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Feirinha da Beira Mar — Nem toda feira é feita pra gringo

Localizada no polo turístico da cidade, a feira que funciona de domingo a domingo chama a atenção dos turistas, mas nem tanto dos moradores

Mario Henrique Lima · 2024-05-14 19:22 · 50 claps · 6.5 min read
#reportagem #fortaleza #unifor #jornalismo-cultural
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Wiki topics: CUL · Culture & Media

Feirinha da Beira Mar: Um Mergulho na Cultura, na Identidade e no Empreendedorismo Feminino

por Clarice Queiroga, Heron Enzo e Mario Henrique Lima

Claudiene é vendedora da feirinha há mais de 10 anos / Crédito: Clarice Queiroga

Claudiene é vendedora da feirinha há mais de 10 anos / Crédito: Clarice Queiroga

Entre a brisa do mar, vendedores chamando a atenção entoam as tardes e noites da Beira Mar. Turistas, em sua maioria, e moradores, se perdem nos corredores aromáticos com cheiro de cocada e castanha e produtos inusitados como cachaças com animais dentro e roupas de banho.

A Feirinha da Beira Mar, de “inha” não tem nada, possui 712 boxes de produtos regionais que oferecem uma vasta gama de produtos, desde artesanatos típicos da região, como redes, rendas, peças de cerâmica e bordados, até lembranças tradicionais, como chaveiros, camisetas e objetos de decoração. Além de incluir uma variedade de pratos e doces típicos cearenses que proporcionam uma imersão na cultura cearense.

Foi reformada organizando os feirantes em boxes físicos, sem ter que precisar montar e desmontar todas as noites, como ocorria anteriormente. A feirinha da Beira-Mar é uma das muitas feiras que acontecem pelos bairros de Fortaleza, mas por estar no coração da cidade do lado turístico, é sucesso para todos: os que compram e os que vendem.

Empreendedorismo feminino e a venda dos produtos regionais

O empreendedorismo feminino é uma força transformadora que se entrelaça de maneira única com a riqueza cultural e a identidade regional, especialmente no contexto cearense. A mistura singular, as mulheres empreendedoras não apenas preservam e valorizam a cultura local, mas também impulsionam sua evolução e expansão por meio de produtos e iniciativas inovadoras.

Cearenses aproveitam os boxes para comprar e conhecer mais a cultura cearense / Crédito: Clarice Queiroga

Cearenses aproveitam os boxes para comprar e conhecer mais a cultura cearense / Crédito: Clarice Queiroga

No coração do Ceará, a cultura é uma força vital, permeando cada aspecto da vida cotidiana. Desde as tradições culinárias até as expressões artísticas, passando pela música, dança e artesanato, a cultura regional é uma fonte inesgotável de inspiração e identidade. E é nesse cenário que as mulheres empreendedoras encontram seu espaço para brilhar.

São os casos das feirantes Claudenia Almeida, Zilene Trajano, Elane Fernanda e Ana Letícia Firmino. Todas são vendedoras da feirinha da Beira-mar e os principais produtos dos seus boxes são culturais.

Para Claudenia Almeida, trabalhadora da feira há 10 anos e comerciante de cocada, castanha e cachaça, a proposta da feirinha é conectar a regionalidade com os turistas, e tanto como os moradores locais. “A maioria não conhece a feirinha, acho que só pessoas de fora tem conhecimento da cidade. Tem pessoas que vêm do outro lado do mundo para conhecer nossa terra e a gente não conhece a própria cidade”, afirmou a feirante.

Zilene Trajano, vendedora de diversos tipos de panos, está há 35 anos trabalhando com a mesma mercadoria na beira mar. “Fiquei no lugar do meu ex-esposo que faleceu. Trabalhei há mais de 35 anos aqui com a mesma mercadoria. Venho de segunda a sábado. O meu produto é feito à mão e industrializado”, disse.

Elane Fernanda é outra feirante entrevistada que trabalha na feira há três anos. Ela e o marido vieram do Pará e começaram a vender produtos na feira. Apesar do novo espaço de vendas, Elane diz que teve uma queda de vendas quando mudou de local. Mas, reconhece, “eu prefiro a estrutura de agora, porque a outra a gente tinha que chegar, montar, dava mais trabalho. Hoje é só abrir a porta e expor os produtos, que ficam guardadinhos aqui dentro”.

Para Ana Letícia Firmino, estudante e feirante, em alguns pontos da feirinha a gente pode mostrar um pouco mais do vigor nordestino. “Alguns dos trabalhos que a gente faz normalmente com materiais tipicamente cearenses, ou quando a gente tem as blusas com as nossas frases do “cearensês”,do nosso linguajar popular. Pode ser um dos pontos onde os turistas conseguem sim ter um pouco mais de conhecimento da cultura nordestina”, comentou.

Cearenses e turistas são agraciados com a cultura e o artesanato da feirinha / Crédito: Clarice Queiroga

Cearenses e turistas são agraciados com a cultura e o artesanato da feirinha / Crédito: Clarice Queiroga

Um cheiro de castanha sobe no ar e vemos um box que vende comidas regionais. Claudenia Almeida nos recebe com um sorriso no rosto e diz que já trabalha na Beira-Mar há dez anos. “Muita coisa mudou”, diz ela ao tentar justificar a baixa de vendas no mês de maio.

As feirantes entrevistadas comentam quase sempre a mesma coisa em relação ao movimento da feira. Dezembro, janeiro, datas próximas ao Carnaval e os meses das férias sempre são os meses mais intensos. Já em maio, quando essa reportagem foi feita, as vendas são lentas.

Perguntamos sobre o que ela mais gostava da feira, “Atendimento ao público. Contato com as pessoas. É, eu amo. Conversar. Conversar. E principalmente como eu passei por um período de depressão, ansiedade, isso me ajudou bastante, entendeu? Aí assim, claro que é muito bom ganhar o dinheiro, mas essa parte me ajuda muito”.

Portanto, ao passear pela Feirinha da Beira Mar, entre cocadas, castanhas e artesanatos locais, os visitantes não apenas experimentam os sabores e cores da cultura cearense, mas também testemunham o espírito empreendedor e a resiliência das mulheres que tornam esse cenário possível.

A importância do empreendedorismo feminino

Existem aproximadamente 9,3 milhões de empreendedoras no Brasil, o que corresponde a 34% dos donos de um negócio no país. Os dados são do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Para Welynádia Rodrigues, professora do curso de Ciências Contábeis da Unifor, o empreendedorismo feminino é de vital importância para o mercado de trabalho e a economia.

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“A gente vê sim a atuação da mulher com a sua importância, força, relevância e principalmente nessa conjuntura que é para dar visão sistêmica quando a gente pensa em sociedade, cultura, em todo o contexto econômico em que a mulher está inserida e todos os viés que ela consegue alcançar”, disse Rodrigues.

Welynádia acrescenta que o empreendedorismo tem um papel fundamental na circulação da troca econômica em que mexe com o mercado gerando mais renda e empregos que são ofertados.

“O papel do empreendedorismo feminino local na criação de empregos e diminuição do desemprego, a troca que existe dentro de um viés econômico atrelado com o ato de empreender, abre possibilidades de alcance, para que possa gerar renda”, explica.

Conforme a professora do curso de Ciências Econômicas da Unifor, Isadora Osterno, o empreendedorismo local diminui as desigualdades econômicas ao se desenvolver em regiões menos favorecidas.

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“Quando as pessoas abrem seus negócios nas comunidades, elas precisam contratar mais funcionários, o que gera mais vagas de trabalho na região. Isso gera um crescimento positivo nas economias locais. Com mais postos de trabalho, o desemprego, obviamente, é reduzido, pois oferece oportunidades para as pessoas melhorarem a renda e melhorarem a qualidade de vida”, disse.

Já para Renata Torquato, professora do curso de Administração da Unifor, o empreendedorismo tem um papel muito importante porque consegue gerar empregos e consegue por meio das oportunidades, trazer um novo cenário, uma nova realidade para as famílias e, consequentemente, para a sociedade.

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“O empreendedorismo de impacto social é capaz de mudar a realidade de uma sociedade. Consegue diminuir as desigualdades entre os gêneros, traz mais oportunidades para as mulheres, coloca em cargos de liderança, traz a tecnologia como um aliado das mulheres que estão tentando se destacar. Então, tudo isso junto é capaz de realmente contribuir para reduzir as desigualdades econômicas de uma sociedade”, ressalta.

Reestruturação da feirinha

Em 2022, a feirinha da Beira-Mar passou a funcionar em sua nova estrutura. Com a requalificação realizada pela Prefeitura de Fortaleza, o equipamento foi totalmente planejado para oferecer mais conforto e comodidade aos visitantes, bem como aos permissionários que comercializam no espaço.

A feirinha ganhou mais de 700 boxes distribuídos em mais de 8 mil metros quadrados de área totalmente urbanizada e acessível, passando a funcionar em novo horário: das 16h às 22h, de domingo a domingo. As intervenções permitiram uma melhor acomodação dos comerciantes que, pela primeira vez, terão infraestrutura adequada para venda de artesanatos, roupas, acessórios, pinturas, produtos em crochê e renda e itens locais.

A feirinha conta com mais de 700 boxes distribuídos em cerca de 8 mil metros quadrados de área / Crédito: Clarice Queiroga

A feirinha conta com mais de 700 boxes distribuídos em cerca de 8 mil metros quadrados de área / Crédito: Clarice Queiroga

As intervenções realizadas na feirinha foram realizadas pela Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf), em diálogo com a Associação dos Feirantes de Artesanato da Beira-Mar (Asfabem), com apoio da Secretaria da Gestão Regional (Seger), por meio da Secretaria Executiva Regional 2.

O espaço recebeu piso em concreto, estrutura metálica com acabamentos em ACM perfurados, porta de rolar e sombreamento feito por meio de lonas tensionadas, que permitem o funcionamento da feirinha também durante o período da tarde, além de uma central para quadros de energia e caixas eletrônicos.

Sobre a Feira

No início dos anos 80, na calçada do Othon Palace Hotel, conhecido atualmente como Oásis Atlântico Imperial. Ali, os artesãos locais iniciaram suas atividades, vendendo artesanatos aos turistas hospedados na região. A partir desta iniciativa, batizaram de Feira de Artesanato da Volta da Jurema e mais tarde ficou conhecida como Feira de Artesanato da Beira Mar.

A contribuição da feira para o desenvolvimento do turismo local e a geração de empregos não podiam ser ignoradas. Em reconhecimento a esse legado cultural e econômico, a Feira de Artesanato da Beira Mar foi oficialmente tombada como Patrimônio Cultural do Município de Fortaleza.

Desde então, a feira tornou-se um marco da cidade, atraindo tanto moradores quanto turistas que buscam uma experiência autêntica da cultura cearense. Suas bancas coloridas e animadas não são apenas pontos de venda, mas também pontos de encontro, onde histórias são compartilhadas e laços são formados.


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