A viagem amazônica
Reflexões humanas geradas de uma expedição técnica pelo Rio Negro de cinco dias à uma comunidade ribeirinha do Amazonas
A viagem amazônica
Reflexões humanas geradas de uma expedição técnica pelo Rio Negro de cinco dias à uma comunidade ribeirinha do Amazonas
Contemplava a paisagem enquanto estava no carro com destino a Novo Airão, a três horas de distância da capital do Amazonas, Manaus. A cidade é conhecida pelos luxuosos hotéis de selva, o turismo de base comunitária e o flutuante que promove um encontro com o boto cor de rosa.
Minha passagem pela cidade é rápida. No dia seguinte após minha chegada, embarquei com uma equipe de servidores de diversos órgãos em um barco de dois andares a convite do ICMBio, que seria a nossa casa por 5 noites. Cada servidor estava ali para representar a sua instituição nas reuniões de conselho consultivo do Parque Nacional do Jaú e Reserva Extrativista Rio Unini. Como chefe de Departamento de Produtos e Projetos da Empresa Estadual de Turismo do Amazonas, minha função era contribuir com o diálogo nas discussões relativas ao turismo, esclarecer como a empresa poderia ajudar as comunidades a se prepararem para receber visitantes e usufruir dessa atividade de forma responsável.
Foi a primeira vez que viajei de barco pelo Rio Negro, uma autêntica experiência amazônica. Três banheiros eram compartilhados por cerca de 20 homens e mulheres, assim como duas pias e todo o segundo andar, que virou o nosso quarto. As redes bem juntas umas das outras não me permitiam exigir privacidade. Por cinco noites, como uma grande família, iríamos comer e dormir juntos. Assim, teve início nossa viagem.

Apreciei a paisagem do rio Negro sem querer tirar fotos, pois me satisfazia só assistir. Tínhamos wi-fi disponível, mas a natureza ao meu redor me atraía mais que o celular. Também senti muito sono, talvez esse seja o efeito de observar a mata, sentir o balanço do rio e a brisa que soprava em nosso trajeto. Resumindo, dormi muito. Descansei o que minha rotina na cidade grande não permitia. As preocupações da vida pareciam muito distantes, e eu não tinha pressa. Acho que esse é o efeito de qualquer viagem a férias, mas eu não estava de férias.
Nossos dias de navegação eram ventilados e calmos, e a paisagem se diferenciava de cada lado do barco: de um lado a mata, e do outro o rio. Navegávamos devagar, então o ruído do motor era monótono e constante. Além das três refeições, era nos servido um lanche no fim da tarde, e quando vinha uma chuva leve éramos agraciados com um ou dois arco-íris distantes. O pôr-do-sol encerrava o cenário como uma pintura laranja e amarela. De noite, a imensidão negra ocupava o céu, salpicado por estrelas prateadas como glitter. A lua era uma atração à parte quando seu brilho se refletia no rio, tal como era descrito nas lendas indígenas, quando a noite era encantada.


A reunião dos dois conselhos ocorreu na comunidade Apéua, localizada entre Novo Airão e Barcelos. Observei a Amazônia se tornar mais viva, ganhando vozes, rostos e sorrisos tímidos. Acompanhando a chegada dos barcos dos ribeirinhos, cheguei à conclusão que aquela era a cena mais amazônica que já tinha visto.
Homens, mulheres e cães caramelos aguardavam o nosso grupo no centro comunitário, curiosos e um pouco ansiosos com a nossa visita. Da comunidade, observei uma paisagem impressionante. Parecia ser extraordinário sair de casa e pisar direto na grama e contemplar o rio todas as manhãs, como se não vivêssemos no mesmo Amazonas.

Enquanto o meu grupo se acomodava, notei a diferença de nossas vestimentas. Usávamos jeans e tênis, e nossos anfitriões nos recebiam com roupas leves, de bermudas e chinelos, pareciam saber mais que a gente. Enquanto bebericava o meu café, ouvia a conversa de parentes se encontrando, histórias de conflitos entre vizinhos, parecia uma grande reunião de condomínio, exceto que os prédios nesse caso eram comunidades.
As reuniões de conselho levavam o dia todo, durante dois dias, com pautas bem definidas relacionadas ao manejo sustentável da fauna e flora, diferentes solicitações de apoio técnico em pesquisas e suporte em iniciativas de bioeconomia. Uma grande integração de órgãos ambientais de diferentes esferas, institutos de proteção ambiental e organizações sustentáveis sem fins lucrativos assessoram as comunidades ribeirinhas de longe e de perto, ocasionalmente.

Observando aquela realidade, compreendi que a abundância e a careza coexistiam, dependendo da perspectiva do seu olhar. Suas casas eram simples, o ar era puro e a floresta era bem do lado, de onde se tirava frutas e castanhas com facilidade. Algumas famílias precisavam de atendimento médico, um poço novo e estrutura pra comunidade. A vida não é fácil para os povos da floresta, por isso a resistência e perseverança daquelas pessoas precisa ser diária.
Ao fim da viagem, pude confirmar que estruturar o turismo de base comunitária é muito mais do que planejo na mesa do meu escritório. É escuta, aprendizado e troca de saberes. Às vezes o turismo não ocupa um lugar de prioridade em uma comunidade, e tudo bem. Afinal, a assistência humanitária aos povos da floresta é a base que mantém o principal atrativo do Amazonas em pé.

메타데이터
- post_id
- 910c252c7802
- slug
- a-viagem-amazônica-910c252c7802
- url
- https://medium.com/@raissatavares/a-viagem-amaz%C3%B4nica-910c252c7802
- canonical_url
- https://medium.com/@raissatavares/a-viagem-amaz%C3%B4nica-910c252c7802
- author_url
- https://medium.com/@raissatavares
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-26 21:52:29