A Caixa (parte 4 —final)
Comédia mini-séria em quatro partes
A Caixa (parte 4 — final)
Comédia mini-séria em quatro partes
(Capítulos anteriores: Parte 1 Parte 2 Parte 3 )

VIII.
Depois de levar o filho e a sogra em casa, e sem chance de encontrar com a ex-mulher para tentar explicar sua versão da história, restou a Pedro passar na panificadora e comprar algumas caixas de cerveja, que fariam companhia às pilhas e à garrafa d´água na geladeira por muito pouco tempo.
Tomou um banho bem quente, tentando esquecer do vexame daquele dia.
Sentou na sala, ainda sem se enxugar do banho, e começou a enxugar as latinhas por dentro. Era fraco, e em menos de cinco minutos já estava completamente bêbado.
Olhou para a caixa fechada, no canto da sala. A caixa do Alcebíades.
Tomado por uma superstição irracional, veio à sua mente uma certeza.
Aquela caixa dava um azar do cacete.
IX.
Desceu pelo elevador, tarde da noite, até a garagem no subsolo do edifício, cambaleando não só pelo peso da caixa. Sentia-se um verdadeiro super-herói, capaz de carregar o mundo nos ombros, ou ao menos capaz de dar um fim a aquela maldição. Abriu a saída de serviço e esgueirou-se até o terreno baldio que ficava ao lado do prédio. Sem ninguém por perto, aproveitou a escuridão para atirar o objeto bem longe, no meio do mato. Pronto. Estava feito.
Satisfeito em se livrar do problema, decidiu celebrar, acendendo um cigarro; mas estava tão embriagado que a chama dançava na sua frente, e ele não conseguia acertar a ponta certa com o fósforo. Queimou os dedos e o filtro. Com aquele gosto ruim na boca, jogou tudo fora, inclusive a carteira quase cheia, e prometeu a si mesmo parar de fumar a partir daquele momento, pelo bem do seu filho. Já era tarde. Subiu até o apartamento, satisfeito por ter salvo o dia, e apagou no sofá.
X.
Ao acordar no dia seguinte, no meio da tarde e ainda de ressaca, sentiu as consequências batendo à sua porta. Mais exatamente, passando por debaixo dela: dois papéis, um com a multa lavrada pelo síndico do condomínio, em razão do lixo depositado em lugar indevido. E o outro, com a intimação policial para prestar esclarecimentos sobre o fato causador da multa e suas consequências. Abriu a cortina e espiou o terreno baldio: não havia mais nada lá. Nada mesmo. Só fumaça. O incêndio do cigarro mal aceso consumiu tanto o matagal quanto a caixa e seu conteúdo. Apesar do prejuízo, considerou tudo um preço baixo a pagar para se livrar daquela caixa de Pandora.
XI.
Uma semana, dez dias se passaram. Pedro também se livrou de todas as outras caixas que estavam atravancando o apartamento — com o cuidado, dessa vez, de usar a lixeira reciclável do condomínio. Instalou prateleiras para os livros, comprou um armário de três portas, televisão, uma cama de solteiro e o colchão para o quarto de hóspedes. Tudo pronto para receber Pedrinho. Já estava descendo para buscar o menino quando o elevador parou no terceiro andar. A porta se abriu e por ela entrou um homem desconhecido, de meia idade. Olhou para Pedro com surpresa e incredulidade, e perguntou, à queima-roupa:
— Pô, você é irmão do Alcebíades? É a cara dele!
— Aí eu não sei, só se for por parte de pai. Porque, pra mim, esse Alcebíades deve ser um grande filho da puta…
(FIM)
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