oito de maio
A morte faz sentir no corpo a presença da ausência do outro
oito de maio
A morte faz sentir no corpo a presença da ausência do outro
Minha mãe era uma pessoa bonita, pele de fora e coração.
Estava revendo fotos minhas de infância: criança virginiana com lua em sagitário, ora séria, ora rindo. O tema do meu aniversário de um ano foi da Moranguinho. Nesse dia, eu quase perdi o dedão da minha mão direita em uma porta de ferro. Por sorte ou acaso, minha mãe chegou do trabalho antes do horário para me buscar na casa onde eu estava, e de lá correu para o hospital. Deu tempo, costuraram; nas fotos da festa apareço com um algodão no dedo. Noto através das tantas fotos o quanto minha mãe sempre fez questão de comemorar aniversários, meus e das minhas irmãs: às vezes festa com um tanto de pessoas de quem o nome não me chega mais. Em outras, uma velinha acesa num bolo caseiro, só a gente ali. A gente cresce, as dinâmicas mudam. Eu nem de longe sou apegada a datas comerciais, mas você entra na onda porque tem o outro junto. Comemorar é de cada um. Em algum momento, inauguramos lá em casa a era dos cafés da manhã, sobretudo no dia de aniversário; à mesa, coisas que o comemorado do dia gostava. Desde muito gesto e intenção me brilham os olhos. Conto porque esses pequenos fragmentos de memória me impregnam. Conto porque às vezes é lembrar algo que afeta bonito para falar do que dói.
Perdi minha mãe há um ano exato.
Minha mãe era uma pessoa firme, e do cuidado. Lá em casa sempre foi casa aberta, de receber e acolher; antes, gentes, e aí era comida na mesa e às vezes um forró comendo; depois, gatos, que ela amou com cada célula do seu corpo. Tem coisa que de longe a gente vê: um transbordar amoroso bonito de duas vias; minha mãe merecia amor grande assim. Cozinheira de mão cheia, eu cresci com a sorte de ter uma mãe com mãos certeiras para tudo o que tocava. Muito do que me conecta à comida vem dela: esses ritos de cafés da manhã; o pão que ali se assa e compartilha com a vizinha, ou caldo quando a saúde alheia pede; o saber-fazer em casa; e minhas partilhas de viagem: como uma farinha, se de mandioca melhor, ou algo qualquer que, muitas vezes, ela provaria e faria careta, dizendo que não gostou; ou algum doce, muito bem-vindo. Quando possível, eu chegava com doce de buriti, que ela gostava, memória dela de infância, e por lembrar minha avó: era visitar a Bahia e voltar com um tijolinho de doce enrolado numa palha.
Minha mãe sempre trabalhou muito muito muito, como muitas mães solos desse país, e por isso sempre valorizou o estudo e abriu caminhos nossos. Incentivava sempre outras pessoas a estudarem, a ir atrás de mais. Por vezes, sonhava como sonha alguém com sol em capricórnio e vinha com ideias de empreender, que aconteciam também; queria abrir algo, um lugar dela. Mais recentemente, o desejo era o de entrar na universidade; lembro dela me contar sobre os cursos nos quais ficou interessada. Ela era preciosa.
Minha mãe era de um tanto que me falta palavra ainda.
As primeiras palavras que falei na vida foram: Olga e água. Olga cuidava de mim, e isso me faz pensar que eu tinha sede e que foi um pedido educado de socorro da minha parte. Eu já não sei mais se eu andei ou falei minhas primeiras palavras aos onze meses de idade. É uma dúvida desse instante, que seguirá comigo. Não sei e não tenho mais como saber. Eu tenho medo do que posso esquecer sobre ela, e sobre mim. A morte marca tempo sobre as últimas e primeiras vezes, assim como o nascimento.
Minha mãe partiu muito nova.
Sempre penso que ela merecia estar viva, descansando a vista em algum lugar. A última vez que sonhei com ela, o semblante era calma e ela estava de azul. O último lugar que combinamos de ir foi para o sul da Bahia.

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