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O INTER NASCEU DA INVEJA

Por Guilherme Natividade

Guilherme da Natividade Machado · 2026-03-02 20:36 · 1 claps · 7.6 min read
#internacional #colorado #inveja #gremio #futebol
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Wiki topics: FT · Fine-tuning & Adaptation

O INTER NASCEU DA INVEJA

Por Guilherme Natividade

O Inter só existe graças ao Grêmio. Não fossem os irmãos Poppe, fundadores do Colorado, terem sido rejeitados no Tricolor, quando, na década de 1900, tentaram se associar ao já então maior clube de Porto Alegre — que já contava com seu quadro associativo fechado —, o Internacional que conhecemos hoje não teria sido fundado. Como não foram aceitos pelo Imortal, os irmãos Poppe recorreram à fundação de um clube de futebol que teria como principal objetivo concorrer contra o Grêmio e se consolidar como uma força alternativa a ele. Ou seja, o Tricolor inspirou e motivou a fundação do Colorado.

No artigo *O mito do "racismo" no Grêmio*, refutei a alegação colorada de que, nos primórdios, o Grêmio não aceitava pessoas negras em seus quadros associativos e de atletas. Na verdade, os irmãos Poppe não puderam se associar ao Tricolor não por supostamente serem negros — pois eles não eram — , mas porque o clube, na época, já possuía formação associativa definida, não incluindo desconhecidos vindos de fora.

É falso que o Internacional possua esse nome por ter sido uma instituição fundada com o objetivo de incluir todos os povos, sem preconceito e discriminação. Na verdade, o nome se deu por dois motivos. O primeiro se deve ao fato de os irmãos Poppe terem sido descendentes de imigrantes, principalmente italianos, integrando diferentes nacionalidades. O segundo e mais relevante é uma homenagem à Internazionale de Milão, fundada um ano antes — em 1908 —, e uma inspiração no Sport Club Internacional de São Paulo, fundado em 1899 e extinto em 1933. Devido ao fato de os irmãos Poppe terem nascido em São Paulo e vindo para Porto Alegre por volta de 1908, o Colorado herdou integralmente o nome do clube homônimo pelo qual seus fundadores torciam no estado paulista (Bueno, 2005).

SEMPRE CORRENDO ATRÁS DO PIONEIRO

O Inter sempre esteve atrás do Grêmio em diferentes quesitos. Como o Tricolor conquistou praticamente tudo antes do Colorado, possuindo mais títulos do que o maior rival, o Internacional assumiu, desde sua origem, um posto de coadjuvante no futebol porto-alegrense e gaúcho.

O Grêmio foi o primeiro clube a vencer um clássico Grenal — e por goleada! Já o Inter, em contrapartida, tem registrado em sua história que sua primeira partida foi marcada por uma humilhação imposta pelo grande rival, seu eterno carrasco.

Quando, em 1909, meses após a fundação do Inter, os diretores colorados propuseram um confronto de estreia do novo clube da cidade contra o Grêmio, a então diretoria gremista, representada pelo presidente Augusto Koch, aceitou a proposta, oferecendo o segundo quadro tricolor para aliviar o jogo para os novatos. Contudo, buscando forçar uma rivalidade com o clube que os rejeitou no passado, os fundadores do Internacional insistiram em jogar contra o quadro principal do Tricolor, em partida amistosa realizada no Fortim da Baixada. O resultado: 10 a 0 a favor do Grêmio no dia 18 de julho de 1909, com cinco gols de Edgar Booth (autor do primeiro gol da história do clássico), quatro de Grünewald e um de Moreira. O massacre foi tamanho que, após esse confronto, o Inter passou três meses sem entrar em campo, quase vindo a encerrar suas recentes atividades (Bueno, 2005).

De acordo com a lista de todos os Grenais da história, disponível no website oficial do próprio S. C. Internacional, os quatro primeiros clássicos foram vencidos pelo Grêmio por amplas goleadas: 10x0 (1909), 5x0 (1910), 10x1 (1911) e 6x0 (1912). Ou seja, os quatro primeiros Grenais contaram com 31 gols do Grêmio contra apenas 1 do Inter. Em 17 de julho de 1910, um ano após o inesquecível 10 a 0, o Tricolor venceu o primeiro clássico oficial, válido pelo Campeonato Citadino de Porto Alegre. O Colorado só foi vencer um Grenal amistoso no sétimo clássico, em 1915, e um oficial no oitavo clássico, em 1916.

Mas não foram apenas Grenais que tornaram o Grêmio pioneiro na cidade e no estado. O Tricolor foi o primeiro clube entre a Dupla a jogar contra uma seleção (Uruguai, em 1911) e a disputar um torneio e uma partida internacional. Além disso, o Imortal também foi o primeiro clube de fora do Rio de Janeiro a vencer no Maracaña (em 1950, contra o Flamengo), bem como a primeira equipe estrangeira a bater o Boca Juniors em La Bombonera (em 1959) e o time responsável por efetuar a maior contratação da história do futebol no Rio Grande do Sul (o uruguaio Luis Suárez).

No quesito estrutura física, o Grêmio, que foi fundado anos antes do Inter (em 1903), foi o primeiro clube entre a Dupla Grenal a ter um estádio próprio: o Fortim da Baixada, construído em 1904. O Internacional só foi ter um estádio de verdade para chamar de seu, Os Eucaliptos, em 1931 — 22 anos após sua fundação. Quando o Beira-Rio foi construído, em 1969, o Olímpico já havia sido inaugurado em 1954 — e, posteriormente, seria ampliado em 1980, tornando-se Monumental. Já o novo Beira-Rio, reformado e finalizado em 2014, só foi reinaugurado após a inauguração da Arena, em 2012. E detalhe: todos os estádios gremistas sempre tiveram as maiores capacidades e os maiores públicos em partidas entre clubes disputadas no Rio Grande do Sul.

"Ah, mas a Arena não é do Grêmio", argumentam os colorados. Mentira! A Arena sempre foi do Grêmio, desde que foi construída — tanto que leva o nome do clube. A Arena só existe por causa do Grêmio, pois, sem ele, não haveria razão para que ela tenha sido erguida. Ocorre que, por questões contratuais entre o clube e a construtora responsável pela obra do novo estádio, o Tricolor não detinha a administração total da Arena, que, até pouco tempo, era gerida por uma empresa que tinha participação tanto do Grêmio quanto da OAS, sua parceira no projeto. Contudo, com a doação do empresário Marcelo Marques para o clube, em 2025, o Grêmio passou a ter a gestão integral de sua Arena, que é um patrimônio 100% gremista. Já o Beira-Rio, igualmente por questões contratuais, sofre com problemas que limitam a autonomia colorada sobre o estádio. Além da construtora Andrade Gutierrez ter posse dos setores de camarotes, o Inter não pode utilizar imagens do estádio sem autorização. O clube já chegou a ser multado pela empresa que administra o estádio (Farina, 2025).

Em relação a títulos, o Grêmio supera o Inter de lavada. O Tricolor foi o primeiro clube entre a Dupla Grenal a conquistar um Campeonato Citadino de Porto Alegre, um Campeonato Gaúcho, uma Recopa Sul-Americana, uma Copa Libertadores da América e um Mundial Interclubes. O Imortal também foi o primeiro clube brasileiro a conquistar uma Copa do Brasil e uma Supercopa do Brasil, além de ser o único entre a Dupla Grenal a possuir títulos regionais (o Campeonato Sul-Brasileiro de 1962 e a Copa Sul de 1999) e a erguer taças de relevância em estádios de equipes adversárias.

A torcida colorada, a fim de desmerecer as conquistas gremistas, alega que a Copa do Brasil não é um grande título pois, no passado, disputavam apenas clubes que não jogavam a Libertadores. O curioso dessa alegação é que o próprio Inter, institucionalmente, quando conquistou sua única Copa do Brasil (roubada), em 1992, inseriu uma estrela dourada sobre o seu escudo oficial, representando especificamente essa conquista. Além disso, é contraditório fazer esse apontamento e, ao mesmo tempo, ignorar que a Copa Sul-Americana é uma competição disputada apenas por equipes que não jogam a Libertadores. Mas isso não agrada à narrativa dos torcedores do clube que lançou uma fita VHS do Campeonato Gaúcho de 1997.

Até o momento em que escrevo este texto (março de 2026), considerando apenas títulos internacionais de relevância, são seis conquistas para cada lado. Já considerando apenas títulos nacionais de relevância, são oito conquistas a favor do Grêmio contra apenas quatro a favor do Inter. Oficialmente, no total, temos, portanto, 14 taças para o Tricolor e 10 para o Colorado.

O VERDADEIRO CLUBE INTERNACIONAL

Quando, em 1983, o Grêmio se tornou o primeiro clube do sul do Brasil a ser campeão da América e do mundo, o Inter ainda não havia conseguido conquistar um título de expressão além das fronteiras brasileiras. O Colorado até chegou à final da Libertadores em 1980, mas acabou sendo derrotado pelo Nacional, do Uruguai, em Montevidéu. Naquele 11 de dezembro de 1983, em Tóquio, ficou decretado que, no Sul do Brasil, nada pode ser maior.

O Inter até poderia alcançar o Grêmio, mas jamais superá-lo. Não havia absolutamente nada que o Colorado pudesse conquistar que superasse o título mundial do Tricolor. E eles levaram mais de duas décadas e meia para igualar nossos principais feitos.

Além da primeira partida da história do Inter, o que mais dói nos colorados é saber que, quando o Internacional conquistou a Libertadores pela primeira vez, em 2006, já havia duas placas com o nome e o escudo do Grêmio pregadas na taça. E quando eles nos igualaram, em 2010, levamos apenas sete anos para passar à frente novamente; quando, em 2017, conquistamos o Tri da América na Argentina — feito que somente o Santos, de Pelé, havia conseguido na década de 1960.

Recordo muito bem os comentários na transmissão da TV Globo após o título de campeão do mundo do Inter em 2006, com gol de sorte do Gabiru: "o Internacional esperava esse título desde 83, quando o Grêmio foi campeão mundial. Foram 23 anos para se equiparar ao maior rival". Ficou claro, na cobertura da imprensa na época, que o principal feito do Inter foi ter se igualado à grandeza do Grêmio (Lopes, 2006).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste ano de 2026, o S. C. Internacional completa a marca de 15 anos sem conquistar um grande título de expressão. Será o ano da valsa para os debutantes vermelhos. E não adianta contabilizar a conquista do Gauchão para minimizar a seca. Durante o período em que o Grêmio passou 15 anos sem ganhar um título relevante, o clube também conquistou estaduais e isso não zerou a contagem colorada, nem impediu a valsa dançada pelo Sasha no Beira-Rio, em 2016.

O clube que nasceu em 2006, há exatos 20 anos, e que levou a maior goleada em um clássico Grenal disputado no século XXI (em 2015), vai enfim debutar no dia 24 de agosto de 2026. O curioso disso tudo é que, por ser mais velho e mais experiente, o Grêmio acaba sendo pioneiro até nos infortúnios, o que faz valer sua história maior e mais interessante e emocionante do que a do arquirrival. Se bem que o Inter sabe muito bem o que é viver um longo jejum de títulos, já que, de 1980 a 2005 (25 anos), o Colorado conquistou apenas uma taça de relevância: a Copa do Brasil de 1992.

Essa é, portanto, a história do clube que se autodenomina "campeão de tudo" sem possuir títulos regionais nem Supercopa do Brasil. O clube que possui menos participações, partidas, classificações, vitórias, finais e títulos do que o maior rival na Copa Libertadores. O clube que nasceu da inveja, vivendo sempre à sombra — copiando e imitando o pioneiro, copeiro e imortal.

REFERÊNCIAS

BUENO, Eduardo. Grêmio: nada pode ser maior. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

FARINA, Jocimar. Por que o Inter não pode usar imagens do Beira-Rio sem autorização. GZH, 14 abr. 2025. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/jocimar-farina/noticia/2025/04/por-que-o-inter-nao-pode-usar-imagens-do-beira-rio-sem-autorizacao-cm9h4cu60002801k0qj7u24de.html. Acesso em: 01 mar. 2026.

LOPES, Evandro César. Inter se iguala ao rival Grêmio e coroa ‘ano perfeito’. UOL, 17 dez. 2006. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas/2006/12/17/ult59u109208.jhtm. Acesso em: 01 mar. 2026.


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