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AHSOKA, A DECISÃO DE PARTIR, JOÃO MANÔ E A VIDA CRISTÃ

“Partiu, foi viver pr’além de si, desistiu de só existir, ei menina, Deus não dá ponto sem nós! Morreu pra tudo que queria ser e o que…

Giovanni Ximenes · 2023-09-15 13:00 · 58 claps · 8.5 min read
#star-wars #ahsoka #vida-cristã #partir #despedida
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AHSOKA, A DECISÃO DE PARTIR, JOÃO MANÔ E A VIDA CRISTÃ

“Partiu, foi viver pr’além de si, desistiu de só existir, ei menina, Deus não dá ponto sem nós! Morreu pra tudo que queria ser e o que ficou pra se dizer, na estação do tempo não se cansa de cantar…” — Arrê, Coletivo Candiero

*Esse texto contém spoilers do 20º episódio da 5ª temporada de Star Wars: The Clone Wars e leves spoilers de filmes da trilogia prequela da saga.

Ahsoka Tano é uma personagem de Star Wars muito querida pelos fãs da franquia que recentemente ganhou uma série solo no Disney+. Ela foi a primeira padawan (aprendiz) de Anakin Skywalker (que posteriormente SPOILER? se tornou Darth Vader, um dos maiores vilões da história do cinema/cultura pop). Ambos, desde a infância, faziam parte da Ordem Jedi, cavaleiros usuários do lado luminoso da Força (um campo de energia que se conecta com todos os seres vivos). Os Jedi eram os guardiões da paz e da justiça na galáxia (aquela tão, tão distante).

Assisti recentemente a animação The Clone Wars (período de guerra entre a República e os Separatistas, onde a personagem foi introduzida na saga), que se passa entre os filmes 2 e 3 da trilogia prequela, e um momento me marcou bastante e me levou às lágrimas, me fez refletir por dias sobre algumas questões importantes que envolvem a vida cristã, a decisão de partir, de se despedir de algo e… músicas de João Manô (cantor cristão paraibano que faz parte do Coletivo Candiero, grupo de artistas nordestinos).

Depois de muitas aventuras e missões, Ahsoka, que estava crescendo em seu treinamento e desenvolvendo habilidades de liderança (chegou a ser comandante de soldados clones pelos quais tinha grande apreço), foi acusada injustamente de um crime, onde a punição foi sua expulsão da Ordem Jedi, mesmo afirmando ser inocente constantemente. Durante o ocorrido, seu mestre, que sempre acreditou nela, depois de buscar incansavelmente a verdade, descobriu a real culpada: uma amiga dela que estava revoltada com a forma como os jedi e o Senado estavam lidando com a guerra e acabou sucumbindo ao lado sombrio da Força, que é seguido pelos Sith. Eles estavam infiltrados na República através da figura do Supremo Chanceler, manipulando secretamente os dois lados da guerra, e que pouco tempo depois ocasionariam a queda da República e da Ordem Jedi.

Diante da sentença equivocada, o Conselho Jedi pede perdão a Ahsoka pelo modo como lidou com ela e a convida para retomar sua posição. Ela porém recusa, pois eles não confiaram na palavra dela quando mais precisou deles. Mas isso foi apenas a gota d’água, pois ela já vinha notando sinais do desvio deles. E eles sabiam que estavam no mínimo usando métodos duvidosos, mas em sua arrogância, se recusaram a fazer algo para mudar e voltar aos princípios e propósitos fundamentais, tentando se justificar pelo fato de que precisavam se adaptar aos tempos atuais, porém estavam perdendo a própria essência no processo.

“Já viu? Quem se cercou de si, estagnou, fugiu, deixou de tentar evoluir. Já viu? Quem foge da diversidade fabrica as suas verdades e não vai admitir. Já viu? Quem dos campos abriu mão, distanciou demais do conceito de cristão.” — O Rei da Cocada Preta, João Manô

Mesmo com a tentativa de Anakin de tentar convencê-la a não ir embora, ela decide partir. Decide romper com algo que significou praticamente tudo para ela durante a maior parte da sua vida. Ela precisou tomar essa decisão, pois não se via mais como pertencente àquele meio onde havia aprendido preceitos tão valiosos, mas que havia perdido o foco. Estavam cegos.

Em uma cena belíssima e dolorosa, um pôr-do-sol mesclado com nuvens densas e cinzentas, ao som de uma trilha profunda e melancólica, Ahsoka caminha para longe, rumo ao horizonte (“desvendar meu lugar no horizonte…” trecho da música ‘Maturidade’ de João Manô) e se despede de seu mestre e amigo, que até entendeu a sua decisão e não insistiu mais, ele só podia lamentar agora. Ela precisava partir para conseguir seguir em frente, precisava voltar às origens daqueles ensinamentos tão importantes, precisava trilhar o seu próprio caminho e rever atitudes e conceitos em prol da manutenção da verdade. Ela precisou escolher partir pois era a única escolha possível naquele momento.

“Deixei tudo que eu juntei, eu não me vejo mais aqui, mas guardarei a fé até o fim, vou ver, enfim, o meu lugar.” — Além Mar/Ripchip, João Manô

Na vida cristã, muitas vezes acontece algo parecido conosco. Nos deparamos com momentos em nossas vidas onde precisamos parar e rever conceitos e, às vezes, precisaremos tomar a decisão de partir, de nos despedir. Precisaremos romper com algo para que voltemos a viver. Dois “algos” me vieram a mente. O primeiro seria o romper com ensinamentos de homens (Mt 15:9) que não condizem com a realidade da mensagem que vemos nas páginas das Sagradas Escrituras. Em alguns casos, será preciso romper até com organizações e pessoas, falsos profetas e falsas igrejas que alegam ser detentoras e propagadoras do Evangelho, mas que transmitem ensinos que vão de encontro ao que Cristo nos entregou, colocando cargas pesadas e desnecessárias que deturpam Suas palavras (Mt 23:4–5).

“Estão tentando nos fazer pensar que por nossas boas obras chegaremos ao céu, estão tentando nos convencer que por nossa força braçal abriremos os portões. Estão perdidos e cegos ao dizer que tudo que Deus tem pra você é condição. Seja considerado tolo todo aquele que disser: Paz! Paz! Sem que haja paz! Seja considerado justo Todo aquele que disser: Cruz! Cruz! Sem que haja cruz!” — Tese 95 , João Manô

O amadurecimento espiritual e a busca por santidade nos levam a pensar cada vez mais como nosso Cristo, e quando isso ocorre, quando a chave vai girando, vamos percebendo fardos desnecessários dos quais precisamos nos desvencilhar para que voltemos a ter o foco no que de fato importa. O amor a Ele e ao próximo são a base de tudo (Mt 22:37–40). Se não há amor antes de tudo, Deus não está ali. Se só há regras com fins nelas mesmas, se só há egoísmo e satisfação própria, Deus também não está. E sem Ele, estaremos perdidos para sempre.

“Preze pelo amor, pelos dias que da dor raiou contentamento. Liberdade da vaidade, a verdade vingando e a vida nascendo. Pare pra viver, escutar e amparar também o sofrer do outro. Todo alimento é sustento de alento pra alma e esperança para o corpo.” — Sem Tecidos, João Manô

O outro “algo” do qual precisamos nos despedir durante essa caminhada é daquilo que nos prende em nós mesmos e que nos afasta de um real e intenso relacionamento com o Salvador de nossas almas, sejam pecados de estimação (como o orgulho, a lascívia, a mentira, a falta de perdão, a idolatria), sejam planos e sonhos que temos para a vida, para o nosso futuro, mas que não nos cabem mais, pois divergem da vontade dEle pra nós.

“Cadê eu? Não sei, sumi pra volver, se viver é juntar, morri ao me despir de mim. Largar o fardo, me despedir de sentimentos que não me valem mais, atravessar, mudar, voltar atrás… pra me lavar do que tanto me prende aqui, meu Deus me bastará.” — Volver, João Manô

Esses dois tipos de despedidas são despedidas dolorosas. A primeira, por ser algo que achávamos ser o ideal por tanto tempo, achávamos ser o modo correto de agir quase desde sempre (assim como Ahsoka que foi trinada como um soldado por conta da guerra), algo que já está impregnado em nós, o legalismo disfarçado de zelo. A segunda, por ser algo que considerávamos normal/natural ou ideais que buscávamos e que achávamos que nossa vida só teria sentido se seguíssemos por determinados caminhos, bons aos nossos próprios olhos mas que ao fim nos levariam à queda e à destruição completa (Pv 14:12). Mas Deus é um ‘Deus que destrói sonhos’ (título do excelente livro do Rodrigo Bibo), e quando o faz, sempre é para o nosso bem, mesmo que seja só lá na frente, no porvir.

Ahsoka precisou abrir mão de muita coisa pra se manter sã e coerente com o que acreditava e isso a fez amadurecer ainda mais e a moldou para ser alguém que fez a diferença lá fora (ajudou a fundar e fortalecer células rebeldes contra a ditadura Imperial, no futuro). Ela fez o que foi preciso para não chegar ao ponto de se corromper e acabou se tornando mais jedi do que muitos dos que carregavam o título naquele tempo. Título esse que inclusive ela não queria pra si, mas que acabava sendo reconhecida como tal pelo povo, como um jedi deveria ser de fato. Para preservar o que era mais importante, ela precisou renunciar uma posição privilegiada, amigos, toda uma vida que já estava acostumada. Sua decisão resultou em sacrifícios, envolveu dor, sofrimento, solidão, renúncia, perdas.

“Acreditar no evangelho é ir e caminhar seguro, até sozim…” — Até Sozim, Marco Telles e João Manô

A jornada cristã nos mostra que ainda existe uma cruz pra carregar (Lc 9:23). Nesta terra, ainda precisamos ser participantes com Cristo em seus sofrimentos. Precisamos renunciar tudo o que tira Cristo do trono de nossas vidas e nos coloca nele e do que distorce o Seu precioso e puro Evangelho, que traz a salvação. E tomar essa atitude diariamente, dói. Jesus deu o exemplo ao escolher se despedir de sua posição junto ao Pai de glória, mesmo que por um período pré-determinado, para se vestir como um de nós na sua encarnação e morrer, um processo altamente dolorido. Ele nos chama para uma vida de renúncias assim com Ele viveu (Fp 2:5–11) e a andar por um caminho apertado (Mt 7:13–14) onde carregamos um fardo leve (Mt 11:28–30), não pela ausência de sofrimento, lutas e dificuldades, mas porque Ele está junto a nós durante todo o processo, essa é a grande diferença.

“Se eu perder tudo que tenho aqui, me alegrarei, pois eu sei: Tenho a Ti, me prostro ao chão pra agradecer o Teu amor por mim, Tua graça sobre mim. Todos os dias minha beleza será o Senhor. Todos os dias minha riqueza será o Senhor. Todos os dias a minha glória será o Senhor, será o Senhor.” — Esperança/Perder, Marco Telles e João Manô

Um dia, todo esse sofrimento que vem com a escolha de nos despedir de si mesmos e de partir pra longe do que nos prendia, terá um fim e seremos finalmente exaltados juntamente com Ele, o Senhor de tudo, em Sua glória eterna, não pelos nossos méritos e esforços, mas pelo que Ele já fez e que nós somente participamos junto a Sua vitória sobre a morte e o pecado. Ahsoka partiu mas lá na frente foi útil e muito importante pra vida de muitos, ganhou amigos, uma verdadeira família.

“Eu sou um soldado veterano, e eu quero o meu lar, eu sou um soldado tão ferido e não quero mais lutar. Mas o amor, o amor, ele lança fora todos os meus dilemas, medos, dores. Reanimado a prosseguir, seguindo os passos que deixou. Jamais esquecerei o caminho que me trouxe até aqui, pois exultante e em brado guiou-me ao trono do meu salvador, onde as dores não existem E as lutas não mais me seguirão. Ele conquistou isso por mim, o Amor conquistou isso por mim.” — O Veterano, João Manô

Nos despedimos agora de muitas coisas, nesse tempo terreno e passageiro de nossas vidas, como Ahsoka fez, mas chegaremos lá onde Ele está agora, ressurreto, e vivermos plenamente com Ele e com todos os seus, para todo o sempre, sem sofrimento! Nos despedimos agora apenas para poder chegar no para sempre.

“Despeço apenas, pra dizer sim, para as mudanças que virão, pra tudo aquilo que não vi.

Despeço apenas pra afinar silêncios que inda hão em mim e sons que soam sem cessar.

Desconfortar, sair sem medo de me conhecer e no processo pôr tanto a perder, prum outro ser poder se alimentar.

Despeço apenas, pra abraçar a realidade que trouxer, a vida e o que mais vier.

Despeço apenas pra alinhar, e ser o que nasci pra ser, e ser o que Ele quiser…”

— Despeço pra chegar, João Manô.

**Playlist no Spotify com todas as músicas citadas no texto.*


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