Sayuri
Eu tinha apenas oito anos quando conheci Sayuri. Estávamos na segunda série do ensino fundamental.
Sayuri
Eu tinha apenas oito anos quando conheci Sayuri. Estávamos na segunda série do ensino fundamental.
Ela era linda: tinha cabelos loiros e os olhos azuis eram bem puxadinhos; tinha descendência japonesa. Representava aquela parcela de alunos exemplares que sentam na primeira fileira e são muito participativos. Quanto a mim, fazia parte da turma do fundão.
Minhas notas eram boas. Tinha facilidade para aprender as coisas e ajudava meus colegas nas tarefas, mas eu não calava a boca em sala de aula, e a professora Ana Luíza não gostava nem um pouco disso. Foi por esse motivo que, no meio de uma discussão casual durante a explicação de matemática, a professora decidiu me tirar do fundo da sala.
Arrastando minha mochila com uma feição frustrada, enquanto ouvia meus amigos rirem atrás de mim, fui para frente e me sentei no lugar que a professora havia indicado, ao lado de Sayuri.
Como eu era uma criança bastante sociável, logo consegui puxar assunto com a menina. Ela era simpática, não se incomodou em conversar comigo durante a aula; e sempre sorria apertando ainda mais os olhinhos quando eu falava com ela. Eu não sabia ainda, mas aquele se tornaria o meu sorriso preferido.
Não demorou muito para cultivarmos uma amizade, logo passei a me sentar ao seu lado todos os dias. Meu comportamento em sala de aula já estava melhorando e, em pouco tempo, acabei me tornando uma dos melhores alunos da classe. Yuri — como passei a chamá-la — me fazia bem e nós não nos desgrudávamos nunca. Mesmo longe, costumávamos trocar SMS.
Estava começando a gostar de Yuri e não era apenas como uma amiga. Eu conhecia aquele sentimento, mesmo não o tendo sentido antes. Sabia que era amor, um amor de criança, inocente; eu queria contar a ela o que sentia, mas não sabia se podia fazer isso. Afinal, não era comum ver uma criança homossexual em 2007. E, naquela época, eu nem mesmo sabia o que era ser homossexual. Mas com um pouco de confiança, perguntei a Sayuri qual era sua cor favorita e ela me disse que era rosa.
Em casa, peguei alguns lápis coloridos e comecei a desenhar. Era um desenho simples: um coração cor-de-rosa; dentro dele escrevi as palavras “eu te amo” e recortei o desenho. Deixei-o em cima da mesinha de cabeceira, ao lado da minha cama para não esquecer de levar para ela no dia seguinte.
Já era noite quando minha mãe entrou em meu quarto e me perguntou quem havia desenhado o coraçãozinho que estava ali. Fui sincera, falei que aquele era meu coração e que o entregaria a uma menina. Óbvio que ela não gostou da resposta, era uma mulher muito conservadora e não entenderia aquele sentimento. Vi ela rasgar meu coração e jogar fora.
Fiquei muito triste, pois não sabia como faria para contar a Sayuri sobre meus sentimentos. Claro que o desenho parecia ser apenas algo simbólico neste ato, mas para uma garotinha de oito anos, que nem sabia sobre sua sexualidade era o elemento chave. Tinha certeza de que amanhã não teria mais a mesma coragem que me impulsionara naquele momento. Foi então que decidi ligar para Yuri.
Eram quase onze horas da noite. Nem imaginei se ela estaria acordada ou não. Apenas peguei meu telefone celular, digitei seu número, levei o telefone à orelha e esperei. Chamou uma, duas, três, quatro… no último toque aguardei para confirmar que ela não havia atendido. Então liguei de novo… uma, duas, três, quatro… foi então que ouvi uma voz feminina, mas não era ela. Uma voz séria de mulher, com sotaque estrangeiro falou em palavras graves, que eu estava proibida de ligar para sua filha novamente, e então desligou.
No dia seguinte, Sayuri quase não falou comigo. Estranhei seu comportamento e tentei conversar com ela, que me disse estar tudo bem, apenas achava que seria melhor não falar mais comigo.
Sua mãe havia a proibido também, era óbvio. Mas naquela época, eu pensei que ela não gostava mais de mim. Isso doía, e mesmo sem saber o real motivo daquela atitude, começamos a nos afastar gradativamente.
Após oito anos, eu já não tinha qualquer contato com Sayuri. Nós nem estudávamos mais na mesma sala. Eu ainda a via às vezes, no recreio, mas ela nunca falava comigo, apenas me olhava de longe.
Ao longo do tempo, conheci outras pessoas, fiz novas amizades e até adquiri um hobby durante o recreio: não era nada acadêmico para mim, mas adorava ver as meninas da ginástica pular corda. Era o que eu estava fazendo quando Sayuri apareceu no ginásio da escola. Ela não fazia parte da ginástica, eu sabia disso, e ela não estava ali para pular corda. Seus olhos, pés e corpo estavam direcionados a mim, se aproximando.
Eu estava encostada na parede e a observava: os cabelos loiros, agora compridos, formavam ondas suaves até o meio das costas; um sorriso singelo apareceu em seu rosto, como quando éramos crianças. Eu fitava seus olhos azuis da cor do céu, esperando que dissesse algo.
Então ela chegou mais perto; nossos corpos bem próximos agora, a poucos centímetros de distância.
— Senti tanto a sua falta. — disse em um fio de voz, enquanto pousava a mão direita em meu rosto e, sem pensar muito, selou nossos lábios. Pude sentir meu corpo se aquecer e esfriar ao mesmo tempo; o coração desesperado em meu peito enquanto ela me beijava.
Aquele foi meu primeiro beijo, aos 16 anos de idade, no ginásio da escola; e mesmo tendo se passado dez anos, ainda é o beijo mais doce que eu já provei.
Depois de interromper o beijo, ela saiu dali tão depressa que não tive a chance de conseguir dizer qualquer coisa. Eu estava tão desnorteada e encantada que não sabia o que fazer, então apenas fiquei ali pensando em seus lábios suaves.
Após aquele dia, nunca mais vi Sayuri.
메타데이터
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