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Maus-tratos no hospício

Nellie Bly descreve funcionamento cruel de manicômio em Nova Iorque

Luísa Machado Tabchoury · 2024-12-18 13:34 · 0 claps · 3.6 min read
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Maus-tratos no hospício

Nellie Bly descreve funcionamento cruel de manicômio em Nova Iorque

“Dez dias no manicômio” de Nellie Bly. (Reprodução: Amazon)

“Dez dias no manicômio” de Nellie Bly. (Reprodução: Amazon)

Dez dias no manicômio é um livro reportagem sobre o hospício da Ilha de Blackwell, em Nova Iorque. A autora da obra, “Nellie Bly”, é, na verdade, a jornalista investigativa Elizabeth Cochrane Seaman. A repórter usava esse pseudônimo porque, na época, era considerado inapropriado que uma mulher escrevesse e expusesse suas ideias.

A obra começa com uma introdução de Nellie, que surgiu no Jornalismo após escrever uma resposta a um jornal que publicou um artigo que depreciava as mulheres. Com argumentos concisos e uma escrita clara, a autora do texto impressionou o editor do jornal, que a convidou para trabalhar no local.

Em um de seus trabalhos, a repórter recebeu uma pauta para investigar a verdade sobre a Ilha de Blackwell, em que havia boatos de que as pessoas internadas sofriam maus-tratos e viviam em condições deploráveis. Nellie confessa que sempre quis saber mais sobre os hospícios, porque ela acreditava que dentro deles é onde estavam as pessoas mais vulneráveis:

“Eu sempre tive desejo de conhecer a vida em um manicômio mais profundamente, um desejo de constatar se a mais desamparada das criaturas de Deus, o louco, é cuidado de maneira gentil e adequada”

Para conseguir entrar no hospício, a repórter fez com que estranhos acreditassem que ela era louca, que reportaram para a polícia. Nellie escolheu essa opção porque achava mais justo e seguro que as pessoas envolvidas nesta investigação não soubessem sobre sua profissão. Mas, como qualquer humano, a repórter relata que se sentiu aflita antes de ingressar em sua jornada:

“Pois, quem poderia dizer que a tensão de atuar como louco e ficar presa junto com um monte de doentes mentais não poderia entortar meu cérebro e nunca mais me permitir sair?”

Jornalista norte-americana Nellie Bly. (Reprodução: Wikipédia)

Jornalista norte-americana Nellie Bly. (Reprodução: Wikipédia)

A jovem se acomodou em uma pensão de mulheres, onde imitava o que ela considerava ser uma “pessoa louca”. Em dois dias, a polícia foi chamada. Nellie foi condenada pelo júri e encaminhada para o manicômio.

Outro ponto importante que, em minha opinião, passou batido ao longo da história foi o fato da jornalista fingir ser cubana. Mesmo antes das guerras mundiais, os americanos já estavam combatendo e reprimindo os estrangeiros. Não importava se Nellie agia como louca ou não, quando ela falou espanhol pela primeira vez já foi imediatamente encaminhada para o manicômio.

Na chegada à ilha, a repórter se surpreendeu ao encontrar mulheres que não eram loucas e estavam em plena consciência. Em sua maioria, eram estrangeiras ou abandonadas pelos parentes. Outras vezes, eram pessoas que perderam a paciência uma única vez e foram condenadas para sempre.

A reportagem foi escrita apenas com as lembranças dos piores dez dias da vida da jornalista. Ela não possuía nenhum objeto para anotar os acontecimentos. Então, ao sair do manicômio, teve que confiar em sua capacidade de rememorar suas vivências. Brilhantemente, Nellie conseguiu descrever cada paciente que conheceu no hospício, e também citou cada enfermeira e médico que as maltratavam.

Ao longo do livro, a repórter faz diversas provocações sobre o funcionamento, a estrutura e os funcionários do manicômio:

“Eu gostaria que os médicos especialistas que estão me condenando pelo que fiz, o que só provou a habilidade deles, escolhessem uma mulher perfeitamente saudável, a fizessem calar a boca e sentar-se das seis da manhã às oito da noite em bancos sem encosto, não permitindo que ela falasse ou se movesse durante todo esse tempo; que a deixassem sem ler nada e que não ficasse sabendo nada do mundo ou do que acontece e dessem a ela comida ruim e tratamento ríspido; e então vissem em quanto tempo ela ficaria louca. Dois meses seriam suficientes para transformá-la em uma ruína mental e física”

Após sair da ilha, Nellie foi convocada para depor em um júri que estava investigando o manicômio. A repórter relatou o que ela e outras mulheres viveram dentro daquele lugar sombrio e obscuro, que estava afastado da atenção da sociedade e da mídia. Por fim, todas as alterações sugeridas pela jovem foram atendidas e o manicômio fez grandes reformas estruturais e administrativas para atender as pacientes de forma humana e responsável. Hoje, o hospício está desativado e a ilha foi transformada em um bairro residencial chamado Roosevelt Island.

A história foi adaptada para um longa-metragem: “Fuga do Hospício: A História de Nellie Bly”. A obra audiovisual, lançada em 2019, foi dirigida por Karen Moncrief e conta com um elenco estrelado de atores como Christina Ricci, Judith Light e Joshua Bowman. Saiba mais acessando o trailer do filme.

[embed]Trailer “Fuga do Hospício: A História de Nellie Bly”. (Reprodução: Lifetime/Youtube)

Essa obra é um exemplo do bom jornalismo investigativo e da necessidade da humanização em reportagens com temas tão sensíveis. É preciso ler o livro para sentir as emoções e aflições das prisioneiras dentro daquele lugar terrível. Nellie foi pioneira e inspiradora para muitas mulheres, como a jornalista brasileira Daniela Arbex, que escreveu o prefácio da obra. Uma leitura rápida, fluída e muito impactante. A repórter sabia como fazer uma bela matéria jornalística e como explicar detalhadamente cada ponto da história de forma simples para que todos os leitores pudessem entender os mistérios do manicômio.


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