O sal da vida
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O sal da vida
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Tantos anos se passaram e eu ainda o carregava no lado de dentro. Considerava-me vítima e não reconhecia a minha parcela de culpa, na separação. Sempre me julguei boa esposa e mãe dedicada; não merecia ter sido traída. Já tinha feito muita terapia, mas a lembrança dele ainda estava lá. Escondida em algum canto.
Neste ano, tive o privilégio de fazer um curso de Posicionamento Feminino e Comunicação Sistêmica, online, com uma mentora e um grupo de mulheres muito especiais. Era baseado no livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés, aliado à arteterapia. A linguagem, carregada de simbolismos, me emocionava bastante. Cada história trazia metáforas que me levavam à reflexão. Durante oito meses, degustei a primeira metade do livro (250 páginas).
Aos poucos, os cantos escuros da minha mente foram sendo visitados e arejados. A cada encontro quinzenal, as lanternas da consciência iam se acendendo. O suporte do grupo e a qualidade das aulas foram inigualáveis.
O clímax do curso foi, para mim, sem dúvida, o trabalho sobre o perdão. Desculpar alguém não é tão difícil. Mas vivenciar, intima e profundamente, o perdão foi a minha maior experiência em 2024. Várias luzes se acenderam no meu caminho, à medida que eu ia amadurecendo e refletindo sobre o casamento e a separação. Era como tomar banho de água benta salgada e me perfumar de lavanda depois. Quando consegui entender o meu quinhão de responsabilidade, no divórcio, foi doloroso como uma punhalada. Porém, eficaz como um bálsamo.
O que aconteceu muitos anos depois provou que eu ainda estava traumatizada. O alvo do meu desgosto passou a ser, então, o homem “da vez”, que estava mais próximo de mim: meu genro. Acabei direcionando a ele toda a mágoa e frustração que ainda carregava. Considerava-o pouco carinhoso. Parecia que nem amava, suficientemente, minha filha, para fazê-la feliz. E o criticava, abertamente, a ela. Coitada! Durante anos, deve ter sofrido em silêncio, devido a minha atitude com ele. Eu também sofria. Muito!
Em junho de 2024, quando acabou o curso, eu chamei filha e genro para conversarmos. Um diálogo que eu havia protelado por anos e anos! Expliquei-lhes que havia feito um curso maravilhoso sobre comunicação sistêmica, cujo foco era nos abrirmos para o outro e falarmos com delicadeza, sem agressão, tudo o que nos incomodava. Falei que estava vivenciando o perdão ao meu ex-marido, em seu pleno significado. Pedi ao genro, então, perdão pelos meus momentos de agressividade em relação a ele e expliquei que, na verdade, o problema era meu: eu nunca tinha perdoado o ex-marido pela traição. E havia transferido ao genro toda a minha frustração. Este respondeu que já tinha me perdoado havia muito tempo. Depois, de umas duas horas de um diálogo bastante profundo e maduro, houve a redenção pelas lágrimas.
Essa foi a minha experiência mais tocante neste ano. O sal das lágrimas deu um sabor extra na minha vida, afastando a energia negativa. Deixei o perdão limpar as paredes riscadas de mágoa e plantei novos sonhos no lugar. Minha casa interna voltou à paz.
Zuleica Águeda Ferrari. Comunidade da Escrita Afetuosa. Profª Ana Holanda — @anaholandaoficial. Escreva, com emoção, sobre o que de mais profundo aconteceu a você neste ano. (16/12/24)
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