Fraude Ancap #1: “Quando Jesus disse: ‘dai a César o que é de César’ não estava dizendo para pagar…
Esse é o começo de uma série de mapeamento e refutações aos argumentos mais bisonhos e desonestos usados por anarcocapitalistas a fim de…

Fraude Ancap #1: “Quando Jesus disse: ‘dai a César o que é de César’ não estava dizendo para pagar imposto, estava escapando de uma pegadinha.”
Esse é o começo de uma série de mapeamento e refutações aos argumentos mais bisonhos e desonestos usados por anarcocapitalistas a fim de expandir sua agenda e defender sua utopia.
Toda a questão exposta nesse artigo gira em torno de uma interação entre Jesus e os fariseus contido no livro bíblico de Mateus 22:15–22. Se você não conhece, sugerimos a leitura, se já conhece prossigamos com a exposição do embuste. Geralmente o ancap usa a fraude em duas partes:
👉 Na primeira ele afirmará que a questão tratada ali não era de fato o imposto… então tentará induzir que “na verdade” o que ocorrera nesse trecho bíblico foi uma “pegadinha do malandro” que os fariseus tentaram aplicar em Jesus. E sendo Jesus mais sábio… devolveu a “pegadinha” aos fariseus, seus próprios discípulos, e todos os leitores posteriores desse relato.
👉 O ancap também tentará forçar uma situação nunca relatada na escritura, onde supostos “soldados romanos” estariam presentes e Jesus seria preso por dar o que SUPOSTAMENTE (segundo os ancaps) seria sua “verdadeira opinião” de que não é lícito pagar impostos. Ou seja, o ancap vai tentar validar uma narrativa própria do relato, onde Jesus se “esquiva” de responder a pergunta, porque defendia o não pagamento de imposto, e para alguns ainda mais malucos, alguma espécie de anarquia.
Funciona mais ou menos assim:
Ancap: — “imposto é roubo, cristão não pode defender roubo.”
Cristão: — “Ué, mas Jesus disse para pagarmos impostos.”
Ancap: — “Bem… na verdade… Jesus não queria dizer pra pagar imposto, tudo tratava-se de uma pegadinha dos fariseus.”
Cristão: — “Ué, mas na bíblia é dito mais de uma vez que se deve pagar o imposto e se sujeitar a governos”
Ancap: Errrrr, imposto é roubo cara!! olha a pegadinha do malandro”
É uma viagem de dar vergonha alheia, e a demonstração inequívoca de que ancaps PERVERTEM A NARRATIVA BÍBLICA em favor de sua ideologia utópica. Primeiro que, segundo o relato, não existia ali qualquer autoridade romana presente. E não, Jesus não estava tentando sair de pegadinha, nem estava ele tentando fazer pegadinha com seus interlocutores... sabendo que a intenção dos fariseus era.. qual fosse a resposta dada, usar as palavras dele contra ele mesmo, aproveitou a situação para expor a hipocrisia dos fariseus concernente ao tema da autoridade. Mas quais são os fatos e o contexto?
1️⃣ Os judeus estavam sob domínio do Império Romano. E este era o ESTADO. O representante chefe de estado à época do diálogo de Jesus com os fariseus, era o Romano Tibério César. (Lucas 3:1).
2️⃣ Roma já dominava os judeus mesmo antes do nascimento de Cristo. O representante do estado romano, não só atribuía as leis seguidas por todas as províncias (Lucas 2:1–3), como também executava ações judiciais diversas baseada na lei romana (João 19:12,13 ), embora os judeus tivessem certa autonomia na execução de leis regionais próprias de sua província.(João 19:6).
3️⃣ As moedas correntes nos estados província eram o Quadrante (moeda de bronze que equivalia a tostões, ou centavos — (Lucas 21:1–4)), o Dracma (moeda grega de menor circulação) mantida pelo império romano mesmo depois de conquistar a Grécia (Mateus 17:24), e também o Denário (moeda da maior circulação, e de maior valor, que correspondia o salário de um dia de trabalho no império romano) — essa terceira moeda é a que levava a imagem do imperador ( Mateus 20:1,2).
4️⃣ Existiam diversos judeus funcionários públicos, incluindo alguns discípulos do próprio Cristo que tinham a função de cobrar o imposto para Roma — também chamados publicanos ( Lucas 19:1–7). Alguns eram odiados não por serem somente cobradores de impostos, mas por cobrarem propina (Lucas 3:12,13), aliás, o imposto era tão comum que era cobrado internamente dentro da nação para propósitos dito religiosos, o que fez Jesus questionar porque grandes Reis cobravam impostos de terceiros, e Jerusalém (templo) cobrava de seus próprios compatriotas— MESMO ASSIM O PAGOU. (Mateus 17:24–27).
5️⃣ Muitos fariseus, (os mesmos que admitiam comércio no templo explorando gente pobre — (João 2:13–16)) eram os mais revoltados com o pagamento de imposto, tanto que nivelavam os cobradores de impostos à pecadores:
“É característico o costume de associar coletores de impostos e ladrões, publicanos e ladrões; chefes de cobrança, ladrões; cambistas e publicanos (…) Antes de receber seu cargo ou seu arrendamento, os coletores de impostos e publicanos que fizessem parte de uma comunidade farisaica, eram dali expulsos e não podiam se reabilitar a não ser que abandonassem o posto que ocupavam.” ( Jerusalém no Tempo de Jesus — das profissões desprezíveis, pág 413)
6️⃣ Alguns judeus eram revoltosos com o império Romano, muito mais por estarem sobre o domínio de uma nação estrangeira, do que pelo imposto em si mesmo, o que culminou numa guerra que veio posteriormente resultar na destruição de jerusalém:
“Quando, no ano 5, Judas de Gamala, na Galileia, iniciou a sua OPOSIÇÃO ORGANIZADA CONTRA ROMA, ele recebeu o apoio de um dos líderes fariseus, Zadoque, um discípulo de Shammai e um dos mais furiosos patriotas e heróis populares que viveram para testemunhar a destruição de Jerusalém… A realização do censo por Quirino, o procurador romano, com o objetivo de taxar a população, FOI CONSIDERADO UM SINAL DA ESCRAVIDÃO FRENTE AOS ROMANOS; e o chamado entusiástico dos zelotes para a resistência renhida foi recebido de forma retumbante” ( Enciclopédia Judaica(Jewish Encyclopedia) (em inglês) de 1901–1906 (artigo “Zealots”), uma publicação agora em domínio público.)
A pergunta dos fariseus não era “pegadinha”, era pura estratégia política. Ela tinha o objetivo de identificar Jesus como alguém que ele nunca foi: Partidário de um projeto político ou ideologia — exatamente o que os ancaps tentam fazer com Jesus hoje. Se Jesus fosse partidário político contra Roma, tinha mais serventia cooptá-lo para a causa nacionalista, do que matá-lo, visto que ele arrebanhava multidões. Se ele fosse simplesmente a favor do imposto, podiam pintá-lo como antinacionalista, e assim fazer seus compatriotas odiá-lo. Então quando Jesus perguntou de quem era o rosto impresso naquela moeda, estava realmente se certificando de que os próprios fariseus admitissem César como autoridade.
Ora, jesus não era um revolucionário político, ou alguém que veio pregar soluções de um governo humano, não importa se haviam judeus descontentes tentando uma rebelião contra o estado e irrelevante o que os fariseus pensavam sobre o estado Romano, O FATO, é que cristo de forma irrefutável demonstrou que eles estavam sujeitos à autoridade de César, usando a moeda de César, e portanto deviam obediência à César. Jesus ainda afirmou que eles TAMBÉM deveriam estar sujeitos à autoridade de Deus. E assim fica bem claro o contra ponto entre a autoridade humana (decadente) e autoridade divina (restauradora), as quais os fariseus não queriam obedecer nenhuma — típico de anarquistas.
“Ah mas isso quer dizer que jesus era favor do estado romano, e que este cobrasse altos e injustos impostos?”
Obviamente não. Mas vamos aprofundar esse assunto em um próximo artigo expondo mais uma técnica usada por muitos anarco capitalistas.
메타데이터
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