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Falar sem falar

Quanto mais velho eu fico, mais palavras eu tenho. Mas quanto mais velhas elas ficam, menos elas querem sair de casa.

Rodrigo D'Angelo · 2024-06-11 00:00 · 0 claps · 4.9 min read
#palavras #fala #educação #interpretação
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Falar sem falar

Quanto mais velho eu fico, mais palavras eu tenho. Mas quanto mais velhas elas ficam, menos elas querem sair de casa.

Esses dias, a caminho de um jogo do Palmeiras, cruzei com um grupo de girinos recém saído de um treino ou um jogo de vôlei. Estava eu andando rápido, embrulhado nas cores do Palestra Itália, quando uma menina de uma das rodas disse "Adorei a roupa, moço!".

Eu não respondi, nem pensei em responder. Olhei pra ela, meneei a cabeça e segui a caminhada. Pude ouvir ao fundo ela virar chacota por ter sido ignorada por um esquisito, mas não era minha intenção ignorar, como acredito que não ignorei. Faltou experiência àquela roda de captar a nuance do que eu disse sem dizer. E a culpa disso é toda minha, eu sei.

O resto do caminho fui pensando a respeito disso. A respeito de como quando envelhecemos, palavras dizem tanto quanto as pausas. Ouvir o silêncio é uma habilidade que se arrasta vagarosamente para dentro de nós. Mas quando nos alcança, tudo muda.

Hoje é assim que eu me sinto. Leigos tropeçam na língua para chamar alguém de um "sujeito de poucas palavras". Ora, o mundo não é feito somente de palavras ditas, cuspidas, ouvidas. As palavras moram na cabeça, não na garganta. Tudo fala. Os olhos tem as suas palavras, as mãos tem as suas palavras, as roupas tem as suas palavras, as rugas tem as suas palavras. Eu me preocupo muito em aprender a falar por cada poro do meu corpo. Eu amo a linguagem.

Desde que somos gente e só sabemos uma palavra, o "BUÁ", enfiam a pancadas na nossa cabeça a ideia de que a maior invenção desses que ficam em pé e constroem facas foi o fogo, a roda. Discordo com violência. A maior invenção é nomear o fogo de fogo e a roda de roda. E, muito mais do que isso, não satisfeitos em nomear, pegaram cada pintor de cavernas que fosse conhecido e os ensinaram que aquilo era fogo e aquele outro aquilo era roda. E fizeram isso com todas as coisas que conhecemos.

A linguagem. Essa é, de muito longe, a maior invenção do homem. E com certeza o que nos fez ter a capacidade de nos distanciar tanto dos outros animais a ponto de DESTRUIR tudo ao nosso redor. Mas enfim, temas para outras conversas. Aqui me atenho à língua.

Um corte rápido da descoberta do fogo para hoje e podemos ver com nossos próprios olhos a sofisticação máxima da linguagem. Falamos de tudo que é jeito e, quanto mais velho fico, menos quero falar com a boca. As palavras cansam, aprendem, ficam gripadas, com ansiedade social. No final, esse é mais um episódio de vida em que fui salvo pela literatura. Aqui algumas formas de comunicação que aprendi com boas histórias escritas: apertar os lábios, torcer o nariz, dar de ombros, virar os olhos, coçar a cabeça, respirar fundo, franzir o cenho, arquear as sobrancelhas, faltar o ar, cair o queixo, levar as mãos à boca, fechar os punhos, olhar para o céu…

É infinito.

Esse é o paradoxo em que me encontro hoje. Quanto mais velho, menos eu falo e menos em silêncio eu fico. A não ser que silêncio tenha a ver com decibéis. Nesse caso, desculpa te fazer ler tudo isso.

Me permita fantasiar além da minha total e completa falta de qualificação e imagine que me façam ministro da educação um dia. Primeiro decreto: que nas escolas de toda terra Brasil se ensine a comunicação em sua infinidade de significados. Não por muito tempo para que os surtos dos pais e mestres não nos rolem ladeira abaixo num exercício inverso ao de Sísifo, mas por dois ou três anos que todas as crianças tenham essa matéria em sua grade: Comunicação não verbal ou escrita. Por cinquenta minutos, duas vezes por semana.

Que se virem os professores e os alunos. Falem com olhares e mímicas, com abraços e cusparadas, com cambalhotas e sobrancelhas. Mas que falem além do falar. Vejamos que adultos formaremos. Adultos que não dependam das formalidades, das regras, objetos e sujeitos. Não que esses não importem, mas que não só eles importem.

Segundo decreto: todo contrato advindo de um escritório de advocacia, deverá ser lido e interpretado por cidadãos que não advogam e só terão validade em território nacional se for entendido por três a cada três avaliadores dos mais comuns desse país.

E basta de decretos! Tudo isso para que eu possa não falar e todos possam me entender? Perfeita análise da minha talvez falta de análise. Não só por isso. Sei bem que às vezes vivo minhas relações como se eu fosse feito de um vidro limpíssimo. Mas não, tanto faz se eu faça parte dessa comunicação silenciosa do mundo que aqui prego. Tudo isso para expor e compartilhar minha crença absoluta de que se fôssemos treinados na habilidade da comunicação numa esfera mais abrangente que a fala e a escrita, talvez pudéssemos nos comunicar melhor falando e escrevendo.

Saiba você que me lê que escrevo sem ensaio. Não rascunho textos, não preparo de antemão o que aqui descarrego e por isso guio por tantas curvas e rotatórias. Como essa aqui: mas se não colocarmos na fala nossas palavras, não abrimos a porta da perigosa casa da Interpretação?

Abrimos. Abrimos e essa porta vermelha abre com um rangido de congelar os ossos e arrepiar a nuca. Ela abre para cômodos mal iluminados, mal definidos. E o perigo dessa porta não é o que lá dentro nos espera, é o que lá de dentro nos encontra aqui fora. Por esse umbral sádico, espinha dorsal do diálogo, é que passam os monstros que queimam as pontes das nossas relações. É dessas portas que saem os Godzillas que trocam socos e mordidas e que aqui chamamos de repertórios. É nessa maculada arena de piso feito de areia e sangue dos que mal se comunicaram que nos vemos. É aqui que os gladiadores, reféns de interpretações alheias, um de cada lado das suas ideias, construíram os alicerces tão mal harmonizados que foram incumbidos de sustentar a laje da nossa história.

Talvez seja melhor que falemos mesmo. Que sejamos claros, que vençamos a preguiça e a vontade de falar só com os olhos. É melhor que sejamos diretos, que abramos bem as bocas para fechar de vez as brechas. Ainda bem que não me fizeram ministro da educação antes do décimo sexto parágrafo. O mal que eu teria causado ao mundo e às nossas crianças. Ainda bem que muito falei, que contradisse-me e que agora posso voltar em paz ao meu silêncio.

Antes de continuar preciso com urgência me desculpar com vocês e explicar um pouco uma situação. Eu escrevo para conversar comigo mesmo e agora, na função de conversar e de conversar muito bem, vou discordar de você (de mim) e rebater esse último parágrafo. Afinal de contas, se aprendêssemos a falar de outras formas e a buscar entender as outras formas de trocar ideias, talvez nos firmássemos como mestres da interpretação, não tendo mais que temê-la como o demo teme a cruz de ouro maciço. Passaríamos quem sabe a andar por aí com a interpretação na coleira. Numa daquelas coleiras de peito, rosa ou amarela, que fazem com que até o mais hostil dos cachorros carregue ares de anjos querubim. Talvez. Talvez a nova proposta educacional e o convite à reflexão sobre as doze mil outras formas de escrita nos fizesse senhores de outras doze mil formas de leitura. Talvez.

Falei demais com tipos para quem argumentou horrores sobre falar com ar e cheiros. Aqui dou meus pulos sobre a tampa do caixão e enterro esse assunto no WWW: maternidade e cemitério de opiniões.


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