Os poemas de Leminski que me fizeram enxergar a vida sob outra perspectiva
A primeira vez que ouvi sobre Paulo Leminski, deveria estar no primeiro ano do ensino médio. Já a segunda, foi no meu trote da faculdade de…

Os poemas de Leminski que me fizeram enxergar a vida sob outra perspectiva
A primeira vez que ouvi sobre Paulo Leminski, deveria estar no primeiro ano do ensino médio. Já a segunda, foi no meu trote da faculdade de Letras, quando uma veterana, visivelmente embriagada, declamou Contranarciso na festa de recepção aos calouros que rolou entre os blocos A e B do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC.
A partir daí, minha vida foi outra.
Por este motivo, resolvi compartilhar alguns dos poemas que eu mais gosto do polaco, que me fizeram viajar, muitas vezes sem nem sair da cadeira.
Incenso fosse música
isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além
Em apenas cinco versos, escritos com uma linguagem leve e cotidiana, Leminski desafia quem o lê a explorar as profundezas de si mesmo, transformando o cotidiano em poesia reflexiva.
E sim, os versos acima talvez sejam os mais conhecidos e celebrados do Polacolocopaca. Publicado no livro Distraídos venceremos, o poema Incenso fosse música tornou-se uma espécie de cartão postal de sua obra.
Repara bem no que não digo
O Poder do Não-Dito. Não atoa que esta foi minha primeira tatuagem. Em tempos de uma sociedade cada vez mais líquida, o não dizer é mais eloquente que o discurso explícito.
Para pessoas introspectivas como eu, o silêncio, pode ser um espaço cheio de significado e significância. Esta frase lancinante está presente em Catatau, de 1975.
Contranarciso
Em mim eu vejo o outro e outro enfim dezenas trens passando vagões cheios de gente centenas
o outro que há em mim é você você e você
assim como eu estou em você eu estou nele em nós e só quando estamos em nós estamos em paz mesmo que estejamos a sós
Com uma linguagem coloquial e uma estrutura simples, o que me fascina nestas palavras é a mescla de identidades e a estranha inquietação de não sermos únicos e fechados em nós mesmos.
Ao contrário da simbiose, Leminski me faz lembrar muito sobre a individualidade e sobre a fusão com o outro. É uma dicotomia que me encanta.
Ele aparece por primeira vez no livro Caprichos e Relaxos, em 1983.
[embed]Arnaldo Antunes declamando é incrível!
Já disse
Já disse de nós.
Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora, eu que já disse nunca.
Todo mundo sabe, eu já disse muito.
Tenho a impressão que já disse tudo.
E tudo foi tão de repente…
A estrutura enxuta do poema Já disse, dialoga com a estética minimalista de Leminski, onde poucas palavras carregam grande peso emocional.
Mas o que pega pra mim é a frase “eu que já disse nunca”. É sobre negar e afirmar, seguindo um pouco a linha do que eu absorvo toda vez que leio ao polaco.
—
Leveza, reflexão e uma fusão entre o cotidiano, o banal e o erudito. Leminski, através do minimalismo das palavras, carrega um mundo pessoal de sentidos e sentimentos que despertam um universo em cada um de nós.
É o que uma vez uma pessoa me disse: Leminski é a sensibilidade do instante. Do agora. É sentir algo inesperado no acaso.
메타데이터
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