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Quais impactos a Inteligência Artificial pode exercer nas Eleições de 2026?

Com conteúdos gerados por inteligência artificial cada vez mais realistas, pesquisadores apontam riscos para o debate público e para a…

Facom News Digital · 2026-06-09 21:46 · 0 claps · 4.8 min read
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Quais impactos a Inteligência Artificial pode exercer nas Eleições de 2026?

Com conteúdos gerados por inteligência artificial cada vez mais realistas, pesquisadores apontam riscos para o debate público e para a formação da opinião dos eleitores

Por Luana Giovannini e Matheus Vasco

A primeira coisa que a estudante de Medicina, Ana Luiza Oliveira, de 21 anos, faz ao acordar é abrir o Tik Tok. Entre vídeos de humor, dicas de estudo e notícias, ela passa cerca de duas horas por dia navegando pelas redes sociais. Mas no ambiente digital, os conteúdos que são criados com o uso de ferramentas de IA circulam aos montes. “Alguns são muito óbvios que foram feitos de IA, são até engraçados, mas teve uma vez que quase cheguei a acreditar que fosse de verdade mesmo, cheguei a republicar ele pensando que fosse real”, relata a estudante.

O vídeo que ela se refere mostra o presidente Lula tecendo críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e o culpando pelo preço da gasolina. A única indicação na postagem do uso de IA está em uma hashtag usada na legenda, mas que só aparece quando o usuário clica em “ler mais”. Quem assiste o vídeo, curte ou republica e arrasta para cima para ver o próximo, pode não perceber que se trata de um conteúdo falso.

Confira o vídeo, feito com IA, que utiliza a imagem do presidente: ***https://vt.tiktok.com/ZSQBVaNaU/***

O avanço da inteligência artificial tem transformado a forma como informações são produzidas e compartilhadas nas redes sociais. Em períodos eleitorais, especialistas alertam que a tecnologia pode representar um desafio ainda maior para o combate à desinformação e às notícias falsas.

Segundo a professora do curso de Comunicação Integrada e Mídias Digitais da UFLA, Talita Magnolo, um dos principais riscos está no uso das chamadas deepfakes, conteúdos manipulados por inteligência artificial capazes de reproduzir imagens, vídeos e vozes de pessoas públicas de forma extremamente realista. Para ela, essas produções estão cada vez mais sofisticadas e difíceis de identificar, o que pode influenciar diretamente a percepção da população sobre candidatos, partidos e temas políticos.

A pesquisadora também destaca que o problema se agrava pela falta de letramento midiático da população. De acordo com Talita, muitas pessoas ainda têm dificuldade para distinguir conteúdos verdadeiros de materiais manipulados, especialmente em um cenário de forte polarização política e circulação intensa de informações nas redes sociais.

“A educação midiática se mostra cada vez mais essencial, urgente e necessária. É através dela que a sociedade consegue identificar conteúdos manipulados, prevenir golpes e combater a desinformação.”

— Talita Magnolo, professora do curso de Comunicação Integrada e Mídias Digitais da UFLA e especialista em Inteligência Artificial

Apesar dos desafios, a professora ressalta que a inteligência artificial não é um problema em si, mas uma ferramenta cujo impacto depende da forma como é utilizada. Ela lembra que a tecnologia também pode ser aplicada na produção de conteúdos educativos, informativos e de interesse público.

O impacto da inteligência artificial em períodos eleitorais

Durante os últimos anos constatou-se uma maior presença da inteligência artificial no cotidiano dos brasileiros. Segundo dados da Fundação Itaú em conjunto com o DataFolha, 93% dos brasileiros dizem já ter utilizado alguma ferramenta integrada com IA no seu dia a dia. Com isso, o uso da IA ganha espaço em diversos setores da sociedade e a política é um dos mais afetados.

Plataformas generativas, como ChatGPT e Gemini, permitem a criação de inúmeros conteúdos, sejam eles textuais ou audiovisuais, em alta velocidade e baixo custo. Apesar da inovação tecnológica, esses conteúdos nem sempre podem ser confiáveis ou verdadeiros. Com o uso de comandos específicos é possível desenvolver mídias que impactam diretamente na reputação de um candidato, partido ou mesmo uma instituição democrática.

Plataforma cria vídeos a partir de novos prompts ou imagens já existentes (Fonte: Runway ML)

Plataforma cria vídeos a partir de novos prompts ou imagens já existentes (Fonte: Runway ML)

Há alguns anos, o Brasil lida com as famosas fake news, informações falsas criadas com intuito persuasivo em prol de alguma ideologia. Porém, as eleições de 2026 enfrentam um novo cenário, um mundo onde aquilo que é real é bastante semelhante àquilo inventado por uma inteligência artificial. Essas plataformas conseguem criar imagens e sons extremamente parecidos com a realidade, fazendo com que o público comum tenha cada vez mais dificuldade para lidar com as informações.

O cientista político e professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Paulo Roberto Figueira Leal, comenta os potenciais danos desses recursos para a efetividade da democracia brasileira. Na visão dele, partidos ou cidadãos comuns podem utilizar essas forças para perpetuar ideias ou prejudicar oponentes com o uso de discursos falsos.

“É um desafio extra para a Justiça Eleitoral, que reforça a necessidade de se desenvolver instrumentos normativos sobre a atuação das plataformas e redes sociais, no intuito de proteger a sociedade”

— Paulo Roberto Leal, professor de jornalismo na UFJF e cientista político

Em períodos eleitorais, a expectativa é de que as pessoas possam tomar decisões racionais, tendo total poder de escolha, nutridas de informações verdadeiras. Em cenários onde não se sabe mais o que é verdade ou mentira, existe espaço para uma crise de confiança generalizada, impedindo qualquer tipo de legitimidade eleitoral.

O funcionamento dos algoritmos, a proliferação de informações falsas e a manutenção de bolhas virtuais são pontos que impactam o exercício da democracia. Essas questões ainda são problemas sem solução na sociedade. Muitos pesquisadores buscam entender de que forma esses dispositivos trabalham seus dados. Além do quesito técnico, existe a carência de regulações formais por plataformas, como Instagram e TikTok, acerca da permanência desses recursos e seus possíveis danos perante seus públicos. Os conteúdos digitais hoje deixam a esfera virtual e começam a fazer parte do cotidiano das pessoas, moldando toda a sua rotina e pensamentos, dada sua relevância e engajamento social.

TSE cria regras para uso de IA nas eleições de 2026

O Brasil ainda discute formas de regulamentar o uso da inteligência artificial. Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou novas normas para o uso da inteligência artificial durante as eleições de 2026. Embora a tecnologia continue permitida em propagandas eleitorais, candidatos e partidos serão obrigados a informar de forma clara quando um conteúdo for produzido ou alterado por IA, além de identificar qual ferramenta foi utilizada.

TSE estabelece novas regras para uso de IA durante eleições de 2026 (Foto: Agência Brasil)

TSE estabelece novas regras para uso de IA durante eleições de 2026 (Foto: Agência Brasil)

Entre as principais medidas, está a proibição da circulação de conteúdos gerados por inteligência artificial nas 72 horas que antecedem a votação e nas 24 horas posteriores ao encerramento da eleição. O tribunal também determinou que plataformas de IA, como chatbots e assistentes virtuais, não poderão recomendar candidatos nem ranquear candidaturas, mesmo quando houver solicitação do usuário.

As regras ainda ampliam as exigências de transparência para conteúdos patrocinados e responsabilizam plataformas digitais pela remoção imediata de materiais sintéticos considerados irregulares. Além disso, conteúdos manipulados deverão trazer avisos explícitos informando que foram criados ou alterados por inteligência artificial.

Ao tomar posse na presidência do TSE, o ministro Kassio Nunes Marques afirmou que o uso indevido dessas ferramentas representa um dos principais desafios para a proteção do processo democrático. Segundo ele, é necessário acompanhar as transformações tecnológicas para evitar que a inteligência artificial seja utilizada na disseminação de desinformação e na manipulação do debate público.


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