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Autonomia no consumo

por Flávio Scorpione

pensar design in e o design com isso? · 2021-01-12 19:43 · 7 claps · 3.1 min read
#design #consumo #industrial #produtos #2020-1
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Autonomia no consumo

por Flávio Scorpione

Consumidores hoje tem uma relação com seus aparelhos que consiste na interação somente pela camada mais externa, a interface, e os dispositivos são tidos como caixas pretas sem o conhecimento do funcionamento.

Ao se deparar com um erro no funcionamento, o usuário prefere substituir o aparelho do que entender o problema e tentar consertá-lo. A falta de conhecimento a respeito do funcionamento também faz com que a vida útil do aparelho diminua.

Não é de interesse de fabricantes que o uso dos seus produtos seja prolongado, isso se reduz a objetos de custo mais elevado, de marcas mais caras e não se aplica a parcela do mercado que atende consumidores com menor poder aquisitivo. Empresas muitas vezes priorizam produtos complexos e de baixa qualidade de fabricação e materiais, ao invés de um produto simples com maior durabilidade. Nas últimas décadas, exponencialmente, componentes e tecnologia eletrônica no geral diminuem os custos de produção, trazendo cada vez mais sistemas eletrônicos e digitais aos objetos cotidianos. Essa diminuição de custos de produtos facilita o acesso a estes, mas também influencia um consumo exagerado.

Os preços baixos por novos produtos, com funcionalidades que muitas vezes não têm uma verdadeira utilidade, são atraentes para o consumidor e incentivam a fabricação de produtos novos, constantemente. Os fabricantes têm muitos lançamentos para se manter competitivos em um mercado repleto de opções disponíveis para o consumidor.

A constante atualização e acréscimo de funções a produtos que desempenham tarefas simples, aumentam a complexidade do sistema, a ponto de se tornarem muito difíceis de reparar, seja por conta de peças próprias e indisponíveis para a substituição, ou seja pela produção de produtos com baixo custo e sem prezar pela sua durabilidade. Os produtos são feitos de forma descartável, para que quando apresente algum problema, simplesmente seja substituído por um novo.

Esse modelo é altamente rentável para as empresas, e o consumidor pode se enxergar em uma posição favorável por ter à disposição produtos mais acessíveis e cada vez mais sofisticados.

Os usuários se vêem sempre incentivados ao consumo, com a possibilidade de escolher diversos produtos novos, com funcionalidades novas e por preços cada vez mais baixos. Os produtos são muito atraentes à primeira vista, com funcionalidades “inovadoras” que prometem uma vida melhor e mais prática, mas o que não se leva em conta, além das irregularidades trabalhistas praticadas por diversas empresas para diminuir cada vez mais o custo de mão de obra, é a durabilidade desses produtos.

Ao abrir mão da possibilidade de reparo de seus bens, usuários se encontram numa posição de submissão em relação às fabricantes. O consumidor médio pode se ver como privilegiado, com a variedade e preços baixos como nunca se teve antes, mas na verdade os produtos são feitos e vendidos com a intenção de que você permaneça em um estado eterno de consumo.

A compra e venda de produtos de baixa qualidade é a forma que as empresas têm de manter os usuários sempre voltando e desembolsando seu dinheiro. Impossibilitando a longevidade de produtos, por meio de materiais de baixa qualidade, peças insubstituíveis e impedindo a manutenção do objeto, tira-se do consumidor a sua autonomia. Ao torná-lo dependente de um consumo constante de produtos novos que não vão durar, o resultado é frustração, dispêndio de dinheiro e grande impacto ambiental.

É difícil fugir desse ciclo de produtos semi descartáveis. Já é algo muito presente na nossa cultura de consumo e que, no curto prazo, aparenta deixar nossa vida mais fácil, mas valem alguns questionamentos. É necessário um produto com diversas funcionalidades que você sabe no fundo que não vai usar? Quanto mais complexo é o produto, mais provável é que ele quebre e menos razoável é o seu conserto, uma torradeira com touch screen e que se conecta ao wifi é realmente algo que vale a pena?

É necessário conhecer as necessidades que você espera que aquele produto supra, mas é de costume do mercado que os produtos no geral se tornem uniformemente mais complexos e sofisticados, não deixando muita escolha ao consumidor. Por isso, também é necessário que se conheça o produto, e não só sua interface. Saber como algo funciona faz com se possa tratar o dispositivo de forma a prolongar a sua durabilidade.

De forma geral, é inevitável que o consumidor se veja em uma situação impotente quanto aos fabricantes dos produtos que utilizamos nas nossas vidas. Talvez com um pouco mais de consideração pelo uso e funcionamento dos nossos aparelhos, pode ser mostrado às marcas que a durabilidade do produto é tão importante quanto, senão mais, que as supostas inovações propostas pelos constantes lançamentos.

Photo by Jonathan Borba on Unsplash

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