Carta aos que alcançaram o alvo
Nossa vida é regida por algumas metas, às vezes subjetivas, de modo que nem sempre são intencionais ou planejadas, apenas estão ali, em…
Carta aos que alcançaram o alvo
Nossa vida é regida por algumas metas, às vezes subjetivas, de modo que nem sempre são intencionais ou planejadas, apenas estão ali, em nossos corações. Dando impulso aos nossos passos, dando vislumbre para o nosso futuro. São esses sonhos que alimentam a esperança, são esses alvos que alimentam a nossa fé.
A relação com Deus muitas vezes se dá nesse contexto de desejo, seja ele por salvação, seja por um milagre. Jesus lidou muito com isso quando atraía as multidões com seus sinais e percebia que poucos ali estavam dispostos a se relacionar com ele. De modo que foi endurecendo seu discurso ao longo do tempo e até questionando seus próprios discípulos se não queriam ir embora também.
Existe a fé que nasce a partir da autoconsciência. São pessoas que caem na real de que são pecadoras e precisam de um Salvador; quando o encontram, ficam com ele até seus últimos dias. Existe a fé que é movida pelo objetivo, gente que sonha em ser curada, por exemplo, e por isso busca em Deus essa resposta. O risco dessa segunda opção é QUANDO ALCANÇAM O ALVO.
Para algumas pessoas, alcançar o alvo é sinônimo de alegria constante e gratidão. Para essas, Cristo se revela também na realização. Mas, para algumas outras, o pódio representa um grande vazio existencial. Ou seja, o que fazer agora, se tudo o que eu sei é correr atrás deste prêmio? Nesse caso, ter é a bênção que se tornou maldição.
Já sabemos, irmãos, que a igreja é lugar de passagem para muitas pessoas. Já entendi que parte do meu ministério é acolher, tratar e enviar. Não quero ser dramático aqui, mas em outras ocasiões já aprendi que um bom pastor é um pastor desnecessário. Porém, a comunidade não é algo que tratamos assim.
ME DESCULPE SE A IGREJA TE MACHUCOU
Já vi essa frase acima algumas vezes, em cartazes levantados em manifestações, em portas de igrejas ou até em posts de rede social. Nos últimos anos, uma série de pessoas passou a se desculpar com a sociedade em nome da igreja. Eu acho isso importante, afinal de contas, a igreja, enquanto instituição, realmente feriu muita gente. Desprezou, descartou e até negou lugar à mesa para muitas pessoas. Pedir desculpas ao povo em nome da igreja é coisa de quem pertence a ela, porque, se você se enxerga de fora da história, suas palavras são sempre uma observação de que sim, a igreja tem culpa, mas essa culpa não é sua.
Em muitas cartas eu tenho reconhecido isso: que muitos de vocês vieram de lugares abusivos, desonestos e que produziram muitas marcas ruins. Traumatizaram alguns, inviabilizaram para sempre a fé comunitária de outros e assim foram deixando corpos pelo caminho.
Porém, dito isso, a pergunta que eu faço é: quem vai pedir desculpas por termos machucado a igreja? Já entendemos que uma instituição ou mesmo uma comunidade é capaz de produzir marcas negativas nas pessoas, mas precisamos nos ater ao fato de que existem pessoas capazes de fazer o mesmo com sua comunidade.
O fato de nos entendermos como lugar de passagem não diminui o impacto das palavras duras que recebemos, não diminui em nós o senso das injustiças cometidas ou das ingratidões severas. Aqui não estou, de forma alguma, pleiteando que nosso combustível seja a gratidão, mas não subestimem o poder de um abandono.
Veja, é muito comum ouvir relatos de gente que se sentiu abandonada pela comunidade, e isso é lamentável. Mas, de maneira muito mais recorrente, temos pessoas abandonando a comunidade, deixando na mão aqueles que chamamos de família. Eu não me refiro a quem se foi, porque, como eu disse, lugar de passagem também. Refiro-me aos órfãos de pai vivo, gente que está aqui, mas age como se não estivesse. Os motivos são muitos, de modo que nem compensa ouvi-los, porque muitas vezes são tão pequenos ou frágeis que a justificativa mais machuca do que produz recuperação.
Imaginem se eu, como pastor, passasse dois ou três meses sem aparecer na igreja, sem dar satisfação a ninguém. Certamente me chamariam de irresponsável. Não por conta do vínculo profissional apenas, mas porque, de alguma maneira, vocês acreditam que isso aqui é mais meu do que de vocês. Não como um ponto negativo de domínio ou controle, mas como um ponto positivo de isenção de responsabilidade.
Quando comecei aqui a falar sobre alvo e sonho, é porque acredito que muitos se achegaram à igreja com algum objetivo. Mesmo que esse objetivo não estivesse ligado à igreja, nós passamos a sonhar juntos, chorar juntos, sorrir juntos e vê-los partir quando o alcançam. Já vi gente chegar aqui em uma fase ruim de desemprego, orar por isso, pedir oração no grupo, pedir indicação de pessoas, ser auxiliada financeiramente pela igreja e, de repente, essa pessoa some. Dois meses sem aparecer. Antes eu me preocupava. Hoje já compreendo: deve ter conseguido o emprego que tanto queria.
De igual modo, vi gente sonhar em casar, casar e sumir. Gente sonhar em ter filhos, tendo limitações físicas para isso, ter seu filho e sumir. Gente que veio superar um luto, superá-lo e sumir. Lutar contra a depressão, vencê-la e sumir. Existem até os casos mais raros, como gente que buscava por comunidade mesmo, encontrou aqui e sumiu, levando consigo parte dessa comunidade junto.
RELAÇÃO VALE MAIS QUE O ALVO
Meu desejo para vocês, meus irmãos, é que encontrem relações que sejam mais valiosas do que as coisas, de modo que o encontro seja mais valioso do que a programação. Na mentalidade de consumo, vamos ao culto dependendo do tema ou do pregador, vamos aos encontros dependendo da dinâmica, vamos aos almoços dependendo dos convidados, lemos a carta dependendo do título. Mas, nas relações valiosas, fazemos tudo isso porque amamos a comunidade, de modo que às vezes somos contemplados com duplo benefício e, outras vezes, o melhor do dia será o fim da programação: a mesa com os irmãos.
Jesus tentou ensinar isso aos discípulos, exortando que a multidão o procurava somente pelo pão, mas ele era o Pão da Vida. Deus está interessado em se relacionar conosco, não em realizar nossa lista de desejos.
Se realizar teu sonho de ter um relacionamento amoroso é o que vai te afastar da fé, minha oração agora será contrária. Nessa mesma lógica, talvez muito do que você tem pedido ao Senhor não tenha sido alcançado justamente porque ele conhece seu coração. Valorizar as relações mais do que o alvo é amadurecer, é passar a viver contemplativamente o caminho, de modo que ainda temos o alvo em mente, mas sabemos que os companheiros que Deus nos deu nesta viagem não podem ser deixados para trás quando chegarmos lá.
Orem comigo assim:
Meu Deus e meu Pai Não me deixe idolatrar a chegada Que eu entenda por onde o caminho vai E valorize toda essa caminhada Eu quero a beleza das relações Mais do que o sonhado alvo E que, desta forma, minhas orações Me revelem o quanto sou salvo
Concluo esta carta reafirmando meu compromisso com vocês. Jamais minimizarei as dores que a igreja — de modo geral — lhes causou. Se necessário for, me desculpo também. Mas estas palavras aqui são para outra situação. Isto é para você refletir sobre sua ação em relação à comunidade.
Também esta carta não é para aqueles que se foram, nem uma ameaça a quem pretende ir. Entendo que tudo tem seu tempo debaixo do sol. Mas ela é para nós que ficamos. E, se ficamos, criemos raízes e estejamos aqui por inteiro. Pois o Evangelho nos pede um mergulho sem medo. Mais do que chegada, permanência. Mais do que alvo, raízes. Somente assim é possível construir relações.
Com amor, seu pastor.
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- 2026-06-28 04:42:08