Mais remédio do que veneno: entre o jogo e a luta
Mesmo quando a desesperança nos toma, Vinícius nos inspira a seguir lutando — e sem perder o baile.
Mais remédio do que veneno: entre o jogo e a luta
Quando as linhas clamam por novas letras, nem sempre o fazem com alegria. Essa é uma das vezes em que, movido mais pela angústia, recorro às palavras para despejar um pouco do que sinto e penso — ainda que fale de uma dor que não é minha. Contudo, por mais que não a sinta, os requisitos para ser solidário com uma vítima de racismo não são muitos além de uma gota de humanidade. O crime cometido na noite de ontem por Gianluca Prestianni trouxe, aos poucos, uma mistura de revolta, inconformismo e ceticismo com o esporte que tanto amo e com o mundo no qual vivo.
Não é intuito deste texto revisitar as condições históricas nas quais o racismo se desenvolveu e se engendrou nas estruturais sociais, sobretudo as ocidentais. No entanto, é impossível negligenciar que o futebol, de nenhum modo alheio ao mundo em que é praticado, naturalmente reflete e reproduz os preconceitos que existem nessas estruturas, assim como respostas a esses preconceitos. Ele é, na verdade, um perfeito microcosmo do que é o “mundo exterior”: um campo de disputas — também — ideológicas.
Tudo isso para dizer que esse episódio tem muito de lamentável e pouco de surpreendente, assim como as posturas que o sucederam. Entristece, mas não espanta ninguém que o argentino Prestianni tenha chamado covardemente — pelo crime e por ter encoberto a boca — Vinicius Júnior de macaco por repetidas vezes. Entristece, mas não espanta ninguém que a punição do agressor, jogador medíocre, tenha sido uma salva de palmas quando foi substituído. Entristece, mas não espanta que José Mourinho tenha pensado primeiro em culpar Vinícius pela provocação (sim, Mourinho reclamando de provocação) antes de considerar o crime de seu atleta. Por fim, entristece, mas não espanta ninguém a conivência vocal do Benfica e a conivência silenciosa do Real Madrid com esse episódio. Até a publicação desse texto, mais de 24 horas após os fatos, o clube de Vinícius não postou sequer uma nota oficial de apoio ao atleta. Já o Benfica? Nem seis horas depois, já havia publicado um vídeo relativizando as acusações e defendendo seu jogador.
O que ameniza esse mar de lamentos são os ventos que sopram das declarações de Kylian Mbappé. As assertivas, solidárias e firmes palavras dedicadas pelo francês ao episódio representam, junto com a postura corajosa de Vinícius, a única via para um futuro melhor: o enfrentamento. Bem resumiu Emicida quando entitulou uma música de “a coisa mais esperançosa e dilacerante são a mesma”. Não houve e não haverá nunca avanço social conquistado quando se cala e consente; os espaços conquistados são sempre fruto de luta e no futebol não é diferente. Por isso, não há que se recriminar as denúncias, os bailes ou os dribles de Vini. Essas são formas distintas que, combinadas, trazem o esporte ao centro do debate racial, permitindo que os avanços acima citados se produzam dentro de campo e se expandam para fora dele.
Em resumo: as denúncias? Há que investigar. Os bailes? Há que comemorar. Os dribles? Há que admirar. Simples assim.
Ainda restam muitas discussões a se fazer como, por exemplo, a viabilidade da manutenção de Vinícius no Madrid ante a vacilante postura institucional, a (falta de) eficiência do protocolo antirracismo, o quão reais podem ser as punições produzidas por uma FIFA comandada por capachos de Donald Trump… Mas estas linhas se reservam ao direito de revolta com Prestianni, com a torcida e com os representantes do Benfica e de admiração com Vinícius e Kylian, sobretudo.
Tomando emprestada a analogia de José Miguel Wisnik, advinda de outro contexto, acredito sinceramente que o futebol, a partir das suas diferentes apropriações, está fadado à ambiguidade de ser veneno remédio da nossa sociedade: é sim ambiente de mazelas e de violências, mas também é espaço pedagógico para a tolerância e para a diversidade — sobretudo quando resistem os talentos rebeldes.
Baila, dribla, goleia, sorria, joga, Vinícius. Com você, somos todos melhores.

메타데이터
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