatro das Oprimidas como um processo estético investigativo que valoriza a perspectiva subjetiva dos problemas para explicitar a complexidade das personagens e das situações investigadas, enquanto prioriza a contextualização do problema para revelar mecanismos de opressão.
Bárbara Santos (2019, p. 17) complementa:
Trata-se de uma metodologia de trabalho que surgiu de dentro de uma outra metodologia de trabalho para aprofundá-la, ampliá-la e também para questioná-la.
É inegável que neste último século as mulheres avançaram na criação de territórios de contestação e lutas, com a conquista de direitos e de participação nos locais de poder. Mesmo assim, muitas mulheres continuam vítimas da violência machista, seja doméstica e social, física e emocional, e ainda carregam a culpa por suas derrotas. Esta condição as inibe de compartilhar suas histórias e de buscar alternativas, as isola e impulsiona à repetição de comportamentos, dificultando a percepção de que o que se passa com cada uma não é particular, tampouco natural (SANTOS, 2019, p. 21).
Bárbara Santos (2019, p. 22) aponta os seguintes questionamentos:
E por que seguimos repetindo comportamentos indesejáveis? Por que dizemos sim quando o desejo, a experiência e a lógica nos aconselham ao não? Por que atuamos reforçando o padrão quando ela já não nos interessa? Por que na vida cotidiana acabamos por reforçar a ‘naturalização’ ou ‘feminilização’ de determinadas funções sociais? Por que as imagens coladas em nosso inconsciente continuam se refletindo e se reforçando em nossa atuação social? E por que, quando decidimos dizer não, nossa negativa é ignorada?

Alessandra Vannucci e Bárbara Santos (2010) | Canal do Centro de Teatro do Oprimido.
Para responder perguntas como estas, no ano de 2010, Bárbara Santos e a dramaturga Alessandra Vannucci realizaram o projeto Laboratório Madalena. A necessidade de criação deste espaço, segundo Bárbara Santos (2019, p. 22), surgiu da percepção de que essa busca deveria ser feita entre mulheres, em sororidade, de modo que, entendendo a história de outras mulheres seria possível compreender as suas próprias histórias e a si mesmas, como protagonistas.
[embed]PROJETOS | TEATRO DAS OPRIMIDAS (THEATER OF THE OPRESSED) (2010) | Canal do Centro de Teatro do Oprimido
MADALENA
Antes de pensar nas técnicas a serem aplicadas no Laboratório Madalena, as curingas Bárbara Santos e Alessandra Vannucci pensaram nas formas de chegar a uma estrutura que buscasse investigar a construção do conceito do gênero feminino e suas consequências concretas. A proposta era experimental, um caminho aberto a ser descoberto, um caminho investigativo, por isso o nome laboratório e não oficina (SANTOS, 2019, p. 77–78).
Bárbara Santos (2019, p. 78–79) relembra:
Usamos Teatro Jornal, Teatro Imagem, Arco-íris do Desejo, Teatro Fórum, Estética do Oprimido e diversas outras técnicas teatrais para estimular as participantes a reconhecerem e desvendarem suas opressões e, especialmente, analisarem suas posturas dentro delas.
O corpo, como morada do ser, foi o ponto de partida. Um corpo que precisa estar sob o controle do estado e da igreja. Um corpo que é tematizado publicamente, mesmo em sua intimidade: depilação, peso, menstruação, forma, procriação, aborto… Um corpo que muitas vezes não se atreve a se conhecer ou a sair de si.
Com as discussões, Bárbara Santos (2019, p. 79- 82) e Alessandra Vannucci construíram com as demais mulheres um percurso conceitual. O ponto de partida consiste na História, Filosofia e Ancestralidade para investigar o imaginário coletivo e as imagens construídas presentes no inconsciente coletivo. Outro ponto de partida é o ponto de vivência, que é a vida cotidiana, as experiências concretas que revelam como esses imaginários influenciam as mulheres em seus contextos sociais. O desafio, como movimento social, é questionar: Qual o desejo de transformação? Por qual caminho? Como construí-lo?

Grupo Marias do Brasil com seu espetáculo ‘Eu Também sou Mulher’ (2010) | Foto: Noélia Albuquerque.
Com o percurso conceitual estabelecido, Bárbara Santos (2019, p. 82) e Alessandra Vannucci passaram a buscar as técnicas que poderiam ajudar a construir essa experiência. A primeira experiência prática ocorreu no dia 05/12/2009, com o grupo de Teatro do Oprimido Marias do Brasil, formado por mulheres nordestinas que moram e exercem a profissão de trabalhadoras domésticas no Rio de Janeiro. A segunda foi realizada no dia 14/12/2009, com mulheres de diversas origens, profissões, praticantes de Teatro do Oprimido, dispostas a contribuir com a iniciativa.

Teatro das Oprimidas | Foto contida no livro de Bárbara Santos intitulado ‘‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 403.
Entre janeiro e maio de 2010, elas realizaram grandes laboratórios no Ceará, no Rio de Janeiro, em Guiné-Bissau e em Moçambique. Neste período, Alessandra deu início a um programa de extensão na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), onde era professora, baseado no laboratório. A curinga Claudete Felix realizou também uma multiplicação em Florianópolis, que deu origem ao grupo Madalenas na Luta. As produções artísticas resultantes dessas experiências estimularam a discussão pública das opressões enfrentadas pelas mulheres, e fomentaram o evento de conclusão do projeto com Madalena Ocupa a Lapa (SANTOS, 2019, p. 83).
O PROCESSO INVESTIGATIVO
Com a base conceitual, pode-se estruturar o processo investigativo em cinco atos:
1º. ATO — IMAGENS HERDADAS
Como introdução geral, as participantes realizam exercícios de apresentação. Neste ato estão as atividades que remetem à memória coletiva, que buscam compreender processo histórico de construção do conceito de gênero representado em Imagens Ancestrais. Por meio de atividades estéticas, busca-se revisitar os mitos de fundação da sociedade que ratificam o arcabouço ideológico do patriarcado.


Ritual das mãos que contam | Foto de Marta P. Santos no livro de Bárbara Santos intitulado ‘‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 391.
Alguns exercícios deste ato:
- Ritual das mãos que contam: As participantes utilizam um tecido de malha branca, o qual o transformam em estandarte simbólico com as mãos das participantes carimbadas em cores diversas. O tecido passou a ser um ritual de abertura de cada laboratório, simbolizando a ligação entre as participantes dos distintos processos (SANTOS, 2019, p. 86).
- Toré Yanomami: O povo Yanomami crê que a alma do nome de uma pessoa está guardada nas vogais do nome, por ser ali que se concentra a sonoridade do nome. A partir dessa lenda, as participantes formam um grande círculo de dança, que vai movimentar para a direita, marcando o passo com o pé direito. Falando somente as vogais do seu nome, cada participante vai pronunciando suas vogais, lentamente. Aos poucos o grupo mais encontrando uma melodia comum que vai aumentando o volume até o máximo e depois baixando até o mínimo (SANTOS, 2019, p. 86–87).
- Batismo rítmico (Batismo mineiro): Cada pessoa cria uma canção do seu nome e elabora uma coreografia para se apresentar ao grupo. O ritmo escolhido deve corresponder como a pessoa se sente naquele momento ou representar algum aspecto de sua personalidade. Depois, em grupos, criam-se coreografias coletivas (SANTOS, 2019, p. 87).
- Os quatro elementos: As participantes são estimuladas a tomar consciência que a água é o elemento majoritariamente presente em seus corpos. Cada pessoa tenta retirar a água do corpo e colocar no ambiente externo. Pensar em seu corpo com uma peça de roupa que precisa ser torcida, sacudida para retirada do excesso de água. A meta é encher a sala como a água oriunda de todos os corpos. Com a sala alagada metaforicamente, cada pessoa imagina andar sobre a água e depois sob a água. Todas se movem pelo espaço como se estivessem submersas em água, percebendo como o corpo se comporta nesse ambiente. Depois, é a vez do elemento terra, onde cada pessoa tenta acentuar o efeito da gravidade na relação de seu corpo com o solo. No elemento seguinte, o ar, oferece a possibilidade da leveza. Por fim, o elemento fogo, a dinâmica do movimento. Após, toda a água retorna ao corpo e o exercício seja encerrado (SANTOS, 2019, p. 88).
- Percursos ancestrais: É desenhado um mapa-mundi imaginário no chão do espaço onde se vai trabalhar, considerando o local onde se está e privilegiar o continente onde se está trabalhando no momento. O resto do ambiente é dividido entre os outros continentes. O ponto de partida é o local de nascimento, onde cada participante deve se instalar no espaço da maneira mais confortável que puder, dentro do seu local de nascimento. De início, começa-se a pensar na mulher da geração anterior da sua, ou seja, sua mãe ou a mulher que tenha essa correspondência em sua vida. Ela deve pensar nessa mulher, recordar suas atividades físicas, traduzindo em seu próprio corpo a vida cotidiana dessa mulher, fazendo atividades diversas, imprimindo em seu corpo a vida alheia. Enquanto executa a atividade, deve-se pensar e imaginar como a atividade se incluía no cotidiano da mulher em questão. Depois de alguns minutos, a curinga solicita que sigam para a geração anterior, ou seja, da avó, para tentar reproduzir suas atividades, mesmo que não tenham recordações concretas. Se necessário, a participante deve se mover na geografia da sala para ir ao local de cada ancestral. A curinga solicita que cada participante pense na mulher pré-histórica, que vá em direção dela, de onde veio, e realize as atividades que imagina que era realizada pela primeira ancestral. Havia um papel social especial para as mulheres? A questão de gênero parecia ser o centro da existência? Ao final, a curinga solicita que as participantes parem a ação física, que respirem e pensem em todas as mulheres que passaram por seus corpos, recordando os movimentos e as atividades (SANTOS, 2019, p. 90).
- A árvore das ancestrais: De olhos fechados, todas seguem a voz da curinga. que se coloca no centro da sala e continua falando até que todas as participantes se movam até o centro formando um único corpo, que será o tronco da árvore das ancestrais. Devem caminhar caminhar lentamente e perceber se estão próximas uma das outras. Os corpos se unem em um grande abraço, a respiração se acalma, os braços são levantados como se fossem, galhos, formando a árvore das ancestrais. A curinga pede para que todas pensem em uma origem em comum,, em uma história ancestral que cruze a todas. Lentamente, a árvore se desfaz e cada mulher caminha pela sala conectando-se à memória do que fez e percebendo o que se registra em seu corpo como história, como herança. Ao final, as participantes trocam impressões, discutem sobre a percepção que se tem das mulheres ancestrais e analisam seus contextos (SANTOS, 2019, p. 90).
- As ancestrais nas mulheres atuais: Como desdobramento do exercício anterior, as participantes investigam o que estaria impregnado das mulheres ancestrais nas mulheres atuais. As participantes devem caminhar pela sala, pensando se conhece alguma mulher concreta que carregue algumas características das ancestrais. Durante a reflexão, deve-se pensar em três segredos que esta mulher carrega, que representam três silêncios da sua vida, podendo ser sonhos e desejos. Caminhando pela sala, para diante de outra mulher e ambas compartilham um dos segredos. Voltam a caminhar, agora mais aliviadas com, menos um segredo nas costas. Na segunda rodada, encontra outra mulher e compartilha outro segredo. Mas o terceiro segredo não tem coragem de confessar a ninguém, por isso, busca o espelho imaginário e confessa em voz baixa para si mesma. Depois de contar todos os segredos, as mulheres se sentem mais livres e se encontram num grande círculo, no qual cada uma se apresenta para as demais (SANTOS, 2019, p. 91–92).
- Mulher-síntese: Outro desdobramento é organizar as mulheres da grande roda em grupos ideológicos, depois da apresentação individual. As mulheres se organizam em grupos por identidade, como grupo da mães, das não casadas, das que não acreditam no amor, dentre outros grupos. Cada grupo faz um encontro ideológico para reafirmar a característica que representa a síntese do grupo. Internamente, cada grupo elege uma representante, que melhor expressa a ideologia comum. Para a mulher eleita pelo grupo, escolhem uma música que expresse o tipo de socialização que teve ou o pensamento que defende. O grupo cria uma performance baseada na música para apresentar a personagem, que demonstre a ideologia. Após, todas discutem sobre as representações (SANTOS, 2019, p. 92–93).
- Imagens que reforçam a mulher síntese: Cada grupo recolhe um conjunto de imagens que simbolicamente reforçava a ideologia que representava. Questiona-se de onde vem essas ideias que ocupam a cabeça dessa mulher, dentre outras perguntas. As imagens recolhidas viram um painel e, diante dele, o grupo deve escolher uma canção infantil que se relacione com o tipo de socialização da personagem. O painel de imagens servirá de fundo de cena para a apresentação da performance baseada na canção infantil., A intenção é analisar o modelo de mulher que a canção e o painel querem demonstrar (SANTOS, 2019, p. 93).
- TV Mulher: debate ao vivo: É escolhido um tema geral para o debate. A curinga atua como entrevistadora. Cada mulher síntese é apresentada ao público por meio da performance de seu grupo original. Cada mulher síntese toma assento no centro da sala, onde quatro ou cinco cadeiras estão arrumadas como numa mesa redonda. Próximo a cada mulher, sentam-se as integrantes de seu grupo, como um fã clube. Quando dos debates, na primeira rodada, cada um se posiciona diante do tema, de acordo com sua ideologia de vida. Na segunda rodada, uma pode fazer pergunta para a outra. Primeiro intervalo, as entrevistadas se reúnem com seus grupos para receber reforço de suas parceiras sobre seu posicionamento ideológico. Retornam ao debate, agora o público pode fazer perguntas. Na última rodada, cada mulher manda uma mensagem para as espectadoras. Ao fim, trocam-se impressões entre as participantes (SANTOS, 2019, p. 94).
- Eva: um mito de fundação da sociedade judaico cristã: As participantes trabalham com o texto bíblico de Gênesis para discutir o mito de criação da sociedade ocidental (judaico-cristã), sua influência na forma de pensar o mundo e as consequências concretas na forma de viver. Elas são divididas em pequenos grupos, o texto é impresso e distribuído entre as participantes. As participantes leem o texto em voz alta, criando um ritmo coletivo de leitura. Elas devem analisar o texto como um importante mito de fundação da sociedade. Duas perguntas guiam o debate: Como está construída a imagem de Eva? Qual a relação dessa imagem com o que ainda segue sendo propagado em nossa sociedade como gênero feminino? Após o debate, o grupo deve criar uma performance que expresse a sua visão sobre o texto, sendo que a base de trabalho é o Teatro Jornal (SANTOS, 2019, p. 94–95).
- O julgamento de Maria Madalena (e/ou Eva): Depois do trabalho do texto do Gênesis, retorna-se à atividade das mulheres ancestrais e delas criam-se mulheres modernas. Cada uma declara o que pensa de Eva e de sua história. Em seguida, realizam o julgamento de Eva. As mulheres que não se encaixavam com em nenhum grupo ideológico se transformam em júri. No caso de Maria Madalena, deve-se estudar os evangelhos que a personagem era retratada, como Lucas, João e Felipe. Antes do julgamento, as representantes de cada grupo ideológico se aquece com seus pares, decidindo a melhor forma que a representante deve julgar Eva ou Madalena. Conforme a ideologia de cada grupo de mulheres, Eva ou Madalena são atacadas como putas e culpadas pelo destino de todas as mulheres ou consideradas exemplos de resistência. No caso de Eva, prevalece o desejo pelo conhecimento, que nos dias atuais estão está concentrado nas mãos dos homens, pois gera prestígio e poder. O desejo de conhecimento gerou punição à Eva. No caso de Maria Madalena, a sua história de colaboradora de Jesus foi apagada, para dar lugar à mulher pecadora perdoada, que viveu eternamente em penitência. No julgamento, cada mulher-síntese se apresenta, e em três rodadas de discussão tenta convencer o júri sobre sua posição. Entre uma rodada e outra, cada mulher-síntese volta ao seu grupo ideológico para um reaquecimento com suas semelhantes. Ao final da terceira rodada, o júri anuncia a decisão (SANTOS, 2019, p. 96–97).
2º. ATO — Imagens reforçadas
São aquelas reforçadas ao longo da socialização, que compõem o contexto social no qual as mulheres inseridas, como a formação da imagem da boa menina como projeto de construção da mulher ideal. Portanto, trata-se da percepção dos fatores que reforçam constantemente ideias estabelecidas.

Teatro das Oprimidas | Foto do livro de Bárbara Santos intitulado ‘‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 400.
Algumas atividades deste ato:
- Painel de imagens: Trata-se de um painel de imagens, como arte, mídia, esculturas, pinturas, propaganda, reportagem, com exemplos de como o corpo da mulher está representado. As participantes devem ter tempo de investigar o painel, de observar, priorizar imagens, ignorar outras. Reunidas diante do painel, as participantes discutem o que veem. Após a atividade o painel deve ser retirado para não influenciar outras atividades (SANTOS, 2019, p. 97).
- Poema/Sinestesia: Depois da discussão coletiva, as participantes são estimuladas a observar uma vez mais o painel e se ater ao que chama a atenção pessoalmente, o que as toca, revolta, provoca ou inspira. Após, as participantes devem escrever um poema sobre o sentido de ser mulher na sociedade. Cada uma, ao seu tempo, escreve, e ao final lê o poema. Em alguns laboratório, as autoras retiram o painel e formam um outro painel com imagens e poemas (SANTOS, 2019, p. 98).
- Sinestesia: As participantes são divididas em pequenos grupos, e cada grupo de escolher um dos poemas para ser trabalhado ritmicamente, transformado em música, performance, e ao final, apresentações e comentários (SANTOS, 2019, p. 98).
- Coisas de menina/sinestesia ou a ‘boa menina’ como projeto de mulher ideal: Cada participante deve se reportar à infância em momentos precisos em que recebeu sinais de aprovação ou de reprovação. O que estava reconhecido como coisa de menina e o que era repreendido como sua negativa. A lembrança deve ser física, como gestos e movimentos rejeitados ou a provados. Na primeira etapa, deve-se encontrar cinco ações concretas, como pentear o cabelo, modo de sentar, como sorrir, dentre outras. Repetindo os movimentos, tenta-se fazer associações, indo de um movimento a outro, como se fosse uma coreografia. Dos cinco movimentos, cada participante escolhe três movimentos e tenta encadeá-los numa sequência rítmica. Dependendo da quantidade de participantes, as sequências podem ser apresentadas numa grande roda ou em pequenos grupos. Após a apresentação das sequências individuais, as participantes escolhem alguns dos movimentos apresentados a partir do critério que desejarem. Os movimentos devem ser harmonizados numa sequência rítmica com sonoridade, que começa numa parte específica do corpo, e vai se ampliando e repercutindo por todo o corpo durante a execução. Após a apresentação, as participantes comentam e discutem o processo (SANTOS, 2019, p. 101).
3º. ATO — Imagens incorporadas (Imagens refletidas): São as imagens que compõem a mulher, que estruturam a autoimagem conhecida e a imagem que cada mulher reflete nos outros e nas outras. São as imagens que as mulheres aceitam como imagens próprias e que, muitas vezes, atuam contra si mesmas, reforçando o sistema que as oprime. Neste ato, a proposta é que a imagem alheia autorize a mulher a se ver desde outro ângulo e descobrir outros modelos, reconhecendo que a construção da autoimagem se faz por meio da socialização e está influenciada pelo desejo de agradar, de ser aceita, ou seja, de corresponder às expectativas alheias.

Teatro das Oprimidas realiza atividades para celebrar mês da Mulher Negra Latina-Americana e Caribenha | Foto: Panm Nogueira.
Eis algumas atividades deste ato:
- Declaração de identidade mulher/sinestesias: Cada participante deve escrever uma declaração de identidade anônima para um destinatário específico. No texto da declaração, é fundamental pensar em si mesma considerando-se um representação de gênero. Terminados os textos, ao mesmo tempo, eles devem ser expostos num mural onde todas as participantes possam ler. Cada participante, após ler o texto, deve escolher três textos que se identifique, que poderia ser escrito por ela. Após o tempo de leitura, todas, ao mesmo tempo, vão buscar o texto escolhido. Cada uma se dirige à sua primeira escolha . No caso de não estar mais disponível, tenta a segunda opção e depois a terceira. Deve-se notar como são reveladores também esses processos (SANTOS, 2019, p. 103–104).
- Sinestesias: Pintura — Inspirada por seu encontro com o texto, cada participante produz uma pintura para expressar a percepção da leitora sobre o texto. Como todos os quadros expostos, o grupo pode realizar uma análise geral sobre as imagens, fazendo associações ou não. Após, cada texto é lido e as participantes tentam identificar qual seria a imagem correspondente (SANTOS, 2019, p. 104).
As participantes podem realizar a exposição das obras para o público, criando uma performance individual para expor a obra, transformando o texto em música ou dança.
4º. ATO — Imagens questionadas: Trata-se da busca por desvelar opressões, armadilhas sociais e repetição de ações, descobrindo onde o imaginário construído socialmente atua e afeta a vida de cada mulher. A intenção é mostrar o que cada mulher vive individualmente é construído coletivamente. Assim, busca-se identificar as opressões para compreender seus mecanismos de funcionamento.

Teatro das Oprimidas | Foto do livro de Bárbara Santos intitulado ‘‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 395.
- O canto da sereia: Este jogo encontra-se na terceira categoria dos jogos, ativando vários sentidos. Cada participante busca um local da sala para se sentar. Com os olhos fechados, deve pensar em alguma opressão em seu corpo, deve emitir um som que a represente. O som nasce da experiência corporal e se transforma num som vocal e não-verbal, que represente um opressor, oprimida ou a opressão sem si. Cada uma, a seu momento começa a emitir alguma sonoridade, e ainda de olhos fechados, devem seguir produzindo seus próprios sons num volume que permita também escutar os demais. Lentamente, devem se mover em direção aos sons que parecem relacionados ao seu, seja por qualquer critério. Aos poucos vão se formando grupos sonoros, e assim que formados, inicia-se a discussão sobre o resultado da atividade (SANTOS, 2019, p. 105–106).
- Roda de conversa: As participantes são convidadas a contar as histórias que incluem situações em que cada mulher identifica a repetição de comportamentos indesejados ou mecanizados. Depois de escutar as histórias, cada participante escolhe duas com as quais mais se sente identificado (SANTOS, 2019, p. 106–107).
- Policiais na cabeça: Trata-se de um técnica introspectiva do Arco-Íris do Desejo, e no Teatro das Oprimidas busca revelar as armadilhas nas quais as mulheres estão propensas a cair e repetir comportamentos indesejáveis. A pessoa que contou a história escolhe que atuará como antagonista, e, em seguida, descreve os detalhes do conflito a ser improvisado, tentando evidenciar sua vontade como protagonista. Na sequência, todas as pessoas podem fazer perguntas sobre a história contada, para o fim de ajudar a criar o contexto da improvisação. Por último, a pessoa que representará a personagem antagonista faz perguntas para aperfeiçoar a atuação. Para começar, os personagens devem realizar um monólogo interior para dar voz a todos os pensamentos que antecedem o encontro. Depois da improvisação livre baseada na história contada, a curinga interrompe a encenação quando acha que a história se desenvolveu o suficiente, especialmente quando a questão central foi abordada. Em seguida, a protagonista é convidada a criar imagens que representem pessoas concretas, que ela acha que influenciaram seu comportamento naquela situação. Assim ela vai formando os policiais que ditam as regras dentro de sua cabeça, onde cada imagem deve ser assumida por alguma espectadora que tenha reconhecido o tipo de comportamento/ideologia impresso naquela imagem. As demais espectadoras também podem sugerir imagens de comportamentos, sendo que a protagonista deve reconhecê-las para serem incorporadas. Com as imagens formadas, a protagonista deve formar uma constelação de imagens que represente a influência que cada uma exerce nela naquela situação. A plateia é convidada a analisar a constelação, que de certa forma, representa uma maneira de influenciar o comportamento da protagonista. Em seguida, a curinga pede para que a protagonista faça uma segunda constelação, imaginando uma composição que poderia amenizar a influência e facilitar sua tomada de decisão. Esta nova constelação deve ser analisada pela plateia, que por sua vez, tenta compreender o desejo da protagonista. A curinga pede para que as imagens se movam de uma constelação para outra, ou seja, da situação de muita influência para a menos influente. A plateia debate a movimentação, e na etapa seguinte a protagonista deve fazer uma confissão para cada uma das imagens, tentando concretizar o motivo da influência. Exemplo: ‘Tio João, sempre duvidou de mim, agora me sinto insegura’. Terminadas as confissões, cada imagem escolhe uma frase-síntese que represente a voz do policial que segue influenciando a protagonista. Posteriormente, a improvisação da cena: o antagonista retorna para o diálogo, a diferença agora é que todas as imagens dos policiais na cabeça estão em cena sussurrando suas frases para a protagonista. O antagonista não pode ver os policiais na cabeça da protagonista, por isso, segue com o diálogo normalmente. A protagonista em o direito de afastar os policiais que mais a importunam para a distância que quiser, quantas vezes desejar, mas sempre, lentamente, o policial afastado retornará. A protagonista deve seguir seu diálogo com a antagonista, ao mesmo tempo que tenta manejar os policiais em sua cabeça. No final, realiza-se a feira dos anticorpos, onde quem assistiu a improvisação é convidado a assumir o confronto com algum dos policiais. Cada policial deve ter alguém como anticorpo, as improvisações serão simultâneas. A protagonista e a antagonista poderão circular livremente entre as novas duplas para analisar os argumentos e estratégias usadas pelos anticorpos. Por fim, tem-se a discussão (SANTOS, 2019, p. 107–109).
5º. ATO — Imagens a serem construídas: É a busca por alternativas de superação para a opressão identificada e de novas referências para a construção das imagens desejadas . A investigação das possibilidades para a transformação da realidade. Com esta busca, cria-se uma peça, apresentação musical, dança ou performance para provocar a reflexão coletiva e o dialogo com a sociedade, para o fim de criar espaços de diálogo e possibilidades de aliança, onde as pessoas possas entender que a opressão de gênero não é problema exclusivo das mulheres, mas também um problema da sociedade machista.

Teatro das Oprimidas | Foto do livro de Bárbara Santos intitulado ‘‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 398.
Este último ato é dedicado ao desenvolvimento e à produção da peça de Teatro Fórum a partir da técnica Policial na Cabeça (SANTOS, 2019, p. 111).
Bárbara Santos (2019, p. 111–112) ressalta que um processo de Laboratório Madalena — Teatro das Oprimidas sempre será encerrado com um evento público. Ela explica que o intuito do laboratório é ratificar a necessidade de um espaço específico que possibilite a troca de experiências entre pessoas que se reconhecem diante do mesmo tipo de opressão. Esse espaço interno de fortalecimento tem como objetivo a preparação para intervenção na sociedade. Assim, o evento público representa a necessidade e o desejo de abertura de espaços de discussão.
MADALENA ANASTÁCIA

Teatro das Oprimidas em Juazeiro do Norte (2010) | Foto do livro de Bárbara Santos intitulado ‘‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 396.
No ano de 2010 foi realizado o Laboratório Madalena no Ceará, onde uma das apresentações públicas foram realizadas em Juazeiro do Norte, cidade religiosa dos devotos do Padre Cícero. Ao visitarem o Museu Padre Cícero, os visitantes descobrem a existência de uma mulher chamada Maria Madalena, mulher negra, criada pelo padre e que se tornou freira. Muitas pessoas atribuem à ela os milagres que, com o passar do tempo, foram atribuídos ao Padre Cícero (SANTOS, 2019, p. 56).

Claudia Simone, Bárbara Santos e Alessandra Vannucci (2010) | Foto do livro de Bárbara Santos intitulado ‘‘Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas’, publicado pela Editora Philos, no ano de 2019, p. 396.
As mulheres presentes, especialmente as curingas Bárbara Santos e Claudia Simone, ficaram impactadas com a imagem e a história da Madalena negra, que foi apagada da história oficial, condenada à mordaça histórica. Ela era uma Madalena Anastácia, cuja histórica ofereceu um sinal àquelas mulheres (SANTOS, 2016, p. 56).
Em todos os laboratórios coordenados por Bárbara Santos, a maioria era composta por mulheres brancas. No ano de 2013, em Bogotá, na Colômbia, a curinga Bárbara Santos (2019, p. 60–61) percebeu que não havia nenhuma mulher negra, e apenas algumas com traços indígenas. Ela assim relatou a situação:
Não posso dizer que tenha ficado exatamente surpreendida pela ausência de negras e indígenas, mas estava bastante tocada e decepcionada de, no contexto colombiana, realizar um laboratório de Teatro das Oprimidas sem negras e sem indígenas, mesmo sendo uma atividade gratuita para as participantes. Eliminamos a barreira econômica para democratizar a participação.
Discutimos os porquês daquela circunstância e, mesmo entre mulheres com visão social crítica, orientação sexual diversa e ativismo para os direitos humanos, a principal justificativa encontrada era a atitude separatista do movimento de mulheres negras, em outras palavras, elas eram responsáveis pela própria ausência. Além da declaração de que não era expressiva a população negra em Bogotá […]. Era chocante e também doloroso ter que confrontar tais argumentos. Mesmo assim, os confrontamos, debatemos, tornamos a ausência visível e refletimos sobre o seu sentido histórico, o que nos levou à construção de um ambiente de profundo respeito e confiança, que gerou uma produção artística excepcional.
As mulheres negras constituem a maioria entre as oprimidas, mas sempre foram minoria nos laboratórios, seminários e encontros. Portanto, em razão da segregação gerada, as organizadoras decidiram garantir a participação de mulheres negras, indígenas, trabalhadoras precárias, de classes populares e outras desprivilegiadas nos laboratórios para a participação nos festivais e encontros (SANTOS, 2019, p. 61–62).

Coletivo de Teatro das Oprimidas Madalena-Anastácia | Foto: Divulgação.
Em 2015, a Rede Ma(g)dalena Internacional estava prestes a realizar o encontro anual da Rede Ma(g)dalenas em Puerto Madryn, na Argentina, mas os grupos de mulheres negras de Guiné-Bissau e Moçambique não conseguiriam viajar, e por este motivo, o encontro não contaria com nenhum grupo de mulheres negras. Como a situação se tornou inaceitável, Bárbara Santos escreveu para as curingas Claudia Simone, que estava na França, para Isabel Freitas, em Salvador e Fernanda Dias, no Rio de Janeiro, com o escopo de formar um coletivo de mulheres negras. A proposta se tornou em projeto coletivo, que contou também com a participação das curingas Eloana Gentil, participante do laboratório do Rio, em 2010, e Rachel Nascimento, integrante do grupo Cor do Brasil (SANTOS, 2019, p. 62–63).
[embed]GRUPOS | MADALENA ANASTÁCIA (2020) | Canal do Centro de Teatro do Oprimido.
Como elas teriam pouco tempo de trabalho, Bárbara Santos propôs a produção de Consciência do Cabelo aos Pés, que havia montado em Berlim, como base. Em cinco dias de trabalho, transformaram a performance montada em Berlim no espetáculo de Teatro Fórum do Coletivo Madalena Anastácia, que nasceu entre mulheres negras que viviam em cidades, países, e continente diferentes. Assim, por caminho distintos, as mulheres do coletivo chegaram a Puerto Madryn, na Argentina (SANTOS, 2019, p. 63–64).

Castigo de Escravos (1839) | Jacques Etienne Arago
Anastácia foi ima mulher negra africana escravizada que viveu no Brasil no século XVIII, cuja vida foi marcada pela resistência frente às opressões vividas no contexto da escravidão. Em razão do seu comportamento de enfrentamento, ela foi condenada a usar uma máscara de ferro no rosto e um colar de ferro no pescoço, que teria ocasionado a sua morte por tétano, devido ao ferimento causado pelo colar no pescoço (SANTOS, 2019, p. 69).
Bárbara Santos menciona que a simbologia da imagem de Anastácia representa a luta contra o sexismo e o racismo, ganhando visibilidade, devido a necessidade de um povo de ter referências positivas. Anastácia inspirou o processo estético de conscientização ao longo dos anos.
[embed]Coletivo Madalenas Rio e Madalena Anastácia: o legado de Augusto Boal (2019) | Revista Vênus Digital.
A atriz e pesquisadora Bárbara Santos tem se dedicado a teorizar as suas experiências e os caminhos percorridos pelo Teatro do Oprimido pós-falecimento de Augusto Boal.
No ano de 2016, Bárbara Santos publicou o livro Teatro do Oprimido — raízes e asas: uma teoria da práxis, pela editora Ibis Libris. Em 2018, ela publicou pela padê editorial, o livro Percursos estéticos : imagem, som, ritmo, palavra — abordagens originais sobre o Teatro do Oprimido. Recentemente, no ano de 2019, ela publicou o livro Teatro das Oprimidas: estéticas feministas para poéticas políticas, pela editora Philos.

REFERÊNCIAS
- COLETIVO MADALENAS RIO E MADALENA ANASTÁCIA: O LEGADO DE AUGUSTO BOAL, 2019. 1 vídeo (12 min 19 seg). Publicado pela Revista Vênus Digital. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Uo_67U1M2m8. Acesso em: 20 ago. 2021.
- GRUPOS | MADALENA ANASTÁCIA, 2020. 1 vídeo (3 min 10 seg). Publicado pelo Canal Centro de Teatro do Oprimido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZX54uzVDZPs. Acesso em: 20 ago. 2021.
- PROJETOS | TEATRO DAS OPRIMIDAS (THEATER OF THE OPRESSED), 2010. 1 vídeo (2 min 35 seg). Publicado pelo Canal do Centro de Teatro do Oprimido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zrVeebzzFZU&t=56s. Acesso em: 31 jul. 2021.
- SANTOS, Bárbara. Teatro das Oprimidas. Rio de Janeiro: Casa Philos, 2019. 408 p.
메타데이터
- post_id
- 8cd0d581a883
- slug
- parte-8-teatro-das-oprimidas-8cd0d581a883
- url
- https://medium.com/@utida/parte-8-teatro-das-oprimidas-8cd0d581a883
- canonical_url
- https://medium.com/@utida/parte-8-teatro-das-oprimidas-8cd0d581a883
- author_url
- https://medium.com/@utida
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-28 10:39:35