Armadilhas da totalidade I
Sobre Assad Haider, Achille Mbembe e a afirmação da identidade negra como elemento emancipatório.
Armadilhas da totalidade I
Sobre Assad Haider, Achille Mbembe e a afirmação da identidade negra como elemento emancipatório.

Ler “Armadilhas da Identidade” de Assad Haider e aceitar a sua conclusão sobre a dinâmica da questão racial é o mesmo que ler o Manifesto Comunista e acreditar que ali está a crítica da economia política.
Embora existam reflexões interessantes em Haider sobre os embricamentos entre neoliberalismo e afirmação de identidade, por exemplo, a conclusão que ele deriva disso carece de entender o caráter emancipatório em assumir positivamente uma identidade historicamente negativizada.
Ao ler Necropolitica e começando agora o Crítica da Razão negra me parece que Achille Mbembe traz a questão em sua complexidade dialética. Mbembe, em consonância com Haider — e grande parte dos intelectuais negros, diferente do que o texto dele leva a crer — compreender que a diferença racial é fruto de relações históricas condizentes com relações de trabalho baseadas na escravidão e na desumanização do negro para propósitos historicamente demarcados e, por isso, não deveriam ser tratadas como “identidades fixas”, configurando, segundo Haider, um equivoco tático das lutas progressistas responsável pela divisão de um campo que deveria seguir unificado.
Abrindo uma divergência com este ponto de Haider, Mbembe que o ser negro é uma condição histórica que apresenta um caráter negativo e também positivo, uma vez que o Negro também submetido a condição de objeto pela escravidão também elabora formas de afirmar a sua humanidade por meio da estilização dos objetos, das relações humanas que estabelecia da música, do próprio corpo, em suma, da cultura (Necropolítca, pág. 30). Em um segundo momento, o domínio da escrita proporcionou uma nova arena de expressão da identidade negra em momentos pós-escravidão (Crítica da razão negra, pág. 23).
O que Mbembe afirma aqui é a contradição dialética do ser e do tornar-se negro. Se por um lado, a identidade negra está vinculada à negatividade do que é ser humano, por outro lado, apontar o equívoco dessa hierarquização epidérmica entre seres humanos passa pela afirmação da contínua resistência à objetificação que o racismo impõe às pessoas negras.
O tornar-se negro (leiam Neusa Sousa Santos) é um processo individual e coletivo — político por excelência — de rejeitar os significantes que estruturam o racismo que vem sendo mobilizado desde os estertores da estrutura colonial escravista para paralisar os indivíduos na obediência aos senhores e na objetificação para o trabalho puro e simples. Afirmar-se negro é ato de resistência.
Essa é um dos exemplos do que pensei em chamar de “armadilhas da totalidade”. Crer que abarcar o real com a razão iluminista seria suficiente para formular ideias de cunho universal é um equívoco que as esquerdas não podem mais assumir. Como afirma Mbembe, precisamos repensar a universalidade com o intuito de “dizer o mundo na língua de todos”.
메타데이터
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