← Back to list

O Brincar de Ser Deus: Onipotência Infantil, Narcisismo e a Recusa do Limite (Série: Reflexões…

Série — Soberania e Sombra: Uma Investigação Polímata sobre o Discurso — Artigo 02

Marcio Vinicius Santos Neves · 2026-02-13 15:08 · 0 claps · 7.7 min read
#deus #onipotência #narcisismo #limites #discurso-de-ódio
Open on Medium ↗

O Brincar de Ser Deus: Onipotência Infantil, Narcisismo e a Recusa do Limite (Série: Reflexões Jurídico-Filosóficas)

Série — Soberania e Sombra: Uma Investigação Polímata sobre o Discurso — Artigo 02

I. Introdução — A Tensão Ética Central

Na aurora da vida psíquica, o bebê habita um território de ilusória onipotência. Para “Sua Majestade, o Bebê”, o mundo é uma extensão de seus próprios desejos, e a diferenciação entre o “Eu” e o “Outro” ainda é uma névoa a ser dissipada. Esse narcisismo primário, embora necessário para a constituição do ego, deve ser gradualmente abandonado para que o sujeito possa ingressar na cultura. Contudo, quando essa transição falha, a onipotência não desaparece; ela apenas se reveste de novas roupagens, encontrando no discurso religioso absoluto um refúgio ideal para a sua manifestação.

O discurso de ódio religioso, sob esta ótica, revela-se como um “brincar de ser Deus”. O orador, ao identificar-se de forma totalitária com o sagrado, acredita estar acima das contingências humanas e das leis civis. Ele não apenas prega uma verdade; ele tenta restaurar aquele estado infantil onde sua vontade era a lei suprema. O proselitismo agressivo torna-se, então, um sintoma de uma psique que se recusa a crescer, preferindo o conforto da onipotência à angústia da alteridade.

Neste cenário, o “outro” não é visto como um interlocutor, mas como um objeto a ser assimilado ou destruído. A tensão ética central reside justamente no choque entre esse impulso de expansão narcísica e a realidade de um espaço público plural. Para o polímata, compreender o ódio religioso exige olhar para trás, para as fases primitivas do desenvolvimento, onde a ausência de limites era a regra, e entender como esse resíduo infantil contamina o púlpito e desafia a lei.

II. Fundamentação Filosófica — Fracasso, Virtude e Tempo Moral

A maturidade moral depende de um evento traumático, porém estruturante: a castração simbólica. Na teoria freudiana, a castração é o “Não” que rompe a díade onipotente e introduz o terceiro elemento — a Lei. É o reconhecimento de que o desejo do sujeito não é a medida de todas as coisas. A virtude, portanto, nasce do fracasso da onipotência. Somente quando aceitamos que “não podemos tudo” é que nos tornamos aptos a viver em sociedade, respeitando o tempo moral necessário para o diálogo e a negociação.

No âmbito jurídico, o Estado desempenha o papel da função paterna. O ordenamento constitucional, ao estabelecer limites ao discurso, atua como o agente da castração simbólica que o sujeito religioso muitas vezes se recusa a aceitar. O “Não” do Estado não é uma afronta à divindade, mas o marco necessário para que a liberdade não se transforme em barbárie. A recusa do limite jurídico é, em essência, a recusa de se tornar um sujeito pleno, preferindo permanecer na fase fálica de uma onipotência agressiva.

O tempo moral exige que a convicção passe pelo crivo da responsabilidade. Um discurso que ignora o limite legal revela uma falha na internalização da norma. Se o sujeito não reconhece a autoridade do Estado como garantidora da paz social, ele regride a um estado de natureza psíquica onde a força do desejo (ou da “fé”) se impõe sobre o direito do outro. A virtude da prudência jurídica é, portanto, o reflexo de uma mente que aceitou a sua própria finitude e a soberania da lei comum.

III. Análise Cultural — Redenção e Punição no Imaginário Contemporâneo

A cultura digital contemporânea funciona, frequentemente, como uma incubadora de onipotência. As bolhas de eco eliminam o “Outro” contraditório, permitindo que o indivíduo se sinta novamente o centro de um universo de confirmações. Nesse ambiente, o discurso de ódio atua como uma descarga pulsional desimpedida. A punição do divergente não é vista como um ato de justiça, mas como um “berro” de controle anal — uma tentativa de expelir ou dominar aquilo que não se consegue integrar ou compreender.

O imaginário da punição imediata substitui o processo da redenção. No discurso de ódio, não há espaço para a metanoia do interlocutor, apenas para a sua aniquilação simbólica. Essa fixação em fases primitivas impede a simbolização do conflito. Em vez de debater ideias, o sujeito “age” o seu ódio, transformando o púlpito digital num campo de batalha onde a única vitória aceitável é o silenciamento total do inimigo. É o triunfo da sombra não integrada sobre a razão civilizatória.

A cultura da intolerância é, assim, uma cultura de resistência à castração. O ódio ao “diferente” é o medo de que a existência do outro prove que a minha verdade não é o único sol do universo. Para resgatar a possibilidade de redenção no espaço público, é preciso que a cultura volte a valorizar o limite. O reconhecimento da sombra pessoal é o primeiro passo para que o discurso deixe de ser uma arma de dominação e passe a ser um convite à convivência humana.

IV. Diálogo com o Cristianismo — Conversão, Graça e Recomeço

A teologia cristã oferece um poderoso antídoto à onipotência narcísica: a doutrina da soberania divina e da depravação humana. Se Deus é o único Soberano, o homem não pode se arrogar o lugar de juiz absoluto do seu próximo. A conversão genuína implica, paradoxalmente, uma rendição da vontade própria — uma aceitação da castração existencial perante o Criador. O “Pecado” de Adão foi, em última análise, a tentativa de recuperar a onipotência perdida através da transgressão do limite.

A Graça é o que permite o recomeço após o reconhecimento do limite. Diferente do legalismo rígido — que é uma manifestação do Superego punitivo — , a Graça reconhece a falha humana, mas não a utiliza para destruir. Um cristianismo que se expressa através do ódio nega a sua própria essência, pois substitui a misericórdia pelo narcisismo espiritual. O verdadeiro proselitismo não é uma imposição de força, mas um testemunho de fraqueza redimida que respeita o livre-arbítrio e o espaço do outro.

O diálogo entre o púlpito e a lei torna-se fértil quando o cristão compreende que a liberdade de pregar deve ser exercida dentro da ética da Graça. Aceitar os limites constitucionais é uma forma de submissão humilde que reconhece que o Reino de Deus não é imposto pelo braço de ferro humano. O recomeço para o discurso religioso passa pela recuperação da humildade teológica, onde o orador aceita que sua palavra é apenas um reflexo pálido e falível da Palavra eterna, submetendo-se à ordem que protege a vida de todos.

V. Conclusão Reflexiva — Síntese Crítica e Abertura à Esperança

A investigação desta “Soberania e Sombra” nos leva à conclusão de que o discurso de ódio não é apenas um problema jurídico ou teológico, mas uma crise de maturidade psíquica. Ao integrarmos a psicanálise infantil, percebemos que a proteção das minorias e o combate ao ódio são, também, formas de garantir que a sociedade não regrida a um estado de onipotência infantil coletiva. A Lei, em sua função paterna, protege o próprio agressor de ser consumido pelo seu próprio impulso destrutivo.

A esperança para o espaço público reside no fortalecimento da capacidade de simbolização. Quando conseguimos transformar o impulso agressivo em palavra mediada, a democracia floresce. O polímata tem o dever de apontar esses cruzamentos, mostrando que a sanidade da fé depende da aceitação do limite. O caminho para uma sociedade mais justa passa pela educação do desejo e pela compreensão de que a liberdade só é real quando reconhece a fronteira onde começa o direito e a dignidade do outro.

Que esta série continue a servir de guia para aqueles que, entre o direito e a teologia, buscam uma mente equilibrada e um coração voltado para a verdade. O “Não” da lei e o “Sim” da fé podem coexistir, desde que ambos se curvem à realidade da nossa condição humana comum. Somente ao aceitarmos que não somos deuses, poderemos finalmente aprender a ser humanos, promovendo um proselitismo que cure em vez de ferir, e que construa em vez de destruir.

Um convite ao meu laboratório pessoal:

O que você acabou de ler é mais do que um artigo; é um fragmento da minha própria busca por síntese. Em Soberania & Sombra, eu abro as portas do meu “laboratório de polimatia” para compartilhar como venho costurando os fios — às vezes conflitantes — do Direito, da Teologia e da Psicanálise.

Escrevo para organizar o pensamento e preparar o terreno para minha tese de mestrado, mas, acima de tudo, escrevo porque acredito que a vida intelectual, quando exercida com rigor e paixão, é um ato de adoração. Meu objetivo aqui é simples: investigar as fronteiras da palavra para encontrar a justiça que não ignora a alma e a fé que não teme a lei. Tudo o que faço aqui é um rascunho, um degrau e uma prece, construídos para a Glória de Deus.

Dê um passo além na prática: Curso de Direito Eclesiástico

Se as reflexões desta série despertaram em você a necessidade de compreender como essas fronteiras se aplicam ao dia a dia das instituições, convido-o a conhecer o meu Curso de Direito Eclesiástico. Através do Instituto Manoel Reis, estruturei um roteiro programático que abrange o Direito Religioso e o Direito Canônico em 4 videoaulas objetivas, com emissão de certificado. É uma ferramenta prática para quem deseja zelar pela saúde jurídica e institucional da igreja, garantindo que o “ide” seja exercido com ordem e segurança.

Investimento Especial: De R$ 350 por apenas R$ 59,99.

Inscrições e informações: www.institutomanoelreis.com.br

Contato direto: (71) 3190–0553 ou (71) 98833–8248.

Vamos juntos construir um saber que serve à Igreja e honra ao Senhor!!!

Referências Bibliográficas

VIEIRA, Thiago Rafael; REGINA, Jean Marques. Direito religioso: questões práticas e teóricas. 4. ed. ampl. e atual. São Paulo: Vida Nova, 2023 (https://amzn.to/4qw2Fkh)

VIEIRA, Thiago Rafael; REGINA, Jean Marques. A Laicidade Colaborativa Brasileira: da aurora da civilização à Constituição de 1988. São Paulo: Vida Nova, 2021 (https://amzn.to/4rKoQUZ)

VIEIRA, Thiago Rafael. Liberdade religiosa: fundamentos teóricos e exercício prático. São Paulo: Almedina, 2023 (https://amzn.to/4trx4CT)

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. (Especial atenção ao Art. 5º, VI, VII e VIII, e Art. 19, I). Acesso em: 12 fev. 2026

BRASIL. Decreto nº 7.107, de 11 de fevereiro de 2010. Promulga o Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, [2010]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/decreto/d7107.htm. Acesso em: 12 fev. 2026.

MIRANDA, Jorge. Estado, Liberdade Religiosa e Laicidade. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Coimbra Editora, v. 52, n. 1, 2011, p. 9–34. Disponível em: http://hdl.handle.net/10451/59450. Acesso em: 12 fev. 2026.

SORIANO, Aldir Guedes. Liberdade religiosa no direito constitucional e internacional. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2002. Prefácio de Celso Ribeiro Bastos; apresentação de Valerio de Oliveira Mazzuoli.

WEINGARTNER NETO, Jayme. Liberdade Religiosa na Constituição: Fundamentalismo, Laicidade e Pluralismo. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007.

MACHADO, Jónatas E. M. Liberdade religiosa numa comunidade constitucional inclusiva: dos direitos da verdade aos direitos dos cidadãos. 2. ed. (reimpressão da 1. ed.). Coimbra: Coimbra Editora, 1996 (reimpressão 2021). Disponível em: http://bibliotecadigital.stf.jus.br/xmlui/handle/123456789/7761. Acesso em: 12 fev. 2026.

DWORKIN, Ronald. O império do direito. Tradução de Jefferson Luiz Camargo; revisão técnica: Gildo Sá Leitão Rios. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014 (https://amzn.to/4bKrIML)

WALDRON, Jeremy. O dano no discurso de ódio. Tradução de Almir Oliveira Júnior. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

WOLTERSTORFF, Nicholas. Justice: Rights and Wrongs. Princeton: Princeton University Press, 2008.

BRAUNSTEIN, Néstor A. Gozo. São Paulo: Escuta, 2007.

SMITH, James K. A. Aguardando o Rei: reformando a teologia pública. São Paulo: Vida Nova, 2018. (Liturgias culturais — v. 3) (https://amzn.to/4akFUJR)


메타데이터
post_id
8eb57f9248fa
slug
o-brincar-de-ser-deus-onipotência-infantil-narcisismo-e-a-recusa-do-limite-série-reflexões-8eb57f9248fa
url
https://medium.com/@marciovinicius1008/o-brincar-de-ser-deus-onipot%C3%AAncia-infantil-narcisismo-e-a-recusa-do-limite-s%C3%A9rie-reflex%C3%B5es-8eb57f9248fa
canonical_url
https://medium.com/@marciovinicius1008/o-brincar-de-ser-deus-onipot%C3%AAncia-infantil-narcisismo-e-a-recusa-do-limite-s%C3%A9rie-reflex%C3%B5es-8eb57f9248fa
author_url
https://medium.com/@marciovinicius1008
status
ok
fetched_at
2026-06-27 18:20:27