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Do Story para a História.

A palavra do momento, “performance”, parece ter virado um dos grandes assuntos da atualidade. Pessoas cada vez mais conscientes da forma…

Everton Leal · 2026-08-13 01:41 · 0 claps · 4.7 min read
#filosofia #internet #opinião #instagram #antropologia
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Do Story para a História.

A palavra do momento, “performance”, parece ter virado um dos grandes assuntos da atualidade. Pessoas cada vez mais conscientes da forma como são vistas pelos outros passam a cuidar da própria imagem, escolhendo o que mostrar, o que esconder e quais sinais querem transmitir sobre si mesmas. Cultura, dinheiro, relações, lugares que frequentam, pessoas com quem convivem. Tudo pode dizer alguma coisa sobre quem somos.

Mas, diferente do que pode parecer, isso não começou com o Instagram.

O ser humano sempre viveu em sociedade e, por isso, sempre se preocupou com a maneira como é percebido pelos outros. Ser reconhecido, pertencer a um grupo, demonstrar competência ou mostrar que ocupa determinado lugar dentro de uma sociedade não são comportamentos novos. O Instagram apenas levou essa lógica para outro nível.

Antes, grande parte da nossa imagem era construída nas relações do dia a dia. Na escola, no trabalho, em uma festa, em uma conversa ou em qualquer outro ambiente social. Hoje, podemos construir uma espécie de vitrine permanente de nós mesmos.

Escolhemos a foto, o ângulo, a legenda, quem pode ver, o que fica nos destaques e até o que desaparece depois de algumas horas. Podemos mostrar onde fomos, o que comemos, com quem estávamos, o que compramos, onde estudamos e quais pessoas fazem parte da nossa vida.

Por isso, não é estranho encontrar tantos destaques de viagens, restaurantes, festas, academias, universidades ou fotos ao lado de pessoas famosas. Esses conteúdos não servem apenas para registrar aquilo que fizemos. Eles também ajudam a contar aos outros quem somos, ou pelo menos quem queremos que eles pensem que somos.

E aqui existe uma diferença importante: performance não significa necessariamente mentira.

Uma pessoa pode realmente ter viajado, realmente gostar daquele restaurante e realmente conhecer aquela pessoa famosa. A questão é que, entre tudo aquilo que vivemos e tudo aquilo que mostramos, existe uma escolha.

É justamente nessa escolha que a performance começa a ganhar valor social.

Segundo o antropólogo Michel Alcoforado, em Coisa de Rico, o dinheiro, por si só, não garante o reconhecimento social da riqueza. Ser rico também envolve ser reconhecido como rico pelos outros. Como resume o próprio autor, “não basta ser, é preciso parecer”.

Em determinado momento do livro, Alcoforado relata uma situação envolvendo o atendimento em um restaurante frequentado pela elite. Segundo o relato, o tratamento oferecido ao cliente pode ser definido antes mesmo de ele se sentar à mesa, levando em consideração sinais como o carro e a roupa que utiliza. A justificativa seria evitar constrangimentos ao cliente.

O episódio mostra algo maior do que uma simples diferença de atendimento. Ele revela como determinados sinais podem ser utilizados para classificar pessoas antes mesmo que elas sejam conhecidas. Não se trata apenas de saber quanto alguém possui, mas de reconhecer, por meio de sinais, a posição que essa pessoa parece ocupar.

No Instagram, encontramos uma dinâmica que guarda uma semelhança importante com essa lógica. Ao analisar o perfil de alguém, podemos tentar definir se aquela pessoa pertence ou não ao nosso círculo social. De maneira quase grotesca, poderíamos reduzir essa avaliação a uma pergunta: essa pessoa está no meu “nível”?

Para quem vive em uma metrópole como São Paulo, cercado por diferentes grupos, bairros, profissões, universidades e padrões de consumo, esses sinais podem se tornar ainda mais visíveis.

É aqui que Pierre Bourdieu ajuda a entender o que está por trás dessa lógica. Em sua obra A Distinção, o sociólogo mostra que a posição social não é determinada apenas pelo dinheiro. Existem diferentes formas de capital que podem produzir ou reforçar posições dentro da sociedade, como o capital econômico, cultural e social.

Uma fotografia ao lado de uma pessoa famosa pode funcionar como um sinal de capital social, indicando acesso a determinadas relações. Fotos em lugares caros, carros e viagens podem comunicar capital econômico. Livros, universidades, referências culturais, cinema, música e determinadas formas de falar podem funcionar como sinais de capital cultural.

Esses recursos não possuem valor apenas por existirem. Eles ganham força quando são reconhecidos pelos outros. É nesse ponto que podemos falar em capital simbólico: aquilo que adquire valor social porque é percebido como legítimo, importante ou desejável.

No Instagram, esses diferentes sinais podem aparecer lado a lado. Uma única pessoa pode mostrar dinheiro, cultura, relações, viagens, profissão, corpo, estilo e lugares que frequenta. A plataforma transforma tudo isso em uma espécie de narrativa visual sobre quem aquela pessoa é e, principalmente, sobre onde ela parece estar posicionada socialmente.

Quando servi durante meus anos obrigatórios no Exército, havia uma frase que eu ouvia incessantemente dos oficiais: “Não basta ser, temos que parecer”.

O militar não é julgado somente por sua conduta. Sua apresentação também comunica disciplina: a barba, o coturno, o fardamento, a postura e a maneira de se conduzir. Aquilo que deveria ser uma qualidade interna precisa adquirir uma forma visível para ser reconhecido pelos outros.

Talvez seja justamente aí que exista uma conexão curiosa com aquilo que Bourdieu chama de habitus. Certas maneiras de falar, vestir, comer, circular e se comportar não são simplesmente compradas. Elas são aprendidas ao longo da vida e incorporadas de tal maneira que passam a parecer naturais.

Isso ajuda a entender uma diferença frequentemente percebida entre aquilo que hoje chamamos de “Old Money” e os chamados emergentes. O dinheiro pode comprar um carro, uma casa, uma roupa de grife ou uma mesa em determinado restaurante. Mas determinados códigos de comportamento não são adquiridos instantaneamente junto com esses objetos. Eles dependem de socialização, familiaridade e tempo.

Isso não significa que exista um “gosto refinado” naturalmente pertencente à elite. Significa que determinados grupos são socializados dentro de códigos que acabam sendo reconhecidos como refinados. O que parece natural muitas vezes é apenas aquilo que foi aprendido tão cedo que deixou de parecer aprendido.

Dentro do Exército, também existia uma representação quase caricatural dessa diferença. O militar era apresentado como alguém disciplinado, preparado e diferente do “paisano”, quase como uma versão superior do indivíduo comum. A aparência, nesse contexto, não era apenas estética. Ela fazia parte da construção da própria identidade militar.

Talvez seja por isso que a performance incomode tanto quando começamos a observá-la de perto. Ela não é simplesmente uma distorção da nossa época ou um movimento tóxico criado pela modernidade. Ela é uma característica muito mais antiga das relações humanas, agora potencializada pelas tecnologias que permitem registrar, editar, selecionar, publicar e medir aquilo que mostramos.

No Instagram, não precisamos apenas viver uma experiência. Podemos transformá-la em sinal. Uma viagem pode se tornar sinal de poder econômico. Uma amizade pode se tornar sinal de capital social. Um livro pode se tornar sinal de capital cultural. Um corpo pode se tornar sinal de disciplina. Um restaurante pode se tornar sinal de pertencimento.

E quando esses sinais começam a produzir reconhecimento, acesso e distinção, a performance deixa de ser apenas uma forma de expressão. Ela passa a ter valor.

Talvez seja esse o verdadeiro problema.

Não o fato de performarmos, mas o momento em que sentimos que não podemos mais deixar de performar.

Por isso, talvez a velha frase continue fazendo sentido: não basta ser, é preciso parecer.

Eu te entendo. Às vezes dá vontade de fugir de tudo isso.


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