Cerimônia ao luar
Em algum ponto onde as cidades subitamente acabam, as luzes enfraquecem e o mundo respira sem testemunhas; é ali que eles ficam. Não por…
Cerimônia ao luar
Em algum ponto onde as cidades subitamente acabam, as luzes enfraquecem e o mundo respira sem testemunhas; é ali que eles ficam. Não por medo dos homens, mas porque são quase sempre mal compreendidos. Um vislumbre basta para que sejam convertidos em ameaça ou coisa agourenta, história funesta contada na manhã seguinte quando todos estão à mesa para o café da manhã. Mas eles não querem isso. Aliás, não querem mais nada que pertença à natureza humana.
Por isso, se recolhem nos lugares esquecidos como os pastos, plantações, vales, encostas, córregos e rios. E ali, sob o luar, aguardam. É ali também que às vezes se reúnem quando a noite se adensa. Nessa hora, a luz da lua exibe um comportamento estranho. Quando passa pelo local e através deles, a brancura cintilante do luar se dilui e se converte em um arco-íris invertido, suspenso próximo ao solo. É uma espécie de reminiscência das cores. O último momento antes de serem arrebatados às alturas cósmicas. Por fim, a luminescência se desfaz e a cerimônia se completa, pois nada mais naquele mundo lhes diz respeito.
Nenhuma marca fica. Nenhum sinal que possa ser convertido em palavras lúgubres nas histórias que correm pelas cidades. O luar retorna ao seu estado natural e os campos e paragens voltam a ser apenas espaços de distância, escuridão e silêncio.
Aqueles que repetem essa história, a conhecem de ouvir falar. Quem me contou foi meu avô; que gostava de literatura, teatro, folclore, prosa, pescaria e nunca mentiu.
메타데이터
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- 2026-06-20 20:29:01