Vamos ver se o Galo vai pagar o seu salário!
por Marcus Almeida Machado.
Vamos ver se o Galo vai pagar o seu salário!
Cada torcedor possui sua própria maneira de respirar o futebol. Uns são mais fanáticos, outros menos. Existem aqueles que herdam a paixão de algum familiar e honram seu clube como se fosse sangue do próprio sangue e, também, há torcedores que encontraram alguma identificação especial por outra razão e seguem seu time até o fim da vida. Mas esses motivos não são regras, pois existem as exceções.
As consequências de ser apaixonado pelo esporte mais praticado no mundo podem ser desastrosas. Já houve assassinatos, términos de casamento, brigas entre amigos, demissões, etc. Porém, uma coisa é certa, tirando a questão de homicídios e qualquer outro tipo de violência, que são atitudes inadmissíveis, qual fanático nunca fez uma loucura pelo seu time do coração a ponto de deixar a própria vida em segundo plano?
Everton nasceu em Barueri, na grande São Paulo, mas aos 25 anos se mudou para Limeira, cidade do interior paulista. Seu novo lar trouxe algumas dificuldades de adaptação e frequentemente sentia falta de seus amigos que ficaram em seu antigo bairro. Esse isolamento causado pela mudança o deixou bastante ansioso e depressivo, situação que o fez buscar um psicólogo para encontrar uma solução para sua solidão e um alívio para seu problema emocional.
Em uma de suas consultas, o psicólogo sugeriu a ele que buscasse encontrar novas amizades em lugares onde se sentisse confortável em estar. Em meio a conversa, o profissional explicou que, em frente à Feira do Galo, havia o estádio Comendador Agostinho Prada, o Pradão, casa do Independente, time tradicional da cidade. E foi ali, entre o pastel da barraca da dona Tereza e o campo de futebol, que Everton passou seus últimos anos vivenciando alegrias e tristezas que marcaram sua vida.
Foi amor à primeira vista. Seu primeiro jogo foi na reabertura do estádio, dia 7 de setembro de 2011, onde o Independente (também conhecido como o Galo de Limeira) venceu por 1 a 0 o Ecus Suzano, pela Copa Energil C. O jogo foi especial, pois, além da vitória, sua filha Evelin o acompanhou na arquibancada. A partir deste jogo, ele se envolveu com a torcida galista, conheceu bastante gente e, algumas delas, se tornaram amigos mais próximos.
Sua vida de torcedor mantinha uma rotina entre jogos no Pradão e caravanas por várias cidades, até que o Campeonato Paulista A3, de 2014, reservou um momento histórico, tanto para o time, quanto para o torcedor galista. O Independente enfrentaria seu maior rival, a Inter de Limeira (também conhecida como Leão), valendo o acesso para a série A2. Na semana do Derby, a cidade se dividiu e, em cada esquina, só se falava deste poderoso duelo.
Na época, Everton trabalhava como metalúrgico em uma importante empresa da região e, como toda cidade, entre os funcionários só se falava sobre Independente x Inter. O gerente de Everton era leonino e sabia de sua paixão pelo Galo. A resenha era grande, porém algumas funções não poderiam ser negligenciadas. Futebol é futebol e trabalho é trabalho. Por esse motivo, na véspera do jogo, o gerente de Éverton o alertou dizendo:
Sei que você é galista e vai para o estádio, mas te peço uma única coisa: responsabilidade. Amanhã vai chegar um caminhão com materiais que somente você poderá descarregar, então, conto com você.
O material era um importante carregamento que chegaria do Oriente Médio e Everton era o único habilitado para receber todo aquele produto. Ele sempre foi responsável e comprometido com o trabalho, mas no dia do jogo sua mente estava focada no duelo limeirense. A partida iria começar às 19h e, possivelmente terminaria às 21h. Everton tinha que bater o ponto na empresa às 22h.
Uma hora antes do apito inicial, a torcida galista já tomava conta dos arredores do estádio. Torcedores do Leão também marcaram presença e chegaram em peso para apoiar a Inter. Everton, junto com uma organizada galista, chegaram de manhã para colocar as faixas no alambrado do Pradão. O clima era de guerra e, caso o Galo perdesse, teria que ver a comemoração do rival em sua própria casa.
O jogo começou acirrado e a Inter pressionava o Independente, porém, logo aos 6 minutos, Juninho abriu o placar para o Galo. A Inter continuava fazendo uma boa partida, mas, aos 37 minutos, levou o segundo gol, novamente marcado por Juninho, em uma ótima jogada de contra ataque.
No segundo tempo, Dodô, de falta, ampliou para o Independente e Jardel, de bicicleta, diminuiu para o Leão. Mas já era tarde e não dava mais tempo para nada, o Independente havia alcançado uma marca inédita em sua história, subir para a séria A2 do Paulistão pela primeira vez.
Festa, invasão de campo e provocação ao rival. A torcida galista transformou o estádio Comendador Agostinho Prada em um caldeirão. A conquista tão almejada, finalmente, estava do lado do time da Vila Esteves.
Everton foi um dos que invadiram o campo. A comemoração se estendeu pela madrugada e o fanático torcedor galista só chegou em sua casa na hora do almoço do dia seguinte, ou seja, não foi trabalhar.
Ao chegar na empresa, Everton percebeu que seu cartão, que dava acesso à empresa, estava bloqueado e, ao solicitar a liberação, foi informado que precisaria se apresentar na sala do gerente. Ao entrar, o jornal da cidade encontrava-se em cima da mesa, com a foto do jogo estampada na capa, onde aparecia alguns jogadores e torcedores, dentre eles, o Everton.
Quero saber, qual desculpa o senhor vai dar agora? — perguntou o gerente.
Não tem desculpa. O Galo subiu e eu fiquei na comemoração. Quando vi já tinha passado a hora do serviço — respondeu o torcedor.
Vamos ver se o galo vai pagar o seu salário! — concluiu o gerente.
Everton tomou uma advertência e saiu da sala. A partir desse dia as coisas mudaram e, em pouco tempo, foi mandado embora.
A mistura de paixão pelo time, o acesso à Série A2 e a perda do emprego geraram sentimentos de muito contraste, ou seja, alegria e tristeza, conquista e perda, esperança e desemprego.
Atualmente, após cinco anos, Everton comenta sobre o fato com leveza e sorriso no rosto, porém, no dia da demissão não foi nada legal, pelo contrário, nosso amigo torcedor diz que foi um momento muito triste, pois era um ótimo emprego.
Contudo, o conselho dado pelo psicólogo surtiu efeito. Everton conheceu novas pessoas e fez amizades que o acompanham até hoje. Apesar desse acontecimento em seu antigo emprego, ele segue trabalhando em outra empresa e continua frequentando as arquibancadas do Pradão, sem antes comer um pastel e tomar um caldo de cana na famosa feira localizada em frente ao estádio galista.
메타데이터
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