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A crise da leitura masculina

Por Catarina Garcia Truiz, Júlia Rezende Vila Nova, Julia Yumi Ide, Maysa Gonçalves de Castro Sevaroli, Sofia Cavalaro Rodovalho e…

JOS1F Cásper 2026 · 2026-06-13 14:18 · 1 claps · 9.7 min read
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A crise da leitura masculina

Por Catarina Garcia Truiz, Júlia Rezende Vila Nova, Julia Yumi Ide, Maysa Gonçalves de Castro Sevaroli, Sofia Cavalaro Rodovalho e Valentina Almeida, alunas do JOS1F

Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

Por um mês, observamos os vagões do metrô de São Paulo. Nosso objetivo era analisar a frequência em que homens e mulheres eram vistos lendo em um espaço público de grande circulação. O resultado foi surpreendente, mas não incomum: dos 186 leitores vistos, apenas 34,4% eram homens.

Falar sobre leitura no Brasil já é, por si só, falar sobre um hábito que enfrenta muitos obstáculos. Mas, quando a história passa a ser a leitura entre homens, a narrativa ganha outra página: por que tantos meninos e jovens crescem afastados dos livros?

Realizamos uma pesquisa e a partir das respostas, foi possível perceber que essa distância não aparece do nada. Muitos homens disseram que não possuem o costume de ler. Enquanto isso, a maioria das mulheres respondeu que a leitura é um hábito frequente em suas vidas.

Mas talvez o problema não seja simplesmente “homens não gostam de ler”, mas sim a forma como os meninos são apresentados, ou não, ao universo da leitura. Se desde cedo eles não são estimulados a enxergar os livros como algo interessante, prazeroso ou até parte da própria identidade, é provável que esse hábito fique cada vez mais distante na vida adulta.

Homens e mulheres lendo nos vagões do metrô de São Paulo. Foto: Maysa Sevaroli

Homens e mulheres lendo nos vagões do metrô de São Paulo. Foto: Maysa Sevaroli

Da editora para a biblioteca

“Eu ganhei um prêmio e gastei meu prêmio inteirinho comprando livros que eu achava que podiam interessar aos homens.”

Quem conta é Sônia Zachetta, coordenadora da Feira do Livro de Porto Alegre e da Biblioteca Comunitária Sol e Lua. Seu trabalho envolve ajudar sua comunidade, de Cachoeirinha, no interior do Rio Grande do Sul, a se tornar mais leitora. Durante seu tempo como coordenadora da biblioteca, Sônia observa a diferença entre os leitores e as leitoras que entram no local.

“A gente fica quebrando a cabeça para ver o que a gente faz para os homens lerem mais. E quando chega um homem aqui e pega dois ou três livros, eu tiro foto e ponho nas redes sociais, de tão emocionada que eu fico.”

Homem com livro na mão na Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

Homem com livro na mão na Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

Segundo Patth Pachas, diretora comercial da editora Panda Books, é na primeira infância que o incentivo por parte dos pais cria um gosto pela leitura mais diversificada. Ela comenta que os gêneros mais procurados pelos meninos são gibis e mangás, além das clássicas histórias infantis, e que a leitura das meninas é tão variada quanto.

Mas, ao contrário das meninas, a construção desse hábito logo é deixada de lado durante a adolescência.

“Isso me intriga, porque elas leem tudo que eles leem e mais: leem filosofia, livro de poesia, elas gostam muito de romance, inclusive de clássico. Eles costumam ser incentivados a se envolver em hobbies ligados à competitividade, esportes e tecnologia, enquanto as mulheres recebem mais estímulo para atividades que envolvem imaginação e expressão emocional.”

O gráfico revela a relação entre o gênero dos alunos e estilos literários locados nos últimos 6 meses. Via: biblioteca da instituição de ensino Senac, em São Paulo.

O gráfico revela a relação entre o gênero dos alunos e estilos literários locados nos últimos 6 meses. Via: biblioteca da instituição de ensino Senac, em São Paulo.

A leitura de ficção se torna menos associada ao público masculino e os livros de autoajuda e empreendedorismo passam a ser os mais procurados pelos homens adultos, segundo revela a diretora comercial.

“Ler, numa sociedade, também é uma forma de posicionamento. E para os homens, que têm essa necessidade constante de se sentir superior a todos, principalmente a mulheres, mostrar que você usa do seu tempo livre para ler, mas especificamente para ler algo que está te ajudando a ser um ser humano melhor, é um sentimento de superioridade.” (@livresenhas, influcenciadora)

Estante de livros na Livraria Martins Fontes. Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

Estante de livros na Livraria Martins Fontes. Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

O fenômeno do BookTok e os novos leitores

“Sem a vulnerabilidade ler é uma coisa completamente vazia. É algo muito raso. A vulnerabilidade é justamente estar aberto a se expor emocionalmente.” (Tiago Valente (@otiagovalente), escritor e booktoker)

Desde 2018, Tiago cria conteúdo para as redes sociais sobre literatura LGBTQIA+ e jovem adulta, acumulando mais de 670 mil seguidores no TikTok. Ele compartilha que, hoje, 70% de seu público é composto por mulheres entre 18 e 24 anos.

“Era um público muito novo, tipo 13 anos, 14 anos, que entrava. E aí aos pouquinhos essas pessoas foram envelhecendo e eu também.”

Por ter pais donos de livraria, Tiago nasceu rodeado de livros, mas seu amor pela literatura começou com a saga Crepúsculo.

“Foi a primeira vez que eu fiz amigos por conta de livros. Eu era aquela criança gay que tinha muita dificuldade de fazer amizades na escola. Mas Crepúsculo me mostrou o poder dos livros e como podia ser um tempo legal ler essas histórias, podia me unir a pessoas de um jeito muito especial.”

Ele comenta sobre como a ficção demanda de quem lê uma mente aberta para que a leitura seja um exercício de vulnerabilidade e reflexão sobre os próprios sentimentos. Por essa razão, acredita que muitos homens evitam a literatura ficcional e optam por leituras mais racionais e consideradas “produtivas”, como livros de autoajuda.

“Fui ensinado todas essas coisas sobre reprimir sentimentos, e eu acho que isso está intrinsecamente ligado à forma como a gente consome arte e literatura.”

Autor do livro Espresso Fantasma, dos gêneros romance e mistério, ele vê isso se refletir nos seus próprios consumidores, que, em sua grande maioria, são mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIA+.

Jovens olhando mangás na Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

Jovens olhando mangás na Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista. Foto: Júlia Rezende

Para a também booktoker e publicitária Lívia Reginato (@livresenhas), muitos dos homens não veem os livros como opção de entretenimento. “Não é necessariamente que eles tenham algo contra, é o fato de que não é colocado para eles como uma opção.” Ela acredita que isso também está relacionado à ideia de que livros precisam ser produtivos e que eles devem trazer uma recompensa instantânea. Enquanto isso, a ficção torna a leitura um momento de diversão e relaxamento, o que faz com que muitas mulheres a tenham como hobby e, consequentemente, dentro do cenário patriarcal, esse gênero receba uma conotação negativa. Para Liv, isso está ligado à tendência da sociedade de considerar um problema tudo que a mulher vê como diversão.

“O que que esses livros de autoajuda ensinam? O que esses livros de não-ficção ensinam? Porque um livro de fantasia também é capaz de ensinar sobre empatia, sobre resiliência, sobre força, sobre várias coisas que muitas vezes é o que as pessoas buscam nesses livros de não-ficção.”

Lívia conta sobre a dificuldade de produzir conteúdo literário para o público masculino. Segundo ela, os livros “famosinhos” que interessam às mulheres na maioria das vezes não conquistam os homens.

“Quando um homem me pede indicação ou quando uma amiga quer indicar um livro para o namorado, sempre é uma indicação muito específica”, diz a influenciadora. Isso a fez desenvolver uma estratégia para atrair os possíveis leitores homens, na qual os livros que recomenda precisam ter muito estímulo, ação ou violência, como as distopias Jogos Vorazes, Battle Royale e Divergente. Segundo ela, são essas histórias mais lineares e diretas que interessam o público masculino, sem muitas nuances ou necessidade de sensibilidade.

Meninas olhando livros de romance na Livraria da Vila, Shopping Cidade São Paulo. Foto: Catarina Garcia

Meninas olhando livros de romance na Livraria da Vila, Shopping Cidade São Paulo. Foto: Catarina Garcia

Quando questionada sobre o possível aumento do interesse masculino em ler, Liv diz que esse movimento existia no começo da sua carreira como criadora de conteúdo. O canal @livresenhas nasceu em 2020, durante a pandemia da COVID-19, ao mesmo tempo em que o BookTok esteve em seu auge. Porém, nos últimos anos, o interesse do público masculino em ler diminuiu muito, assim como pontua Liv, que presenciou de perto essa queda:

“Eu acho que a gente teve uma pequena evolução em 2020 porque teve a pandemia e aí, presas em casa, muitas pessoas se tornaram mais abertas a isso. E homens sempre foram mais abertos à ficção científica e suspense, mas acho que eu observo uma decadência. Que a pandemia abriu uma porta muito legal e que essa porta está se fechando, na verdade. Principalmente porque a conversa sobre a sensibilidade dos homens está parecendo cada vez mais arisca, sabe?”

Como chegamos a essa situação?

Durante boa parte da história, a leitura esteve associada somente à formação intelectual das elites e ao acesso à educação formal, lugares dos quais as mulheres frequentemente eram excluídas. Enquanto homens eram incentivados a desenvolver atividades ligadas ao estudo e vida pública, muitas mulheres tinham pouco ou nenhum contato com a leitura e, quando tinham, eram obras “apropriadas” para o ambiente doméstico em que viviam. Assim, os hábitos de leitura eram moldados com base em expectativas sociais esperadas para cada gênero.

Mulher olhando estante de livros na Livraria da Vila, Avenida Paulista. Foto: Maysa Sevaroli

Mulher olhando estante de livros na Livraria da Vila, Avenida Paulista. Foto: Maysa Sevaroli

De início, homens eram a maioria em salas de aula, até o século XVIII a escolarização era distante do universo feminino. Porém, a partir do século XIX, mulheres começaram a ser inseridas no meio acadêmico, dominando parcialmente a alfabetização, que foi se ampliando com o passar dos anos. A utilização de pseudônimos masculinos ou nomes neutros se tornou comum para a publicação de livros escritos por mulheres, que aos poucos conquistaram espaço no meio literário. Liv comenta sobre o caso do livro A Vida Invisível de Addie LaRue, que, apesar de ter sido publicado em 2020, obrigou a autora, Victoria Schwab, a utilizar um pseudônimo, V. E. Schwab, para não ser reconhecida como uma mulher no mundo da fantasia literária.

Entre os séculos XIX e XX, a ideia da leitura romântica associada a mulheres foi consolidada; em contrapartida, homens passaram a ocupar ainda mais os nichos de esportes, finanças e ciências. Essa mudança se deve ao aumento da participação feminina nas escolas, universidades e no mercado editorial. Então, elas não eram mais vistas somente como consumidoras, mas também como colaboradoras: escritoras, tradutoras, professoras e pesquisadoras. Ainda sobre isso, Tiago Valente compartilha:

“99% do mercado editorial brasileiro é feminino, não quando se trata dos CEOs e dos donos das editoras, mas as pessoas que estão mexendo com os livros, editando e trabalhando. Meu livro inteiro foi feito por mulheres na HarperCollins”.

Além disso, profissões ligadas à literatura se tornaram, por sua vez, categorizadas como femininas e frisaram ainda mais a visão do ler como passatempo para mulheres. Lívia Reginato observa:

“Educação e leitura eram um luxo que apenas homens tinham. No momento que as mulheres começaram a ter acesso a isso, virou uma atividade de ‘mulherzinha’”.

Hoje em dia, entretanto, o cenário é bem diferente do observado nos séculos anteriores. Um estudo internacional publicado em 2026 , baseado em dados de aproximadamente 900 mil estudantes de 56 países, mostrou que meninas leem com mais frequência e obtêm melhores resultados em leitura do que os meninos. A pesquisa aponta ainda que o hábito de ler está diretamente relacionado ao desempenho dos estudantes, indicando que a diferença entre homens e mulheres não está apenas na capacidade de leitura, mas também na frequência com que ela é praticada. Assim, a predominância feminina entre os leitores atuais não pode ser compreendida como um fenômeno isolado, mas como o resultado de transformações históricas, educacionais e culturais que remodelaram a relação de cada gênero com a leitura ao longo dos últimos séculos.

A leitura entre as esferas sociais

O fator econômico continua sendo um dos principais fatores que dificultam o acesso à leitura, desincentivando ainda mais o hábito de ler, principalmente entre os homens.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) aponta diversos fatores para a queda geral dos índices de leitura. Um deles seria a pandemia, com a quarentena impactando a alfabetização e o letramento dos mais jovens e a distribuição de livros. Path Pachas relata:

“Eu acho que da pandemia para cá teve uma questão de economia. Por isso que nós diminuímos a produção também. Porque o mercado acaba encolhendo, isso é verdade, isso é fato”.

Segundo dados da Pesquisa Retratos da Leitura, o menor percentual de leitores está concentrado em comunidades de baixa renda e escolaridade.

A renda familiar e o nível educacional influenciam diretamente o acesso a livros. Comunidades com pouca infraestrutura cultural dependem de bibliotecas escolares ou públicas, que muitas vezes estão mal equipadas e não possuem auxílio adequado do governo. A falta de acesso, então, prejudica ainda mais a democratização e o incentivo ao hábito da leitura. A bibliotecária Sônia Zanchetta aponta:

“Agora nós estamos numa época aqui no Rio Grande do Sul, e eu vejo que em vários outros lugares do Brasil, em que os governos, por economia, cortam investimentos na área da leitura sem pudor nenhum”.

Sônia comenta, também, que financia do próprio bolso a compra de livros novos para a Biblioteca Comunitária Sol e Lua, que não recebe nenhum investimento governamental.

O que o futuro espera?

Para incentivar a leitura masculina, não basta apenas cobrar dos homens que leiam mais. Primeiramente, é preciso pensar em como a leitura chega até eles. O incentivo precisa começar desde cedo, mas de uma forma menos obrigatória e mais próxima dos gostos masculinos.

Homem olhando livros na Livraria da Vila, Avenida Paulista. Foto: Maysa Sevaroli

Homem olhando livros na Livraria da Vila, Avenida Paulista. Foto: Maysa Sevaroli

Sônia Zanchetta nota que a maioria dos homens encontra algum espaço para o entretenimento no cotidiano. Mas esse entretenimento, mesmo nas classes mais altas, pouco contempla a leitura.

“Eu vejo o entretenimento muito mais focado em games e coisas que têm a ver com as telas e outras formas de descontração. ‘Ah, eu vou encontrar meus amigos no boteco’, a ocupação do tempo que seria da leitura acaba sumindo, né?”

Dentro desse contexto, surgem iniciativas como introduzir livros com temas variados desde a infância, abrir espaço para quadrinhos e estilos variados como terror, esportes e outros gêneros que despertem curiosidade no público masculino. Incentivando a leitura não como dever, mas como um passatempo, para mostrar que ler não precisa ser visto como algo “chato”, “difícil” ou distante do universo deles.

Assim, maiores são as chances de que ler deixe de ser uma tarefa escolar e passe a ocupar um espaço de lazer na vida dos homens.


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