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Alain Badiou — Teoria da Contradição Final [Tradução]

Força e lugar

Sharlos · 2024-11-25 15:02 · 29 claps · 27.9 min read
#marxismo #marxismo-leninismo #maoismo
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Alain Badiou — Teoria da Contradição Final [Tradução]

Força e lugar

A. Resolução de uma contradição. O que é que morre?

Os Khmer vermelhos se apoderaram de Phnom Penh: uma sequência histórica está terminada porque uma contradição está resolvida.

A resolução de uma contradição não é, e jamais será a síntese de seus termos. Mantemos aqui uma das verdades mais estáveis e mais antigas do marxismo: a luta destrói e transforma, ela não é o teatro de sombras de uma conciliação forjada nos gestos da Origem. Desde o Manifesto, Marx e Engels a afirmam sem ambiguidades:

“[…] Opressores e oprimidos, em constante oposição, travaram uma guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que sempre terminava ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em luta.”[1]

Reformulação da totalidade, isto é, ruptura qualitativa do processo, se um dos termos da contradição se apodera irreversivelmente do lugar dominante; conclusão do próprio processo na supressão recíproca dos dois termos, se a simetria das forças não permitir a mudança de lugares. A resolução de uma contradição exige que alguma coisa desapareça. A dialética materialista não é, como a dialética hegeliana, o pensamento “que se mantém até a morte”.[2] Ou melhor, a dialética divide a morte: existe, de fato, o que se mantém, nas condições conflituosas de tipo novo: assim, a burguesia se mantém na ditadura do proletariado, sob a forma objetiva da persistência Direitista, sob a forma subjetiva de sua penetração no partido. Mas existe também o que morre integralmente, o que não deixa nenhum traço. Não há pensamento verdadeiramente revolucionário exceto aquele que leva o reconhecimento do novo até o seu inescapável revés: o velho deve morrer.

A dialética materialista afirma, como Hegel, que a verdadeira vida não é aquela “que se assusta perante a morte e se preserva pura da destruição”.[3] Mas seu pensamento dividido da morte é mais forte. Hegel quer “manter firme aquilo que está morto”,[4] e é porque tudo está integrado na circulação final do Absoluto que a vida do espírito não deve temer o negativo. Nada jamais se perde. A dialética materialista, por outro lado, confronta a perda, e o desaparecimento sem retorno. Existem novidades radicais porque existem cadáveres que nunca despertarão por nenhuma trombeta do Juízo final.

No auge da Revolução Cultural, se falava na China: a essência do revisionismo, é o medo da morte. Esse enunciado se divide, em sua parte idealista e subjetiva — a vertente de Lin Biao — e sua parte de verdade: o revisionismo não apoia que a burguesia morra. O revisionismo é último avatar da sobrevivência burguesa, a astúcia e a caricatura daquele que deve abandonar de vez o lugar que, para sobreviver, se veste como enfeite de seu antagonismo: ditadura da burguesia disfarçada de socialismo, pensamento burguês revestido de marxismo. O morto só é suspenso por ser tomado por aquele que o matou.

A resolução de uma contradição inclui, como dissemos, a parte da morte. Para que apareça a nova totalidade, o processo diferente e a cisão de uma outra unidade, fazem cair aqui, como resíduo do movimento, um fragmento da realidade. É toda a racionalidade da expressão militante: a lata de lixo da história. Resolver é descartar. Quanto mais cheio a sua lata de lixo, melhor a história trabalha.

“Aufhebung”, diz Hegel, para designar a passagem do antigo ao novo: anular e conservar. Podemos traduzir como “suprassunção” [relève]. Outra coisa, que, no entanto, se mantem na continuidade. Aquilo que morre advém a si-mesmo em seu outro. “Aufhebung”, para nós, deve ser cindido: o proletariado é, de fato, a suprassunção da burguesia, mas não no sentido em que, no cair da noite nas fábricas, o turno noturno substitui o turno diurno, nem mesmo no sentido da substituição de gerações. Pois da burguesia, considerada como a última herdeira da história dos exploradores, não restará, no fim, absolutamente nada. E os maoístas ressuscitarão o P.C.F. na classe operária, não pela camaradagem crítica e parasitária dos trotskistas, mas pela destruição material da existência dirigente dos revisionistas.

É preciso pensar dialeticamente, não somente a morte, mas a disseminação das cinzas.

É dividindo a morte que os marxistas-leninistas enraízam sua avaliação. Do que se perdura e do que é abolido, qual é o principal? O esmagamento da Comuna, é a perda irremediável, para o proletariado francês, de toda uma geração dirigente operária. Tão forte e real é essa perda que nós a experimentamos ainda. A suprassunção, é o balanço da Comuna, sistematizado por Marx, praticado por Lênin e pelo proletariado sob as formas da vitória operária. A morte dos comunardos tem, por aspecto principal, o futuro vivo das revoluções proletárias vitoriosas. Marx tinha visto no momento:

“A classe operária de Paris, com a sua Comuna, será sempre celebrada e glorificada como a embaixadora de uma nova sociedade.”[5]

Inversamente, por exemplo, a morte do sistema colonial, quase completo com a derrocada do “império” português (Guiné, Cabo Verde, Moçambique, Angola) não anuncia nada que seja imanente desse sistema. Nenhum “valor” colonial encontrará, no futuro, a glória de seus conceitos. É um sistema aniquilado, irrecuperável, estéril: a força antagonista dos povos rebeldes se deslocam e o jogam na lata de lixo.

Radicalmente aniquilados, um tal termo é alcançado na totalidade de seu desenvolvimento histórico: termina seu fim quando a sua própria origem é, por sua vez, anulada no antagonismo. É a razão pela qual Mao viu na revolta dos Negros americanos um momento decisivo para o colapso total do sistema capitalista:

“O execrável sistema colonialista e imperialista, em que se ergueu e prosperou com a escravização e com o comércio dos Negros, com certeza terá seu fim com a completa emancipação do povo Negro.”[6]

Quando aquilo contra o qual, em seus primórdios, se afirmava o crescimento de um termo, passa a ser o que se afirma vitoriosamente, esse termo estará muito próximo de seu desaparecimento.

Assim, em uma realidade concluída se separam e se ordenam aquilo que se incorpora ao futuro, o que entra em metamorfose sob a lei de uma nova unidade dos contrários, e o que faz, de fato, deste novo, é a substituição da perda e da dissolução. Tudo o que morre está contraditoriamente suprassumido e retirado. Conforme prevaleça a suprassunção, ou o resíduo, a morte é dialeticamente afirmativa ou nula.

“Sema Tsien, escritor da China antiga, dizia: ‘Certamente os homens morrem; mas a morte de uns tem mais peso que o monte Tai, enquanto que a de outros pesa menos que uma pena.’ Morrer pelos interesses do povo tem mais peso que o monte Tai, mas empenhar-se ao serviço dos fascistas e morrer pelos exploradores e opressores do povo pesa menos que uma pena.”[7]

O esmagamento do regime fantoche cambojano suprassumiu a categoria da pena, e do desperdício. A camarilha de Lon Nol desapareceu da história, e a guerra civil revolucionária terminou com a vitória total das forças populares. Dirão que os Khmer vermelhos vão ocupar o lugar onde anteriormente se mantinham os fantoches? De certa forma sim, pois um Estado sucede um outro, pois uma ditadura sucede a uma outra. De um ponto de vista formal, é correto dizer que o encerramento e a resolução de um processo contraditório reside na oscilação da dissimetria. O poder muda de mãos, o secundário torna-se principal, a determinação qualitativa do conjunto do processo não é mais regida pelo mesmo termo dominante. A designação própria do processo deve ser transformada: a fase da guerra civil revolucionária sucede a da ditadura democrático popular. O Estado, isto é, a forma concentrada de todos os fenômenos de dominação, não tem nem mesmo o próprio nome. Ao Estado fantoche, antro de compradores e empresários militares apoiados pelo imperialismo, sucede-se o Estado baseado sobre a aliança operária-camponesa. Como canta A internacional: “o mundo mudou a base”, as forças sociais trocaram sua posição, a resposta da pergunta “quem oprime quem”? é invertida.

B. Resolução de uma contradição: O que é que muda?

Tudo isso, no entanto, designa a forma de uma ruptura na sequência dialética, mas não afeta o conteúdo. O Estado da ditadura democrático popular é, certamente, a derrubada do Estado fantoche. Em uma apreensão combinatória das relações de classes, podemos propriamente dizer que ele realiza aí sua inversão: as grandes massas operárias e camponesas exercem sua ditadura sobre os antigos ditadores. No entanto, o desenvolvimento histórico dessa inversão é uma novidade radical que o mero pensamento da inversão é incapaz de compreender. Existe aí uma potencial objeção anarquista que se poderia invocar de Marx: a existência da relação de dominação, mesmo invertida, não constitui por si mesma o núcleo de uma invariância ideológica essencial? No Manifesto, Marx conclui, de fato, a permanência geral das relações de exploração, com a estabilidade das formas de consciência:

“[…] qualquer que tenha sido a forma desses antagonismos [de classe], a exploração de uma parte da sociedade por outra é um fato comum a todos os séculos anteriores. Portanto, nada há de espantoso que a consciência social de todos os séculos, apesar de toda sua variedade e diversidade, se tenha movido sempre sob certas formas comuns, formas de consciência que só se dissolverão completamente com o desaparecimento total dos antagonismos das classe.”[8]

Seguimos bem aqui os meandros da dialética fórmula/conteúdo. A existência de um conteúdo contraditório invariante (o antagonismo de classes) faz com que a variabilidade de suas formas objetivas (os diferentes modos de exploração) deixem subsistir em um elemento subjetivo (a consciência social) uma variante formal (formas comuns[9]). Ao se ater à resolução de uma contradição como inversão dos lugares, podemos dizer: a existência de um conteúdo contraditório invariante (existência de um sistema de lugares dominante/dominado), qualquer que seja a mutação de suas formas (revolução estatal), leva uma fixação das formas de consciência (não da revolução ideológica). Nesse ponto preciso, a dialética objetiva paralisaria a dialética subjetiva. Pior ainda: a inversão dos sistemas de exploração será inteiramente dissociada da ruptura com as práticas de opressão.

A intervenção dos lugares não inclui a consideração do movimento da cisão dialética, a não ser segundo a relação dos dois termos. Cada um tem seu ser na relação com um outro (em um outro lugar). A força de cada um deles se esgota na relação de forças. Ocupar o lugar estatal do adversário atesta bem que a transformação conflituosa da relação de poder entre os dois campos chegou ao fim. Mas essa ocupação não diz nada sobre a natureza interna das forças engajadas nessa relação. E não basta dizer que agora o campo popular dispõe de forças superiores contra o campo reacionário. A afirmação dessa superioridade não faz, de fato, mais do que redobrar a evidência do lugar trocado. Se os Khmer vermelhos conseguiram varrer o adversário, é com certeza por eles estarem mais fortes. Nesse estágio da investigação, a força é capturada pela exterioridade como simples relação quantitativa. Mas não há nada de mais no conceito quantitativo da relação de forças do que o que é dado na lógica dos lugares. Articular a lógica das forças e a lógica dos lugares não pode reduzir-se a determinar as condições de força da transformação de lugar. De fato, se a comparação das forças se fecha no pensamento quantitativo, a mudança de lugar não designa, necessariamente, uma transformação qualitativa do processo.

Nós dissemos: uma mutação qualitativa exige uma resposta à questão: o que é que morre? Onde está a parte destituída do real? O pensamento quantitativo da força não pode responder essa questão. Ela nos diz aparentemente o que muda (os lugares) na indiferença do que morre, portanto, ao que nasce. A promessa eleitoral revisionista segue esse caminho: o “poder” vai ser substituído pela União da esquerda, o programa comum vai corrigir a situação. Mas o que é que deve morrer? Para ouvi-los, nada. E nada mais vai nascer, que já não esteja lá: o partido, o sindicato, o governo. Essa história sem perda, essa avenida sem o lixo da história exige a suspeita dialética. Mentem para nós, seja porque não querem mudar nada, seja porque tem horror de todo nascimento histórico; seja porque dissimulam o preço, a perda, a morte. E de fato o dissimulam: pois a perda está para as massas, submetidas, na verdade prática da promessa, à intolerável ditadura revisionista, ao social fascismo mortífero.

C. Processo secundário: quando nada muda, são os homens que morrem

A dialética se apodera do cindido, do mortal, do que nasce e se afirma. Onde quer que seja a intervenção dos lugares regidos apenas pelo fenômeno, a mudança se transforma em seu contrário: a continuação e seu reverso: o massacre.

Tomemos um fenômeno com título simétrico: uma guerra interimperialista, imperialismo contra imperialismo, e não os Khmer vermelhos contra os fantoches. O que dizem dos lugares? O que dizem das forças? Em 1914, o imperialismo francês e o imperialismo alemão tem como aposta de guerra ocupar os lugares mantidos pelo adversário. A Alemanha quer expandir a sua esfera de influência na Europa e participar plenamente na pilhagem imperialista da África. A França quer defender, com a Inglaterra, sua semi-hegemonia colonial, e recuperar a Alsácia-Lorena. A vitória de um ou outro dos dois imperialismos resultará, portanto, pelas inversões de lugar. O que conduz essas inversões é certamente a relação de força entre os dois imperialistas. Mas, justamente, essas forças são de mesma natureza: das forças imperialistas. Portanto, a contradição se move sob a lei unilateral dos lugares. A estimativa das forças se desdobra no pensamento quantitativo, no elemento do homogêneo. Em última instância, aquele que tem mais homens, mais armas e mais aliados leva a vantagem inevitável. Não quer dizer que o quantitativo e os armamentos serão o fator decisivo da guerra: sabemos desde Clausewitz que as “forças morais” e o apoio das massas são os únicos fatores de invencibilidade. Mais uma vez, é necessário que haja dissimetria: Clausewitz pensa a guerra como dialético, existe um atacante e um defensor. A superioridade estratégica da defesa vem amplamente da plena mobilização das massas populares. Ora, a guerra interimperialista é globalmente contra-revolucionária, seus objetivos são exteriores à toda aspiração popular, não há nada para defender, apenas a pilhagem e a agressão.

Portanto, o processo inteiro de uma tal guerra entra em contradição com todas as tendências históricas fundamentais, as quais são nomeadas três:

— os países, querem a independência (contra os colonialistas)

— as nações querem a libertação (contra os imperialistas)

— os povos querem a revolução (contra as burguesias imperialistas)

Não surpreende, portanto, que, no centro da mesma guerra interimperialista, a identidade prevalece sobre a diferença, pois o ator decisivo do movimento histórico (as massas populares) se encontram deportadas como polo contraditório a todo o processo desta guerra. A guerra interimperialista, por mais bárbara e absoluta que ela seja, não deixa de representar uma forma degradada, enfraquecida, mínima, do movimento contraditório da realidade. Marx já tinha dito isso há cem anos com perfeita clareza:

“O maior esforço de heroísmo de que uma velha sociedade ainda é uma guerra nacional; e agora está provado que ela é uma pura mistificação dos governos, destinados a retardar, e que é jogada de lado, assim que a luta de classes explode em guerra civil. A dominação de classe não pode mais se esconder sob um uniforme nacional, todos os governos nacionais são um só contra o proletariado!”[10]

Assim, a guerra interimperialista é, ela-mesma, menos uma guerra que uma mistificação, porque a sua lei interna faz prevalecer a unidade sobre a divisão no próprio centro do antagonismo. Essa não é uma exceção dialética. Como todo conceito, o de antagonismo se divide: existe um elemento não antagonista em certas contradições antagônicas, e o movimento desse elemento determina as relações entre a unidade e a luta em todo o curso de um antagonismo aberto, por mais violento que seja:

“Seguindo o desenvolvimento concreto das coisas e dos fenômenos, certas contradições primitivamente não antagônicas, desenvolvem-se em contradições antagônicas, enquanto que outras, primitivamente antagônicas, desenvolvem-se em contradições não antagónicas.”[11]

Apoiando-se sobre o processo de cisão do antagonismo, é assim que os camaradas chineses conseguiram, durante a Grande Revolução Cultural Proletária, formular a diretriz, de outra forma ininteligível, para tratar a resolução de certas contradições antagonistas pelo método apropriado às contradições não antagônicas:

“Resolver essas contradições entre o inimigo e nós à maneira das contradições no seio do povo favorece o fortalecimento da ditadura do proletariado e da desagregação do inimigo.”[12]

A guerra interimperialista leva, na aparência, o antagonismo ao seu ápice; e, no entanto, o não antagonismo, que lhe é interior, comanda a sua forma de existência, cumulativo e não criativo, interminável, sangrento e prodigiosamente estéril.[13] É por isso que ela escapa às categorias de Clausewitz. Daí também o seu estilo: uma carnificina inepta recíproca, um desperdício insensato de material, um longo e penoso desgaste de forças tanto mais agarradas umas a outras que nada de essencial as difere.

Simetria assassina, esse tipo de processo é a forma estrutural falha da contradição. O pensamento quantitativo encontra aí seu alimento. A avaliação na homogeneidade da relação das forças mantêm uma relação mecânica com a inversão dos lugares (a vitória ou a derrota). A causalidade é linear. A lógica dos lugares se subordina à lógica das forças. Fazemos um favor (de retórica) com a psicanálise: chamaremos esse tipo de contradição de um processo secundário. Ele o é de fato, porque é o jogo que induz em seu seio uma outra contradição, primária — principal — isto é, nesse caso, aquele que opõe os imperialistas aos povos do mundo, que simetriza os imperialismos e fazem de seu selvagem embate um fenômeno que, por si mesmo, não é portador de outra coisa senão a de uma redistribuição indiferente dos lugares.

Pode-se dizer que um processo secundário se resolve sem perda? Certamente que não. A perda assume a forma, por sua vez inteiramente negativa, do massacre das populações. Os milhões de trabalhadores e de camponeses mortos durante a carnificina de 1914–18 são o resíduo de um estéril deslocamento dos imperialismos. Onde, então, encontrar o que deve morrer, senão no que é excluído dos motivos e dos interesses da guerra?

Diremos que o processo secundário, assumido como unidade, entrava globalmente em contradição primária com aquilo que ele exclui de seu sistema de lugares: os povos se opõem objetivamente (e subjetivamente um dia ou outro; ver, na própria França, as rebeliões de 1917) à guerra imperialista. É em seu oposto primário que o processo secundário encontra o termo a ser subtraído para que ocorra sua resolução.**[14]**

Os operários e os camponeses mortos em 1914–18 foram mortos pelo seu imperialismo nacional, justamente porque constituíam o termo antagônico de todo o sistema imperialista.

Todo processo essencialmente simétrico se resolve por uma mudança de lugar, da qual o preço é retirado da força heterogênea. A simetria se paga sobre a dissimetria. O lugar é conquistado mutilando o diferencial da força.

No entanto, se o processo secundário é regressivo, aqui é relançado: os camponeses e operários da França ou da Alemanha foram mortos também para que a revolução proletária acontecesse na Rússia. Ser tomado pelo termo morto desperta dialeticamente a verdadeira vida dos povos, isto é, a aceleração do processo primário. A rebelião contra a guerra determina o proletariado e as massas populares em sua identidade essencial: revolução proletária contra a barbárie imperialista. Portanto, o conhecimento do caráter simétrico e indiferente da guerra interimperialista rompe as represas do nacionalismo burguês — essa falsa pretensão da diferença qualitativa (nós os franceses, somos realmente algo distinto dos alemães), destinada a fazer com que o povo ocupe o lugar que os imperialismos confrontantes exigem deles: o lugar dos mortos.

Na ruptura do nacionalismo burguês, a consciência de classe pensa a guerra interimperialista como mistificação e permutação unitária. A essa guerra, contrapõe-se de maneira decisiva a palavra de ordem bolchevique do derrotismo revolucionário. O processo primário prevalece sobre o secundário..

Mas no processo primário, força e lugar se articulam de maneiras muito distintas.

D. Processo primário: o esplendor das forças.

O processo primário é essencialmente dissimétrico: a força dos povos e os meios do imperialismo não podem avaliar-se por um pensamento quantitativo. Na contradição que opõe vitoriosamente os Khmer vermelhos contra os fantoches, a heterogeneidade das forças presentes fazem com que ela não tenha, em todo rigor, nenhuma medida em comum. Um dos espantos permanentes do pensamento burguês é assistir a derrota dos grandes imperialistas frente aos pequenos povos insurgentes. Se nós nos atermos apenas a um conceito da relação de forças estreitamente subordinadas à lógica dos lugares, abriremos um espaço de pensamento puramente quantitativo, onde, evidentemente, o imperialismo americano — por exemplo — é o mais forte. Nos homens, nas armas, no poder de fogo, na capacidade de destruição, existe uma superioridade avassaladora de um dos antagonistas. É, no entanto, ele que é derrotado. É ele que deve ceder o lugar. Vimos bem que, neste caso, o problema da avaliação das forças não pode se resolver na confrontação de acumulações quantitativas que conduzem mecanicamente sobre a inversão dos lugares.

Refletiremos sobre essa tese política de Mao Tse-Tung:

“Um país fraco é capaz de derrotar um país forte, e um país pequeno é capaz de derrotar um país grande. O povo de um país pequeno triunfará sobre a agressão de um país grande, se ousar se levantar pela luta, recorrer às armas e tomar em mãos o destino de seu país.”[15]

Na lógica da homogeneidade, esse enunciado é ininteligível. Significa, de fato, literalmente, que sob certas condições que dizem respeito à sua determinação interna, o mais fraco é mais forte que o mais forte.

Ora, este é um enunciado dialético essencial, uma verdade essencial marxista-leninista. Lênin já enfatizava que a insurreição em si, ato de força vitoriosa, não colocaria fim à inferioridade do proletariado: ele havia se mostrado o mais forte, mas seguia sendo o mais fraco, e ainda precisava conquistar uma verdadeira superioridade. Nesta circunstância, a conquista do lugar estatal, longe de resolver mecanicamente a questão da correlação de forças, a reabre e agrava:

“A ditadura do proletariado, é a guerra mais heroica e mais implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, contra a burguesia cuja resistência é potencializada pelo seu derrubamento.”[16]

O mais fraco segundo o lugar (o país pequeno, o proletariado dominado), pode vencer segundo a força (mas então, é uma outra força distinta daquela quantitativa, regida pelo lugar) e inverter os lugares. Ele não permanece o mais fraco por muito tempo, e tanto mais agora ele deve também guardar seu lugar conquistado, e então forjar o que ele não tinha: a superioridade segundo o lugar.

Toda essa dialética divide tanto o conceito da força quanto o de fraqueza, entrelaçando dois critérios para avaliar a correlação de forças. Para nós, maoístas, portadores determinados do futuro revolucionário, essa é uma reflexão crucial, pois ela indica como o punhado que somos está destinado a triunfar, mesmo permanecendo, por muito tempo, o mais fraco contra o monstro burguês de duas cabeças: burguesia clássica e a nova burguesia revisionista.

Para compreender a superioridade das forças do mais fraco, para compreender a vitória dos Khmer vermelhos tanto contra o imperialismo americano quanto contra a vontade do social-imperialismo, é preciso introduzir a ideia de uma incompatibilidade das forças contraditórias; a ideia de sistemas de validação heterogêneos, que fazem com que os critérios de apreciação da relação de forças são elas-mesmas cindidas. Essa é uma característica essencial da apreensão de um processo primário. É, por exemplo, o que o marxismo-leninismo sintetiza na célebre fórmula “a guerra do povo é invencível”. Essa forma significa, de fato, que o tipo de forças postas em ação pela guerra do povo não se compara ao arsenal do qual dispõem as forças antagônicas. Dizer que uma força é invencível, é lhe atribuir uma qualidade intrínseca irredutível em comparação com uma outra força. Os grandes princípios da guerra popular: primado do político sobre o militar, apoiar as massas como fator principal, programa revolucionário democrático e popular, direção do proletariado, etc., dão razão à constituição, à um dos polos do processo, de um termo em que a própria heterogeneidade garante a inevitabilidade crescente da vitória. Portanto, o pensamento da contradição não consiste em redobrar o sistema dos lugares por uma estimativa estrutural (combinatória) das forças. O processo é essencialmente dissimétrico, de uma dessimetria não esquematizada, porque ela é qualitativa. Uma tal dissimetria não pode mais ser pensada segundo essa extensão da lógica dos lugares que constitui uma avaliação quantitativa da relação das forças. É necessário fazer entrar em jogo a própria essência das forças, como qualidade afirmativa. A dialética exige aqui algo completamente diferente de um princípio de correlação. Ela exige a apreensão de uma descontinuidade qualitativa interna ao processo de cisão. Não somente os termos da contradição entram em conflito visando uma inversão de seus lugares, mas também confrontam dois tipos de exercícios de sua força que se excluem reciprocamente. O conceito de força se cinde, por sua vez, não mais do simples ponto de vista da distribuição dos lugares (força dominante/força dominada), mas do ponto de vista de sua própria essência. A avaliação dessa cisão de forças opera em um pensamento diferencial, que rompe com qualquer forma de pensamento combinatório.

Mas, por sua vez, a heterogeneidade qualitativa das forças perturba a natureza interna do processo de inversão de lugares. Desde que o crescimento vitorioso do termo inicialmente dominado se funde com a afirmação diferencial de sua qualidade irredutível, esse termo não pode, com rigor, ocupar exatamente o lugar do antigo termo dominante. A novidade qualitativa se estende, de fato, necessariamente ao conteúdo da dominação em si. O modo sob o qual o novo termo ocupa o lugar dominante é irredutível à sua antiga ocupação.

O resultado de uma guerra imperialista é a de uma redistribuição combinatória dos lugares; o resultado de uma guerra revolucionária é a de uma própria refundação do sistema dos lugares. Nada de comum existe entre a dominação estatal dos fantoches e o Estado da ditadura democrático popular progressivamente construída pelos Khmer vermelhos. É preciso dizer, dessa vez, que é a lógica dos lugares que é subordinada pela lógica das forças. A novidade histórica, crescentemente afirmativa reforçada pelo campo popular, traz outra regra, e outros tipos de correlação entre os lugares.

Um processo secundário simetriza a cisão que o define, permuta os lugares, e atribui ao heterogêneo o lugar do morto. Um processo primário dissimetria ao máximo a cisão, refunda o sistema de lugares, e atribui o lugar do morto aos antigos modos de ocupação dos lugares.

O processo primário, por excelência, é a revolução proletária. É uma das teses essenciais do marxismo que afirma a impossibilidade para o proletariado de se servir da máquina do Estado burguês. A revolução proletária só é concebida na destruição efetiva desse Estado e na edificação de formas de poder radicalmente novas. Isso equivale a dizer que o proletariado não pode afirmar a sua identidade revolucionária do simples ponto de vista da intervenção da relação dominante/dominado. Com todo rigor, o proletariado não pode ocupar o lugar da burguesia, ele deve destruir esse mesmo lugar. Lênin pressentiu e estigmatizou os estragos de uma concepção puramente estrutural, permutante, da revolução:

“Esses que consideram a vitória sobre os capitalistas do ponto de vista dos pequenos proprietários: ‘eles foram indenizados, agora é nossa vez!’ Devem nascer em uma nova geração de burgueses.”[17]

Não restrinjamos a fórmula ao seu sentido econômico. É de maneira bastante geral que nunca se trata, exceto para secundarizar, isto é, de trair, de praticar o processo primário sobre o modo do “é nosso turno”. Pois esse “turno” pressupõe a invariabilidade do lugar que, no meu turno, eu já ocupava. Este é um caso do processo secundário: em 1914 era indiferente que os povos camaronenses ou marroquinos tivessem de suportar, ocupando o lugar colonial, dos franceses ou dos alemães. Mas no processo primário, o lugar em si deve ser deslocado, sobre o efeito de uma força incomparável, heterogênea, habitável nos lugares ocupados pela antiga força dominante.

Assim, o lugar onde o proletariado exerce a sua dominação (Estado de ditadura do proletariado) tem, por essência, não a de preservar, mas de definhar. O processo de ocupação pelo proletariado no lugar dominante é também o processo de dissolução desse lugar.

Aqui se articula de forma legível a dupla divisão dos conceitos de força e de lugar: o critério do caráter proletário do Estado é o movimento contraditório real de seu desaparecimento. O deslocamento do lugar dominante para as massas como tal, sem aparato separado, é o que prova que a essência interna da força histórica do proletariado persiste e se desenvolve como uma qualidade diferente. Ao mesmo tempo, sobre um longo período, o Estado permanece separado. Daí surge uma luta de classes feroz, onde o que se joga é, finalmente, a conservação da dimensão primária do processo, apesar das forças objetivas de secundarização, de imobilização dos lugares, de sistematização das forças que, de maneira conflituosa, impregnam de todos os lados a classe dirigente (o proletariado), o partido e o Estado.

A avaliação da força de classe do proletariado em um dado momento se faz necessário a partir do que se engendra em seu senso de novidade qualitativa, do que se constitui na prática como força heterogênea. Toda força de aparência operária, mas que evidentemente compartilhe uma medida comum com as forças burguesas, não tem chance nenhuma de se integrar em um processo primário. Nesse ponto, a contradição com os revisionistas, ou aqueles que eles influenciam, recai especialmente sobre o modo de estimar as forças. Para os revisionistas e seus agentes, a força é, na realidade, reduzida ao lugar. Pensamento de uma camarilha burguesa em rivalidade com outras camarilhas (Marchais, os sindicatos e as nacionalizações, contra Giscard, os administradores e os monopólios clássicos), o revisionismo quer apenas compreender processos secundários. Isso que emerge da novidade primária, seu reflexo é a de esmagá-la: Judeus alemães! Esquerdistas! Aventureiros! Etc. A política revisionista é regida pela simetria: ela se desdobra nas eleições, típico pensamento secundário, alternância regulada na invariância essencial, à guerra civil contra-revolucionária,[18] passando pelo putsch, ou pelos caminhos do invasor soviético. Em todos os casos, é força burguesa contra força burguesa, pela ocupação do Estado invariável. Para os revisionistas, ser forte, é puramente e simplesmente ser capaz de ocupar, tal como estão, os lugares ocupados atualmente por outras facções da burguesia.

É assim que, em Portugal, os revisionistas, após 25 de Abril, iniciaram o investimento metódico de toda a parte civil do aparelho de Estado (prefeituras, administrações, sindicatos, imprensa, educação etc.). Esse investimento ocorreu fora, e na maior parte dos casos, contra o movimento histórico real das massas. Modelou-se no sistema de poder herdado do regime reacionário de Marcello Caetano. A ocupação desses lugares foi, em sentido estrito, a doutrina política revisionista em matéria de poder. Até mesmo onde os revisionistas estavam radicalmente ausentes, onde sua ligação com as massas era nula, eles acreditaram ser possível, através da colonização burocrática dos postos de poder deixados vagos, estabelecer a sua ditadura sobre as massas populares. Foi assim que, no Norte, se apresentaram aos olhos dos camponeses, a quem desprezavam, como uma nova classe de senhores, com poderes e privilégios tão insuportáveis, que, ao contrário do poder reacionário clássico, não estavam enraizados em nenhuma tradição viva. Vemos aqui nua a perversão revisionista até mesmo no pensamento do processo histórico: tudo é, para eles, secundário. Tudo organiza a ignorância e a repressão do movimento do heterogêneo, tudo reduz a história na combinação dos lugares, e em um plano quantitativo único de estimação das forças. A formidável rebelião antirevisionista das massas camponesas portuguesas, por mais contraditória que seja, considerando a atividade frenética dos agentes do fascismo, tem como principal motivação a irrupção, na cena histórica, de algo que a teoria e a prática revisionistas tentavam excluir: a energia afirmativa ilimitada, irredutível a toda norma, a toda combinatória, da força popular. As massas populares do Norte energicamente recusaram-se assumir, no processo secundário de um eventual golpe de Estado social-fascista, o papel do morto desprezado. Assim se manifesta mais uma vez o caráter finalmente invencível de toda força que carrega o futuro, na medida que ela desdobra contraditoriamente uma essência interna qualitativamente descontinuada pela relação ao sistema existente de distribuição de lugares.

A oposição absoluta entre os revisionistas modernos e os marxistas-leninistas-maoístas sobre a questão da essência dissimétrica e qualitativa das contradições de classe, e sobre a relação entre processo primário e processo secundário, explode nos anos sessenta com uma clareza exemplar sobre a guerra e a paz.

O que diz, de fato, o P.C.U.S., até então sobre a liderança do falecido Khrushchev? Muito precisamente, que a bomba atômica simetrizou todas as contradições relativas à guerra; agora que toda a guerra envolve o risco de uma escalada nuclear, e a energia nuclear tendo o equilíbrio (do terror) como forma de desenvolvimento, a guerra se transformou em um processo intrínsecamente secundário (isto é, de evitar ela a todo preço). Como declara hipocritamente o Comitê central do P.C.U.S.: “A bomba atômica não observa nenhum princípio de classe.”[19] Os revisionistas concordam inteiramente com a “teoria” burguesa segundo o qual o princípio interno das guerras se encontra alterado pelo surgimento das armas nucleares. Para eles, é a técnica que é o motor da história, não a luta de classes: “Os foguetes nucleares, desenvolvidos em meados de nosso século, mudaram a ideia que se tinha da guerra.”[20] Essa “mudança de ideia” se concentra na rejeição da dialética: para os revisionistas, o conceito da guerra é indivisível. É isso que os camaradas chineses imediatamente contestam: se a guerra é, por essência ,um processo simétrico, se a “parte do morto” está sempre e em todo lugar nas mão dos povos,[21] o que se torna da distinção estratégica que sempre separou os marxistas dos pacifistas pequeno-burgueses, aqueles que opõe as guerras justas (resultantes de um processo primário, e onde o lugar dos mortos é ocupado pelo velho sistema de exploração) às guerras injustas (efetivamente simétricas, e mortais para os povos)? A indivisibilidade do conceito de guerra — referida à “objetividade” da técnica — impõe a identificação radical da força ao lugar: o campo “socialista” e o campo imperialista, submetidos à medida quantitativa comum do nuclear, não são mais que distribuidores de lugares equivalentes. Os camaradas chineses citam neste contexto uma declaração inequívoca de Khrushchev: “Nós [U.R.S.S. e os Estados Unidos] somos os países mais poderosos do mundo. Se nós nos uníssemos pelo interesse da paz, não haveria guerra. E se um louco pensasse em procurar a guerra, bastaria ameaçá-lo com um dedo para acalmá-lo.”[22] O poder se torna ele-mesmo um conceito homogêneo: duas potências equivalentes, duas superpotências. Unidas para que todos “se acalmem”: permaneça em seu lugar. Ou inversamente (como hoje): em rivalidade pelo lugar hegemônico, rivalidade na simetria, rivalidade portadora da guerra mortal, estéril, pura inversão de lugares: a guerra interimperialista, contra a qual se erguem os povos, segundo sua força heterogênea, exterior ao cálculo burguês dos equilíbrios, nem que seja a do terror.

Toda estratégia limitada nos conceitos indivisíveis, os cálculos quantitativos e as repartições de lugares, é uma estratégia burguesa, um pensamento imperialista sobre a guerra e a paz. Daí que, mesmo apresentado por Khrushchev como uma estratégia de paz e coalizão com os americanos, ela reflete necessariamente uma prática de preparação para a guerra (interimperialista). O primado, no discurso político, dos processos secundários sobre os processos primários, porque faz com que os povos ocupem o lugar dos mortos, se insere na lógica da carnificina americana. A doutrina khrushchevita da paz é, como toda doutrina do equilíbrio, uma doutrina agressiva: seu desenvolvimento inevitável segue o caminho que leva da conivência (superficial) à rivalidade (essencial) entre as duas superpotências. É isso que, desde 1963, os Chineses previram cientificamente: “[O caminho do P.C.U.S.] não é o caminho de defesa da paz mundial, mas o caminho que acentua o perigo da guerra e que leva à guerra.”[23]

A estratégia proletária sobre a guerra e a paz, pelo contrário, visa a neutralização da simetria imperialista pelo desenvolvimento de todas as forças cumulativas em outro polo do processo primário: forças qualitativamente diferentes, ainda que elas incluem e se subordinem às armas atômicas.

Essa estratégia se reduz em

— apoiar ativamente a luta revolucionária dos povos, incluindo a guerra de libertação nacional e a guerra civil revolucionária (guerras justas, processo primário). Nessas guerras porém, e este é um dos aspectos de sua determinação dissimétrica, os povos contam essencialmente com as suas próprias forças (enquanto os fantoches e fascistas contam sempre essencialmente com o apoio estrangeiro);

— assegurar a superioridade nuclear, sob a regra, qualitativamente diferente, de seu uso exclusivamente defensivo, e sem jamais utilizar como chantagem nuclear, nem apostar nas armas nucleares para atingir um objetivo político revolucionário.

A estratégia proletária visa proibir qualquer secundarização mortífera do processo da guerra.

O pensamento proletário é essencialmente a dialética do processo primário. Ela se coloca sempre pelo ponto de vista do que se afirma como novidade qualitativa. O pensamento da contradição deve dominar a cisão entre secundário e primário, entre o estado estrutural dos termos e a dinâmica qualitativa das forças. Deve pensar simultaneamente o comparável e o incomparável. O que atesta aqui seu caráter de classe, é a sua capacidade de se posicionar sobre o problema da correlação das forças, não no espaço da simetria mas no do heterógeno. É por esta razão que os maoístas atribuem mais importância a tal experiência operária literalmente invisível ou insignificante do ponto de vista do pensamento dominante, em vez de a um evento que, para este, é determinante. Os dialéticos maoístas são, hoje na França, os mergulhadores do processo primário, imersos nas profundezas práticas do proletariado, sob os sedimentos secundários acumulados pelos revisionistas. O que eles veem, o que eles fazem, não é de estranhar que os simétricos inofensivos da superfície não possam crer em seus olhos.

A verdadeira questão dialética nunca está em primeiro plano: o que está acontecendo de importante? Pois o conceito de importância deve, por sua vez, ser dividido segundo o lugar e segundo a força. A verdadeira questão é sempre: o que está acontecendo de novo? A partir daí, de fato, trata-se de regressar à importância, como nas sucessivas fases da guerra popular, uma vez que o exército vermelho, ancorado naquilo que, através da guerrilha e no lento crescimento das zonas libertadas, conquistou quase invisivelmente conforme os princípio qualitativos de sua força, chega o momento onde é preciso também saber enfrentar o adversário em campo aberto, segundo sua própria regra obtusa, e esmagá-lo quantitativamente. A lei essencial do processo primários, não é a acumulação quantitativa visando uma inversão abrupta dos lugare, pois essa é, de fato, a via simetrizante do processo secundário. Não: o processo primário vê o termo de futuro proceder para isto, que é propriamente sua força, dividida de sua longa fraqueza: uma acumulação qualitativa. Ao fim, as questões finais, as da simetria e da quantidade, serão resolvidas facilmente, em seu devido lugar: secundário.[24]

A dialética é a teoria das dificuldades qualitativas e das facilidades quantitativas. A inversão dos lugares é certamente o que periodiza uma história, mas a afirmação diferencial da força é o que determina o conteúdo efetivo de cada período, captado em sua essência, isto é, em sua cisão, isto é, naquilo que ela se veste no dia e no período que está por vir.

[1] Marx & Engels, Manifeste du Parti communiste, O.C., t. I, p. 112.

[2] Hegel, Phénoménologie de l’Esprit, Aubier, t. I, 29.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Marx, La Guerre civile en France, O.C., t. II, p. 256.

[6] Mao Tse-Tung, Déclaration pour soutenir les Afro-Américains dans leur juste lutte contre la discrimination raciale pratiquée par l’impérialisme américain, Pékin, Pequim, 1963.

[7] Mao Tse-Tung, Servir le peuple, O.C., t. III.

[8] Marx & Engels, Manifeste du Parti communiste, O.C., t. I, p. 129.

[9] Essa invariante formal é, por sua vez, cindida em formas de consciência comuns com todos os exploradores, e formas de consciência comuns com todos os explorados em rebelião: esta é a questão das invariantes ideológicas comunistas de qualquer grande rebelião popular. Tratamos disso no fascículo Ideologia, Revolta, Teoria.

[10] Marx, La Guerre civile en France, O.C., t. II, p. 255.

[11] Mao Tse-Tung, De la contradiction, O.C., t. I, p. 384. Esse ponto, muito importante, será tratado no fascículo Os Diferentes Tipos de contradições.

[12] Rapport au 9º Congrès du P. C. C Embora apresentado por Lin Biao, esse texto, redigido sob a direção de Mao, fixou uma orientação válida para o 10° Congresso.

[13] A cisão do antagonismo em si mesmo e em seu oposto prescreve a sua regra em um ponto essencial da análise de nossa conjuntura: a relação de duas superpotências, U.R.S.S. e E.U.A., regida por uma dialética rígida de uma rivalidade e de um conluio.

[14] Essa lei dialética geral, que nós consideramos aqui apenas em seu funcionamento regressivo. Também é válido positivamente. Para que seja integralmente resolvida — por exemplo — a contradição entre operários e camponeses, precisa que desapareçam as três lacunas herdadas da velha sociedade (entre o trabalho intelectual e o manual, entre a cidade e o campo, entre a agricultura e a indústria). Ora, a força histórica que se opõe a este desaparecimento não é outra senão a burguesia revisionista ainda presente no partido e no Estado, burguesia cujo principal apoio objetivo reside, precisamente, na inevitável persistência destes desvios durante um longo período de transição. Pode-se, portanto, perfeitamente dizer: a contradição (principalmente não antagonista) operária/camponesa define um processo secundário, cujo processo primário é a contradição proletariado/burguesia em torno do problema do poder político do Estado. Daí que para resolver o processo secundário, é necessário aniquilar a burguesia revisionista infiltrada na classe trabalhadora, no partido e no Estado, o que requer métodos revolucionários: a continuação das revoluções culturais. Os revisionistas são, portanto, o produto residual, o beco sem saída, da transição para o comunismo. Abordamos todas essas questões no fascículo dedicado aos diferentes tipos de contradições.

[15] Mao Tse-Tung, Déclaration du 20 mai 1970.

[16] Lênin, La Maladie infantile, O.C., t., III.

[17] Lênin, Séance du Comité exécutif central de Russie, 29 avril 1918, em Œuvres, t. XXVII, p. 312.

[18] Uma guerra civil é, necessariamente, contra-revolucionária quando sua lógica é a do processo secundário: identidade das forças, métodos, regimentos e, finalmente, resultados, de ambos os lados. O povo, arbitrariamente distribuído entre os dois campos, volta a ocupar o lugar dos mortos, um exemplo típico; a guerra civil entre liberais e conservadores na Colômbia. Exemplo possível: uma guerra entre fascistas e sociais-fascistas em Portugal. (Nota de agosto de 1975.)

[19] Lettre ouverte du Comité central du P.C.U.S. aux organisations du parti et à tous les communistes de l’Union soviétique, juillet 1963.

[20] Ibid.

[21] “A bomba atômica não coloca a questão saber onde está o imperialista e onde está o trabalhador, ela atinge áreas inteiras, para um monopolista aniquilaríamos então milhões de trabalhadores” (sempre o mesmo texto do P.C.U.S.)

[22] Citado em Deux lignes différentes sur la question de la guerre et de la paix, Pékin, 1963.

[23] Deux lignes différentes sur la question de la guerre et de la paix, Pékin, 1963. Como vimos, as teses do 10° Congresso do P.C.C. sobre o risco crescente da guerra mundial entre a U.R.S.S. e os Estados Unidos, longe de ser uma mudança repentina de análise, são o desenvolvimento, confirmado pela realização das previsões de 1963. Em dez anos, a lógica intrínseca do social-imperialismo soviético, cuja a doutrina “pacifista” que Khrushchev dissimulou (para o pensamento burguês) revelou (pelo pensamento proletário, dialético) o núcleo, desdobrando seus efeitos.

[24] Na fase final das guerras civis revolucionárias (captura das grandes cidades pelo Exército Vermelho da China, captura de Saigon pela F.N.L. vietnamita, captura de Phnom Penh pelo Khmer vermelho…), o pensamento burguês, prisioneiro do quantitativo, cego às diferenças afirmativas, sempre profetiza “banhos de sangue” e “sobressaltos desesperados”, etc. Ora, em todo o caso, é a parte mais fácil, a mais rápida, aquela em que os regimes fantoches são menos esmagados do que desintegrados. É porque a acumulação qualitativa os dissolve.

Militantes da UCFML

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