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Por que os brasileiros deveriam parar de pedir o ouro de volta a Portugal.

Antes de tudo, um alerta necessário: este artigo não tem como objetivo minimizar as mazelas históricas oriundas do racismo, da escravidão…

Neto · 2025-04-14 01:59 · 0 claps · 8.4 min read
#brasi #portugal #ouro #colonização #história
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Wiki topics: ✊ · Equality & Identity

Por que os brasileiros deveriam parar de pedir o ouro de volta a Portugal.

A Coroação de Dom Pedro I, de Jean-Baptiste Debret, 1824. Museu Nacional de Belas-Artes, Rio de Janeiro

A Coroação de Dom Pedro I, de Jean-Baptiste Debret, 1824. Museu Nacional de Belas-Artes, Rio de Janeiro

Antes de tudo, um alerta necessário: este artigo não tem como objetivo minimizar as mazelas históricas oriundas do racismo, da escravidão, dos estupros e das guerras desproporcionais — verdadeiros massacres — que foram, sim, perpetrados contra negros e indígenas. Esses fatos são amplamente documentados, reconhecidos e devem sempre ser lembrados com seriedade e respeito. Este texto se limita a refletir sobre a questão da exploração do ouro que teria sido supostamente “roubado” do Brasil pelos colonizadores portugueses.

O ouro é nosso?

Antes de mais nada, é essencial desmistificar a ideia de “nosso ouro” — ou seja, a noção de que o ouro retirado do Brasil na época da colonização seria, de alguma forma, propriedade de “nós, brasileiros”. Para resolver essa questão de forma simples, devemos primeiro compreender que, embora a Constituição Federal Brasileira de 1988 estabeleça que os recursos naturais pertencem à União, na época da colonização não existia uma legislação que regesse a propriedade dos recursos naturais. A questão da propriedade era resolvida de outras formas: seja pelo direito de quem o obtinha primeiro, como no caso da chegada dos portugueses; seja pela troca, que ocorreu entre colonizadores e indígenas, e também entre os próprios povos indígenas.

Além disso, é fundamental lembrar que o Brasil enquanto nação sequer existia. Não havia um país ou uma estrutura legalizada para reivindicar tal “propriedade”. A ideia de que “nós” — enquanto brasileiros — éramos proprietários daquele ouro é, portanto, anacrônica. Os verdadeiros proprietários, de direito, eram os povos originários da terra, que, embora não tivessem uma estrutura formal de “propriedade” como conhecemos hoje, eram, de fato, os detentores dos recursos naturais de suas terras.

De quanto ouro estamos falando?

Outro ponto a ser observado é: de quanto ouro nós estamos falando, tanto em peso quanto em valor. Laurentino Gomes, em seu livro 1808, estima, com base nas informações disponíveis, que cerca de 1.000 a 3.000 toneladas de ouro foram enviadas do Brasil a Portugal entre 1700 e 1801, totalizando aproximadamente 30 bilhões de reais — valor corrigido para o ano de lançamento do livro. Atualizado para o ano de 2017, esse montante alcança cerca de 48 bilhões de reais.

Esses valores, calculados para cem anos de “exploração”, representam, no entanto, menos do que alguns escândalos de corrupção no Brasil, que deveriam despertar muito mais a indignação dos brasileiros. Para efeito de comparação, a Operação Lava Jato revelou um esquema que desviou aproximadamente R$ 42,8 bilhões, enquanto o caso Banestado envolveu remessas ilegais de cerca de R$ 42 bilhões. Ou seja, em poucos anos de corrupção sistêmica, movimentaram-se quantias equivalentes ou superiores ao que foi extraído em um século de colônia.

Vale reforçar: esses números são estimativos. Eles servem como referência, já que não dispomos de todos os dados com precisão, e naturalmente podem se mostrar imprecisos ou até incorretos. Ainda assim, com as informações que temos hoje, é nessa direção que os dados apontam.

Os portugueses trocaram o ouro por quinquilharias, como espelhos, talheres e ferramentas.

Essa afirmação é, de fato, verdadeira — mas é importante entender o contexto em que isso ocorreu. Os povos originários que aqui habitavam, apesar de terem desenvolvido técnicas bastante promissoras, ainda não dispunham, por exemplo, da roda. A maioria de suas ferramentas era feita de materiais como argila, ossos, madeira e pedras.

É sempre tentador compará-los diretamente a sociedades da Idade da Pedra, mas isso seria uma simplificação imprecisa. Em muitos aspectos, esses povos apresentavam desenvolvimentos culturais e sociais mais sofisticados do que esse rótulo sugeriria. Portanto, embora a frase seja útil do ponto de vista didático ou lúdico, ela não deve ser interpretada como uma descrição histórica rigorosa da situação dos povos originários naquela época.

Você provavelmente deve olhar para o espelho que tem em sua casa e pensar que foi por algo do tipo que os portugueses levaram o ouro do Brasil. O que você talvez não saiba é que o espelho que você tem hoje teve seu desenvolvimento a partir de meados de 1830, ou seja, cerca de 10 anos após a Revolução Industrial. Logo, um espelho em 1500 — por mais que inferior aos modernos — representava, para os povos indígenas da época, uma tecnologia de ponta, sobretudo considerando que eles ainda não estavam na era dos metais.

Falando em metais — materiais que compunham a maior parte das “quinquilharias” referidas —, é verdade que muitos objetos, como talheres e colheres, poderiam ter causado mais curiosidade do que impacto prático. Mas outros, como machados, facas e ferramentas de corte, tiveram um efeito direto e transformador no cotidiano indígena: abrir caminhos na mata, caçar, pescar, derrubar árvores e realizar diversas tarefas que antes levavam dias ou semanas, agora podiam ser feitas em tempo muito menor.

Fazendo uma analogia para facilitar a compreensão — com o cuidado de reconhecer que analogias são didáticas, mas podem carregar imprecisões —, é como se os povos originários tivessem passado, de forma abrupta, da Idade da Pedra para a Idade dos Metais. Em termos de impacto, seria comparável a levar um smartphone para o ano de 1800, antes da Revolução Industrial.

Melhora na qualidade de vida

Um outro aspecto frequentemente ignorado é a melhora na qualidade de vida — ou, ao menos, um certo incremento dela em determinados aspectos. Sempre ouvimos dizer, e isso é absolutamente verdadeiro, que o contato com os portugueses trouxe muitas doenças para o Brasil. E é importante deixar claro: o intuito deste artigo não é, de forma alguma, negar fatos documentados e reconhecidos, tampouco praticar revisionismo histórico. A proposta aqui é trazer à tona outros elementos que costumam ser desconhecidos e, portanto, ignorados pela maioria dos brasileiros.

Ao contrário do que ilustram as imagens do descobrimento nos livros escolares, o Brasil de então não dispunha de coqueiros nem de bananeiras. Alimentos como banana, coco, cana-de-açúcar, figo, uva, maçã, pera, marmelo, pêssego, romã, melão e melancia foram trazidos pelos colonizadores. O mesmo vale para diversas especiarias, como pimentas e outros temperos.

Para além da simples troca desses alimentos, também foram introduzidos no Brasil conhecimentos agrícolas mais avançados, que contribuíram para a ampliação da capacidade de cultivo e produção de alimentos. Técnicas de irrigação, manejo do solo e rotação de culturas — ainda que rudimentares para os padrões de hoje — representaram um avanço significativo em relação às práticas locais até então conhecidas.

Some-se a isso o fato de que, da mesma forma, também foram trazidos ao território animais de criação como galinhas, porcos, cavalos, bois e vacas. Esses animais não apenas enriqueceram a dieta disponível, como também influenciaram diretamente a estrutura econômica e social da colônia. O cavalo, por exemplo, revolucionou o transporte e a mobilidade; o boi foi essencial na tração de cargas e arados; e a criação de porcos e galinhas garantiu novas fontes de proteína acessível.

Se, por um lado, é justo reconhecer que tudo isso se deu dentro de um processo de dominação e exploração, por outro, também é intelectualmente honesto reconhecer que a chegada dos portugueses trouxe elementos que alteraram profundamente — e em alguns casos positivamente — o cotidiano das populações locais.

Boa parte das populações indígenas era nômade e, por isso, precisava mudar constantemente de morada. Em muitos casos, realizavam grandes queimadas — conhecidas como capoeiras — para preparar o solo para o cultivo. É importante, no entanto, fazer a ressalva de que essas são generalizações: existiam dezenas de povos com culturas e práticas distintas entre si, e não se pode reduzir todos a um único modelo de organização.

Ainda assim, a introdução de animais de carga, novas técnicas de plantio e ferramentas de metal representou uma mudança profunda na forma como a terra passou a ser utilizada. Aos poucos, foram se estabelecendo comunidades mais fixas, com produções mais estáveis e capacidade de armazenamento de alimentos, o que, em certos contextos, também significou uma redução da insegurança alimentar.

O Brasil foi uma colônia de exploração

Ao longo deste texto, tomei o cuidado de alertar o leitor sobre estimativas e imprecisões, justamente porque determinadas informações, quando retiradas de contexto ou apresentadas sem as devidas ressalvas, podem se transformar em desinformação — ou mesmo serem usadas para sustentar narrativas enganosas. A história é complexa por natureza e exige reflexões profundas, muitas vezes incompatíveis com reducionismos e slogans fáceis.

Dito isso, é preciso também problematizar a ideia, frequentemente repetida, de que o Brasil foi meramente uma colônia de exploração. Essa afirmação pode até fazer sentido quando analisamos um período específico da nossa história, mas não resiste a uma análise de longo prazo, tal como também ressaltei anteriormente ao comparar um século de extração de ouro com episódios recentes de corrupção.

Essa narrativa se mostra, no mínimo, imprecisa quando se consideram certos marcos históricos. Um exemplo notável é o fato de o Brasil ter integrado formalmente o Império Português, denominado Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Outro fato extraordinário — e praticamente sem paralelos na história mundial — foi a transferência da sede da Coroa portuguesa para a colônia, em 1808. Essa mudança gerou reações intensas em Portugal, como os episódios da Vilafrancada e da Abrilada, movimentos que expressaram o descontentamento da metrópole com a centralidade crescente do Brasil.

Pode-se dizer, sem exagero, que, a partir desse ponto, as histórias de Brasil e Portugal se entrelaçam de maneira tão profunda que acabam resultando em situações singulares, como o fato de uma brasileira — Dona Maria II — ter se tornado rainha de Portugal.

Impacto cultural

Voltando aos povos originários e às suas trocas com os portugueses — inclusive a famosa troca de ouro por espelhos — é importante reconhecer também o impacto cultural desse encontro. Se hoje dispomos de algum conhecimento mais detalhado sobre os povos que habitavam o território brasileiro antes da colonização, isso se deve, em grande parte, à chegada da escrita, trazida pelos europeus.

Há diversos relatos sobre nossas terras, viagens, povos, costumes, diferenças culturais e modos de vida. Esses documentos, ainda que repletos de um olhar europeu — muitas vezes marcado por visões racistas, xenofóbicas e eurocêntricas — são registros históricos. Eles devem, sim, ser lidos com a devida cautela crítica, mas não podem ser simplesmente descartados. Sem eles, saberíamos muito menos sobre o Brasil pré-colonial.

De maneira geral, os povos originários não haviam desenvolvido um sistema de linguagem escrita, o que dificultava a transmissão sistematizada de conhecimentos entre gerações ao longo do tempo. A oralidade era o principal meio de preservação cultural. Nesse contexto, a atuação dos jesuítas também teve um papel relevante: foram eles que criaram uma notação para o Tupi Antigo, ajudando a registrar, pela primeira vez por escrito, elementos da língua e da cultura dos povos indígenas.

E os espelhos — por mais irônico que pareça — trouxeram algo ainda mais simbólico: a possibilidade de ver a si mesmos com nitidez, de encarar o próprio rosto fora da água, sem a distorção de um rio em movimento. Mais do que um objeto curioso, o espelho contribuiu para a construção de uma nova percepção do “eu” — de como cada indivíduo se apresentava à sua comunidade, qual era seu papel, sua imagem, sua identidade diante dos outros. Esse pequeno artefato, portanto, pode ter impactado não apenas a estética, mas também a consciência individual e coletiva desses povos.

Conclusão

É óbvio que este artigo, como qualquer outro recorte histórico, está repleto de generalizações e estimativas que, porventura — repito — podem se revelar imprecisas. Novas descobertas históricas podem, ironicamente, mudar o “ontem”. Mas afirmo-lhes, com toda honestidade, que os dados aqui apresentados se baseiam em fatos reais e reconhecidos.

Como ressaltei no início, existem inúmeros problemas decorrentes da colonização do Brasil que representam mazelas profundas e, em muitos casos, irreparáveis — não só na história do país, mas da humanidade como um todo. A escravidão, por exemplo, é um desses horrores incontestáveis. Tais fatos não devem ser renegados, amenizados ou ignorados; pelo contrário, devem ser tratados com o devido peso, rigor e, acima de tudo, com honestidade.

Nenhuma das alegações feitas aqui — ainda que todas baseadas em fatos — tem a intenção de minimizar os efeitos negativos da colonização. Meu objetivo foi lançar luz sobre aspectos menos discutidos, sem jamais apagar ou diminuir os episódios trágicos.

Assim como é verdade que a cultura brasileira está profundamente enraizada na cultura portuguesa não apenas na língua — que já apresenta diferenças significativas —, mas também nas cidades históricas, na culinária, religiosidade, festas populares como o Carnaval, São João e o Natal, literatura, música e artistas como a própria Carmen Miranda, símbolo da brasilidade por um tempo. Também é verdade que há uma complexa troca de influências, pensadores, poetas e manifestações culturais que mal conseguimos enumerar.

Ainda hoje, existem tensões e diferenças entre brasileiros e portugueses, heranças de uma longa história compartilhada. Mas é preciso encarar tudo isso com maturidade e honestidade, reconhecendo erros e acertos, dores e legados. Só assim será possível compreender o passado com mais profundidade — e construir um futuro mais lúcido e justo.


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