“uma explosão que depois vai ser trabalhada, mas que é sempre explosão” entrevista com Luciana…
série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau em Portugal
“uma explosão que depois vai ser trabalhada, mas que é sempre explosão” entrevista com Luciana Soares
série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau em Portugal

Luciana Soares (1985)
O que é a poesia para ti?
Poesia pra mim é alguma coisa que escapa, que a gente tenta apanhar e prender nas palavras, mas que de alguma forma sempre foge… E acho que essa é a beleza e o mistério da coisa, esse excesso que a linguagem nunca alcança, mas do qual a gente consegue ter um vislumbre, um cheiro. E acredito que isso está sobretudo nas pequenas coisas, a poesia num sentido Manoel de Barros: o pequeno, o inútil, o aparentemente banal. Acho que este meu novo livro vai por aí, de tentar entender através das palavras o espanto com uma coisa tão corriqueira, mas igualmente tremenda, que é gerar e parir uma pessoa, alimentá-la com o próprio corpo.
O teu poema nasce de repente, como algo que golpeia e surge de forma explosiva e rápida, ou é um processo mais pausado e demorado?
“Golpeia” é a palavra perfeita! Pra mim o poema vem mesmo assim, de repente, uma explosão que depois vai ser trabalhada, mas que é sempre explosão. É engraçado mesmo, porque tem poemas que me vêm quase prontos, como se eu fosse possuída por eles, e pronto, tenho a urgência de pegar algo e escrever aquilo. Principalmente neste “tudo que colhi no fundo do mar” isso foi ainda forte. Acho que a intensidade dos sentimentos (e as noites em claro com uma bebê!) contribuiu pra isso.
Nos últimos anos, tivemos uma série de acontecimentos em Portugal (as crises económica, habitacionais, ascensão da extrema-direita e dos discursos de ódio) e também uma maior visibilidade dos movimentos de luta social (feminista, LGBTQIA+, pró-Palestina, antirracista…) — isso repercute-se na tua criação literária?
Com certeza. Ainda que de forma indireta, acho que influencia demais. A não ser que a pessoa viva numa bolha ou não tenha coração (e aparentemente há quem não tenha, risos), penso que é impossível que quem cria não seja impactado de alguma maneira por essas coisas, pelo espírito do tempo. No meu caso, sou muito movida por afetos fortes (amor, raiva, indignação) e tenho muita ligação com temas sociais, então isso é uma mistura que inevitavelmente vai aparecer na escrita. Ao escrever sobre o que é ser mulher, imigrante e mãe no atual contexto português, foi difícil não ser tocada por esta realidade política. Por mais que eu tenha pensado em escrever um livro de amor e encantamento, foi impossível não ter um ou outro poema mais raivoso com tudo isso.
Quais são as/os poetas da atualidade, vivas/os, que mais te tocam neste momento?
Já há algum tempo tenho olhado muito pra escrita de mulheres. Gosto muito da Mar Becker, da Natasha Felix e da Luiza Romão, e nessas duas últimas gosto imenso de como fazem um casamento maravilhoso entre palavra escrita e falada. Mas ando mesmo obcecada é pela Adelaide Ivanova. Tudo, tudo, tudo que ela escreve me interessa. Acho genial a forma como é contemporânea e politizada, e ao mesmo tempo fala de temas atemporais, com uma mistura perfeita de humor, inteligência e beleza. O Asma, dela é inspirador demais!

Tudo que colhi no fundo do mar (Urutau, 2026)
O teu livro, Tudo que colhi no fundo do mar, como surgiu?
Surgiu em madrugadas insones, amamentando, numa mistura de amor absurdo com a sensação de que eu poderia enlouquecer a qualquer minuto. Lembro do exato momento em que surgiu o primeiro poema, assim, num entorpecimento de amor e cansaço. Gosto de dizer que esse é um livro de amor pela minha filha, porque é assim que o imaginei no começo. Mas à medida que os poemas nasciam, acho que foi se tornando outra coisa… porque fala dela, mas fala também de mim e de algo muito maior que eu e ela: a maternidade como algo ancestral e profundo, um mergulho no fundo de um mar sem fundo. Então penso também que é um livro que surge do encantamento com o processo de gestar e parir. Esperar um tempo que não se sabe qual é por uma pessoa que não se sabe quem é, ter temporariamente dois corações batendo dentro de mim, criar um órgão novo que só dura o tempo de uma gravidez, parir (que é a experiência enteógena mais forte do mundo), alimentar alguém do meu próprio corpo com um líquido feito de células vivas, tentar decifrar os sons, cheiros e olhares de uma nova pessoa, saber que ela saiu de mim, mas é radicalmente outra… Isso é tudo tão banal, porque pessoas parem e nascem o tempo todo, todos os dias. E ao mesmo tempo é absolutamente misterioso e mágico, por isso falo de encantamento. Depois de parir eu só pensava: “meu deus, como pode o mundo estar encantado com a IA quando a gente consegue fazer ISSO!?” É uma transformação imensa do corpo e da cabeça, e eu quis tentar traduzir isso em palavras.
Qual é o teu verso favorito do livro? Há alguma explicação para isso?
“o mundo dorme
indiferente ao
milagre
de inventarmos
uma língua láctea
que só nós duas
entendemos”
Tenho imenso afeto por este verso. Estava tão cansada quando o escrevi, numa madrugada a amamentar. Sentia-me tão só, tão abandonada num trabalho tão importante, e ao mesmo tempo sabia da beleza espantosa do que estava fazendo, alimentando alguém e criando um laço único no mundo, uma língua que só naquele momento e por aquelas duas pessoas poderia ser entendida. No fundo, uma espécie de incredulidade com o fato de que as pessoas que amamentam deviam ser tratadas como deusas (risos) e não o são.
Como conheceste a Editora Urutau?
Conheci logo que cheguei a Portugal, em 2018, com um livro da Maria Giulia Pinheiro. Estava no auge da minha paixão por poesia, então fui conhecendo e comprando mais e mais livros (tenho uma bela coleção da Urutau, risos). Depois publiquei coisas pela editora, também. Acho incrível o trabalho que fazem em publicar autores novos, em realmente abrir espaço pra quem está começando, com esse olhar pras pontes entre Brasil e Portugal. Acho que há muita troca poética possível, entre os países falantes de português, pra além destes dois.
Luciana Soares
É poeta por fome do espírito. Autora de Poesias mareadas (Urutau, 2020), participa nas antologias Volta para tua terra (Urutau, 2021 e 2024) e Epistolária: cartas para a desobediência, a beleza e o fim (Urutau, 2022). Vive em Queluz, onde pariu e cria a filha a quem dedica este livro, inventa a si mesma e brinca com as palavras.
메타데이터
- post_id
- 97f83f66cc2d
- slug
- uma-explosão-que-depois-vai-ser-trabalhada-mas-que-é-sempre-explosão-entrevista-com-luciana-97f83f66cc2d
- url
- https://medium.com/@editoraurutau/uma-explos%C3%A3o-que-depois-vai-ser-trabalhada-mas-que-%C3%A9-sempre-explos%C3%A3o-entrevista-com-luciana-97f83f66cc2d
- canonical_url
- https://medium.com/@editoraurutau/uma-explos%C3%A3o-que-depois-vai-ser-trabalhada-mas-que-%C3%A9-sempre-explos%C3%A3o-entrevista-com-luciana-97f83f66cc2d
- author_url
- https://medium.com/@editoraurutau
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-27 05:39:41