Estrangeiros no próprio país
Hoje é o 203º ano de independência do Brasil, mas ontem foi o primeiro dia em que percebi que, para alguns, talvez eu e a minha comunidade…
Estrangeiros no próprio país

Hoje é o 203º ano de independência do Brasil, mas ontem foi o primeiro dia em que percebi que, para alguns, talvez eu e a minha comunidade não sejamos tão brasileiros assim. A cobrança feita na última sexta-feira pelo presidente Lula à comunidade judaica brasileira, falando em um envio de uma carta ao governo israelense, é completamente descabida e ofensiva.
A comunidade judaica brasileira não é responsável pelo que acontece em Israel, assim como as comunidades de árabes e muçulmanos no Brasil não são responsáveis pelos atos de grupos e governantes na Palestina, Síria, Líbia, Iraque, Iêmen, Marrocos, Irã, Paquistão, Afeganistão, Turquia ou Indonésia. Acaso a comunidade russa brasileira é responsável pela guerra contra a Ucrânia? Se um mero cidadão não tem agência direta sobre o que acontece em seu país, que dirá em outro, ainda que existam laços históricos e culturais que o vinculem a tal Estado.
Ao exigir da comunidade judaica uma manifestação direcionada ao governo Netanyahu, o presidente Lula se exime de representar os judeus brasileiros, apesar de ser a autoridade máxima do país. A Constituição Federal de 1988 preconiza que a condução e prática das relações internacionais devem ser feitas pelo presidente da República e o Ministério de Relações Exteriores. Lula coloca judias e judeus do Brasil como estrangeiros que têm responsabilidade sobre Israel, e não cumpre com o que disse em sua posse, que seria o presidente de todos os brasileiros. O presidente e representante dos judeus brasileiros perante o mundo é Luiz Inácio Lula da Silva, não Benjamin Netanyahu.
A comunidade judaica brasileira, como qualquer outra, não é uniforme e seus integrantes não são plenamente representados pelas entidades organizativas. Se o presidente Lula tem divergências com parte das lideranças comunitárias, que saiba separar e fazer o embate no campo das ideias da forma correta, sem culpabilizar todo um povo como tem feito.
Uma pergunta que ressoa há muito tempo: por que o presidente não aceita receber os mais diversos representantes da comunidade judaica? Por que, ao mesmo tempo, a ataca, o que não o faz com outras comunidades?
O nacionalismo recém e convenientemente desperto do campo progressista brasileiro, assim como todos os nacionalismos, precisa de ao menos um inimigo para se sustentar, seja interno ou externo. Ao que parece, o governo atual vê na comunidade judaica o espantalho perfeito, por buscar retratá-la como a massa estrangeira que ameaça o Brasil internamente, o que não passa de um tropo antissemita, além de evocar outro tropo, o da dupla lealdade.
Ambos os tropos foram estão presentes no infame Protocolos dos Sábios de Sião e serviram em diversos momentos para perseguir populações judaicas. O Império Russo, a Alemanha Nazista, a Espanha Franquista, a União Soviética, a Hungria Socialista são alguns exemplos do uso da figura do judeu infiltrado, que sabota o país, como agente estrangeiro. Mais recentemente o Irã também lançou mão desse artifício para perseguir centenas de judeus iranianos após a guerra contra Israel.
“O Brasil é dos brasileiros” é um slogan muito infeliz, que exala chauvinismo e exclui os estrangeiros que vivem em nosso país e ajudam a construí-lo diariamente. É um mote que ignora a diversidade secular do Brasil e a sua história, além de permitir que seja feita uma definição arbitrária e perigosa de quem é e quem não é brasileiro. Há povos indígenas, por exemplo, que não se consideram brasileiros nesse sentido diminutivo e estrito. Serão eles menos brasileiros que os demais?
Defender a soberania e os interesses nacionais é legitimo e necessário, porém exige responsabilidade e implica em proteger e defender toda a população brasileira. Talvez a “comunidade judaica brasileira” deva sim escrever uma carta, só que para o presidente do Brasil, com questionamentos sobre a grave situação que os povos indígenas e quilombolas enfrentam em nosso país; as inúmeras ameaças ambientais existentes, como a representada pela exploração de petróleo na foz do rio Amazonas; os ataques que minorias religiosas, inclusive judeus, sofrem constantemente; a presença de grupos terroristas em nossas fronteiras e suas ligações com traficantes de drogas, armas e pessoas que atuam no Brasil; entre tantos outros problemas que nos afetam.
메타데이터
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