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As Mãos do Escultor

Sérgio Gillet · 2021-09-18 11:45 · 1 claps · 4.2 min read
#textos #contos #escultor #pedra-sabão
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As Mãos do Escultor

Photo by Dries Augustyns on Unsplash

Photo by Dries Augustyns on Unsplash

Dizem que Michelangelo, ao terminar uma de suas esculturas, bradou-lhe: “Parla!”, como se a mimese executada tivesse sido tão perfeita, tão igual à natureza que tentava representar: o último toque seria falar, ganhar senciência, ser pessoa e daí mover-se… Porém, ainda não passava de algo estático, frio pelo material em que foi esculpido e a eternamente figurar um fugaz momento, capturado pelo hábil manuseio do cinzel e maceta sobre o mármore.

Um cliente havia contado a Estêvão essa anedota uma vez, tentando lhe impressionar por ser escultor assim como Michelangelo o fora. Na hora, Estêvão não pensou muito a respeito, apenas disse com um pouco de entusiasmo que deveria ser uma obra e tanto, portanto. Vendo que a conversa não ia muito longe, o cliente pagou-lhe logo pela escultura em pedra-sabão e se foi, ao que Estêvão continuou trabalhando com suas mãos calejadas na escultura seguinte, esculpindo um bonequinho em pedra-sabão.

Depois de um dia todo vendendo suas peças na feira de artesanato, chegou em casa e perguntou ao seu sobrinho se ele podia lhe fazer uma pesquisa no Google sobre Michelangelo, se a história era verdadeira, afinal. Com o resultado positivo, passou o resto da noite a pensar se alguma escultura sua seria digna de falar.

Os dias se passaram, a feira semanal ia acontecer de novo e lá estava Estêvão a exibir suas esculturas novamente. O mesmo cliente apareceu de novo. Disse que sua amiga havia adorado a escultura de uma borboleta, com todos os detalhes entalhados que faziam as asas parecerem tão reais, como se fosse tomar voo a qualquer momento.

Estêvão ficou contente com o fato e o cliente quis retribuir, comprando outra escultura, dessa vez de um gato. Ao pegar o dinheiro da mão do cliente, este viu o quão calejadas eram e comentou. Estêvão ficou envergonhado, amava o resultado de seu árduo trabalho entalhando a pedra-sabão até adquirir as formas que queria, mas suas mãos sofriam no processo, as ferramentas não eram gentis com sua tez e a força que aplicava as fazia ficarem terrivelmente ásperas e endurecidas. Mãos feias que faziam o belo, comentou o cliente. Estêvão corou ainda mais, mas o cliente já estava dando tchau.

Nos dias seguintes, entre afazeres domésticos, ficar de olho no sobrinho e trabalhar em suas esculturas, a mente de Estêvão ficava flutuando entre a anedota de Michelangelo e o elogio do cliente. Será que suas mãos tão enrudecidas pelo trabalho manual poderiam criar algo tão belo como Michelangelo fizera a ponto de lhe bradar “Fala!”? Sem perceber, Estêvão havia pensado alto e o bonequinho que tinha acabo de esculpir naquele instante respondeu: “O quê?”, colocando a mão no queixo e fazendo expressão de curiosidade.

Estêvão quase cai da cadeira de tão estupefato que ficou. O bonequinho continuou, agora com as mãos na cintura: “Vamos, o que é para eu falar? Não ganhei vida à toa! Se me deste um propósito, pelo menos que o seja fácil de executar. Mal ganhei vida e meu criador já me maltrata. Sou senciente, tenho algum direito de não…”, e pôs-se a tagarelar o bonequinho, enquanto Estêvão estava ouvindo incrédulo à sua obra gesticulando e esperneando sobre sua existência.

Eventualmente, Estêvão e o bonequinho se entenderam. Este escolheu o nome de Pedro para si, considerando sua composição. Estêvão podia lhe chamar de Pedrinho, já que era seu criador e estavam virando amigos. Assim, foram se conhecendo melhor: Pedrinho ficava vendo e dando pitacos no trabalho de Estêvão, que não se sentia mais tão sozinho com seu novo amigo de pedra.

Mais uma vez o dia da feira semanal chegou e aquele cliente apareceu de novo, dessa vez incrivelmente entusiasmado em ter encontrado Estêvão novamente, pois havia uma novidade para lhe contar: pensando na anedota de Michelangelo, brincou para a escultura de gato que havia comprado de si e bradou “Mia!”, ao que o gato de pedra-sabão prontamente se espreguiçou, olhou profundamente em seus olhos e miou, como se fosse um gato de verdade, como se sempre tivesse sido o gato de estimação dele.

Estêvão ficou maravilhado com a história. Pegou um pequeno baú de madeira debaixo da bancada, pôs sobre esta e pediu ao cliente que não fizesse escândalo com o que ia mostrar. Colocando algumas esculturas por perto para ocultarem a visão, abriu o baú e Pedrinho acenou para o cliente. Perplexo que ficou, acenou de volta e se voltou para Estêvão, encantado que o mesmo havia acontecido com o escultor. Combinaram que após o término da feira, Estêvão passaria no apartamento do cliente que ficava a uma quadra dali para que pudesse ver o gato de pedra-sabão se comportando como tal.

Em frente ao prédio, Estêvão chamou por Caio pelo interfone, o nome do cliente, que lhe permitiu a entrada. Assim que entrou, deparou-se com o olhar sério do gato pétreo, que logo veio para perto e pôs-se a ronronar enquanto se esfregava nas pernas de Estêvão.

Caio e Estêvão ficaram por um bom tempo confabulando sobre como tudo aquilo poderia ter acontecido. Será que a borboleta pétrea da amiga voa se assim lhe ordenar? Será que as mãos calejadas de Estêvão têm esse poder? Será que algo maior fez Caio contar a anedota a Estêvão e assim criou algo mágico?

Também falaram de outras coisas… Estêvão ficava acariciando o gato frio, agora de nome Cinzento, em seu colo, mas estranhamente macio, enquanto Caio admirava como Pedrinho conseguia se mexer e se expressar mesmo sendo feito de pedra-sabão.

Perderam-se na hora de tanto que iam se conhecendo, descobrindo pontos em comum, Estêvão falando do seu ofício, Caio falando de seus estudos durante o mestrado em história da arte. Era como se tivessem tanto a trocarem em experiência e conhecimento. Quando deram pela hora tardia, Caio, sem pensar, pediu que Estêvão ficasse aquela noite, e este, sem pensar, disse que ficaria por aquela noite também. Desde então, com a magia que havia surgido das esculturas de Estêvão, este ficou junto de Caio por todas as noites, na companhia de Cinzento e Pedrinho.

Esse texto fez parte de um desafio que um saudoso amigo e eu fizemos entre nós, a consistir na feitura de uma obra artística baseada em constelações; naquelas baseadas em pessoas, escolhi a de escultor, e a forma artística que eu escolhi foi a de um conto.


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