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Entre o consultório e o berço

Havia dias em que o consultório parecia um microcosmo de mundos em choque. Jovens ansiosos com o futuro, casais em crise, profissionais de…

Christian Engelmann · 2025-09-26 17:46 · 2 claps · 2.9 min read
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Entre o consultório e o berço

Havia dias em que o consultório parecia um microcosmo de mundos em choque. Jovens ansiosos com o futuro, casais em crise, profissionais de saúde esgotados pelo ritmo do trabalho, todos entravam pela porta carregando dores invisíveis. Eu, do outro lado, aprendia diariamente a ajustar o ouvido, o olhar e até a respiração.

Uma paciente em especial — chamemos de Clara — ficou marcada na minha memória. Ela era professora, exausta, dividida entre a maternidade recente e a exigência de “dar conta” de tudo. Lembro-me do momento em que disse: — “Sinto que estou sempre errada: ou falho com meu filho, ou falho com meus alunos.”

Enquanto ela falava, me vi refletido ali. Eu também havia acabado de atravessar meses de noites mal dormidas, embalando minha filha recém-nascida, tentando conciliar o cansaço com a responsabilidade do trabalho e dos projetos de inovação que seguiam demandando minha presença. Eu também havia sentido culpa — por estar ausente em casa quando estava imerso no trabalho, e por não conseguir desligar a cabeça quando estava com minha esposa e minha filha.

Não disse isso a Clara. Mas algo mudou na forma como a escutei. Passei a guiá-la menos por conselhos prontos e mais por perguntas: “Em que momento do dia você sente que realmente está presente? O que te ajuda, ainda que por instantes, a respirar fundo?”

Na sessão seguinte, ela trouxe uma pequena vitória: “Descobri que quando meu bebê cochila, não preciso correr para corrigir provas. Eu posso apenas sentar e tomar café devagar. Parece pouco, mas naquele instante eu existo.”

Sorri. Porque eu também tinha descoberto isso em casa, nas madrugadas, ao perceber que segurar minha filha no colo não era perda de tempo produtivo, mas um modo de aprender a desacelerar, a existir em outra cadência. Minha filha, sem falar, estava me ensinando mais sobre cuidado e presença do que qualquer manual.

E foi justamente nessas madrugadas, no balanço do choro e do silêncio da casa, que uma outra dimensão se abriu. Sempre fui profundamente religioso e, ao mesmo tempo em que experimentava a ternura de ser pai, também sentia a culpa de não estar cumprindo todas as práticas de piedade que desejava: orações diárias, leituras espirituais, devoções que antes faziam parte da minha rotina. Mas aos poucos compreendi que aquele tempo diante do berço podia ser também espaço de oração. Cada passo no corredor escuro, cada canção improvisada, cada noite mal dormida tornava-se sacrifício oferecido. Transformei o embalo em mistério do terço, o silêncio em meditação, a renúncia ao sono em mortificação discreta. Descobri, ali, que cuidar da minha filha também era uma forma de caminhar para Deus.

O curioso é que essa aprendizagem começou a transbordar. No consultório, notei que o tom da minha voz mudou: mais pausado, menos ansioso em “resolver” e mais atento ao tempo de cada um. Em casa, percebi que minha esposa também se deixava educar por essa nova lógica: compartilhávamos as dificuldades, ríamos do caos, e aprendíamos juntos a transformar o cotidiano em lugar de cuidado mútuo e de fé vivida nas pequenas coisas.

Foi aí que percebi: educar em saúde não era algo restrito a protocolos ou aulas. Estava ali, no encontro entre vidas. Estava no momento em que a paciente ensinava o terapeuta, e o bebê ensinava o pai. Estava também no instante em que a oração se misturava com o choro noturno e a fé encontrava corpo no colo cansado.

Não foram slides, nem oficinas, nem discursos que me marcaram mais. Foi o olhar cansado de Clara encontrando um espaço para respirar. Foi a madrugada em que, embalando minha filha, entendi que o cuidado também me transformava — como profissional, como homem e como cristão.

Desde então, quando entro no consultório, não penso apenas em tratar — penso em aprender. Porque cada história que me é confiada é também uma escola. E cada vínculo que construo com meus pacientes, com minha família e com Deus é, em si, um ato silencioso de educação — uma educação que atravessa o corpo, a alma e a vida inteira.

Texto escrito para a disciplina de Educação na Saúde do Mestrado de Saúde Coletiva da Unesc, que estou fazendo.


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