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Sobre a Esperança

Como a esquerda pode voltar a vencer contra o medo

Henrique França · 2025-06-25 17:50 · 0 claps · 4.2 min read
#progressive #progressismo #esquerda-progressista #zohran-mamdani #europa
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Sobre a Esperança

Eram cinco da manhã em Lisboa quando o agora candidato oficial do Partido Democrata à câmara municipal de Nova Iorque anunciava a vitória nas primárias — e consequente derrota do candidato Andrew Cuomo, face do establishment mais centrista dos Democratas. Não me poupando em elogios ao candidato, pois entendo que os merece, Zohran Mamdani fez mais do que ganhar uma eleição interna ( e em breve, espero, a eleição para Mayor ).

O que este jovem fez foi mostrar que o caminho progressista sai vitorioso quando volta à sua base — a defesa de um bairro, uma cidade, um país e um mundo colaborativo, comunitário e próximo das pessoas.

Creio que não é propriamente um segredo ou desconhecimento dos meus pares progressistas que os caminhos que preconizamos têm sido esquecidos ou ignorados perante o surgimento dos facilitismos e simplismos simplórios que a direita radicalizada e a extrema-direita oferecem há já um bom par de anos para cá. Fruto do neoliberalismo, andamos todos cansados e com razão para isso. Cada vez mais sentimos que os nossos salários e qualidade de vida não fazem frente aos custos absurdos que hoje representa a vida na cidade ou numa área metropolitana como Lisboa, Londres, Paris, Nova Iorque, entre tantas outras — sendo que a maioria da população trabalha nessas cidades e passa 90% do seu tempo nelas.

Ora, poderia perder tempo e gastar caracteres preciosos a criticar o neoliberalismo — e certamente fá-lo-ei, mas não agora, porque surge, do outro lado do Atlântico, uma brisa fresca de esperança e uma promessa que deveria colocar os Democratas nos States bem como a esquerda e os progressistas na Europa a chegar a conclusões que, entendo, são interessantes.

A primeira conclusão é de que o multiculturalismo está longe de estar morto, como tantos gostam de pregar por aí.

Quando vemos a vaga de racismo e xenofobia que alimenta o discurso político das forças populistas, seja pela boca de Trump, JD Vance e o seu séquito de seguidores, seja pelos Europeus vários que se insurgiram contra o inimigo estrangeiro, torna-se particularmente interessante e estimulante ver um jovem islâmico, nascido no Uganda, ganhar uma nomeação para a câmara municipal de uma das maiores e mais conhecidas cidades no mundo. Certo é que o caminho ainda está longe de terminado, mas uma vitória efetiva de Mamdani contra o nomeado Republicano seria um estrondoso grito contra aqueles que dizem que é impossível uma cidade e um país se manterem fiéis a si e aos seus valores fundacionais sob um mundo global e multicultural. Não só é possível, como podemos mesmo vir a assistir ao primeiro Mayor de uma cidade Norte-Americana de origem islâmica a vencer as eleições locais sem que os valores da liberdade, a vida e a procura da felicidade fossem assassinadas pelo caminho… pelo menos por ele. A administração Trump já não se pode gabar de não o ter feito.

A segunda é de que o progresso e uma sociedade mais justa, fraterna e igual não vence eleições.

Mamdani construiu uma plataforma progressista, apoiada por Bernie e Alexandria Ocasio Cortez, defensora de propostas como o congelamento de rendas, childcare for all, rede de supermercados municipais detidos pelo Estado e transportes públicos gratuitos e mais rápidos; ao mesmo tempo que promovia o aumento de 1% ou 2% de impostos sobre os mais ricos da cidade. O mote é: o topo contribui para o bem comum daqueles que menos tem. Nada mais justo numa vida coletiva que vivemos em sociedade.

Tendo por certo que estamos a falar de eleições locais ( o que deveria servir de exemplo para a esquerda portuguesa com as autárquicas que aí se aproximam ), as eleições nacionais deveriam também focar o essencial da mensagem que acima referi e que acabou por guiar Mamdani à vitória contra aqueles que representam décadas de poder centrista Democrata — foco no que são os problemas das pessoas da base trabalhadora. Como é que vamos combater as rendas elevadas, o custo das compras que só aumenta. Por outras palavras, como é que vamos conseguir garantir que as pessoas mantêm o seu teto e comida sobre a mesa, sem os senhorios sacarem uma boa parte do salário das pessoas ( sem que isso se reflita na melhoria das condições de habitação ), ou como é que vamos fazer para não deixar um rim no supermercado cada vez que tenho de fazer compras para a minha família? Como é que eu vou conseguir ir trabalhar sem que para isso tenha de largar 40 euros a cada 15 dias em gasolina? Mamdani conseguiu dentro dos Democratas fazer valor eleitoral dessas propostas de uma forma tão genial que ultrapassou as fronteiras e invadiu o telemóvel e o imaginário mais positivista dos Europeus. E cá deveríamos conseguir devolver o sonho de esperança a cada um daqueles que só vê o fascismo maquilhado como alternativa. O que me leva ao terceiro ponto.

A terceira, para os mais derrotistas, e final é de que só resta a cada um de nós esperar que o tempo do extremismo Direitista a galope nos seus puro sangue termine sem dar grande luta.

Nada mais errado, nada mais inconsequente.

O que em Nova Iorque se demonstrou foi precisamente que quando nos juntamos todos, todos, todos, vencemos aqueles que semeiam o mal. Só derrotamos os herdeiros do ódio e do extremismo quando mostramos que o caminho que queremos seguir é o de ser capaz de olhar para quem está ao nosso lado, independentemente da sua etnia, sexualidade, género, nacionalidade, e nessa pessoa ver um vizinho, um amigo, um par da nossa comunidade mais local.

Uma vitória de Mamdani em Nova Iorque será uma vitória do progresso e do ideal de mundo que todos nós temos vindo a esquecer de alguma forma. E será daí que devemos partir da reflexão à ação e mostrar que à um movimento de bases, com as pessoas, com as nossas comunidades para restabelecer uma ordem que nunca devia ter sido esquecida: a de que todos ganhamos se trabalharmos uns com os outros, de que o capitalista serve àquele que lhe permite acumular o capital, de que juntos, do mais rico ao mais pobre, valemos mais do que cada um por si, de que há vitalidade e uma vida melhor já ao virar da esquina, se virarmos e de boa fé construirmos, sem dogmas, um futuro digno de esquerda.


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