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Os argumentos teístas e suas refutações

1. Introdução

MK · 2026-04-16 00:25 · 0 claps · 22.1 min read
#religiao #filosofia
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Os argumentos teístas e suas refutações

1. Introdução

A discussão sobre a existência ou não de deus tem sido um tema de particular interesse para mim ao longo dos últimos anos, através dos quais li e pesquisei bastante, aprendendo muito — embora, nem de longe, de maneira a esgotar este assunto, que pode ser tão complexo e vasto — até chegar ao ateísmo.

Com o interesse de, primeiro, facilitar a minha própria integração desses conhecimentos e, segundo, facilitar a vida de quem queira se introduzir e se familiarizar com este tema, pensei em reunir todos (ou quase) os argumentos principais usados ao longo da história e até o presente para a defesa de deus, e as respectivas refutações que lhes seguem.

Antes de mais nada, é preciso fazer algumas pontuações relevantes.

Primeiro: que ateísmo não significa crença na descrença.

No senso comum, reina a percepção errônea de que o ateu é aquele que “acredita que não há deus”, o que é um equívoco. Em termos da etimologia do termo, ateu significa, literalmente, ausência de crença em deus. Portanto, não “crença na inexistência”. Há uma diferença fundamental que não pode ser ignorada.

Até há, na filosofia, uma distinção entre “ateísmo forte” e “ateísmo fraco”, sendo o primeiro aquele que ativamente defende a inexistência de deus. Mas, pessoalmente, considero uma posição problemática. Parece-me muito mais coerente preservar o estado natural de ausência de crença em deus enquanto o inverso não é demonstrado, do que se tornar um porta-voz da tese da inexistência. Enquanto sua existência não for provada e todas as evidências disponíveis apontarem contra ela, não há razão suficiente para adotá-la. Portanto, a-theos.

Segundo: que o ônus da prova recai sobre quem afirma.

De igual maneira, seria inapropriado, como se nota nos cenários hodiernos, exigir ao ateu que prove a inexistência de deus. Trata-se de uma inversão completa. Naturalmente, é sobre quem afirma a existência dele que se incumbe o ônus de prová-la, não o contrário. Assim foi que, ao longo da história da humanidade, diferentes tipos de tentativas de provas foram sendo produzidas e utilizadas.

Com isto em mente, podemos analisar essas tentativas de prova e as suas falhas, não no sentido de “provar inexistência”, mas de notar que não dão conta de satisfazer seu propósito — advogar pela existência de deus — , de modo que quem não possui a crença termina permanecendo sem ela, exatamente como quando veio ao mundo.

Os tipos de argumentos podem ser divididos em 2 grandes grupos: aqueles que não recorrem à empiria, à experiência, e lançam mão exclusivamente da razão em seu intento; e aqueles que fazem uso da experiência.

2. Argumentos a priori

Os a priori são aqueles que, como dito acima, tentam provar a existência de deus usando apenas lógica e razão, sem recorrer ao mundo material, às experiências.

Nesta categoria, o argumento mais famoso e central é o “argumento ontológico” de Anselmo de Aosta, que diz o seguinte:

Por definição, Deus é um ser maior do que o qual nada pode ser imaginado.

Um ser que existe necessariamente na realidade é maior do que um ser que não existe necessariamente.

Assim, por definição, se Deus existe como uma ideia na mente, mas não existe necessariamente na realidade, então podemos imaginar algo que é maior que Deus.

Mas não podemos imaginar algo que seja maior que Deus.

Assim, se Deus existe na mente como uma ideia, então Deus existe necessariamente na realidade.

Deus existe na mente como uma ideia.

Portanto, Deus existe necessariamente na realidade.¹

O que Anselmo está dizendo é: se eu imagino deus, um ser absoluto e supremo, logicamente ele tem que existir pois, se não o fizesse, isto seria contraditório à própria definição dele, já que um ser apenas imaginado não é maior do que um que exista no mundo real. Logo, tem que existir.

Mas este argumento tem 2 furos óbvios.

Primeiro: mesmo que assumamos que esteja correto, ele não prova a existência do deus cristão ou de outra religião específica, com todas as suas características bem marcadas, mas, no máximo, de um deus totalmente abstrato.

Segundo: apenas imaginar algo torna essa coisa existente? É óbvio, para qualquer pessoa com são juízo, que não. O que Anselmo — e quem mais tenha utilizado, e tentado aprimorar, este argumento, como René Descartes — está fazendo é, basicamente, construir um jogo de palavras lógico em que, necessariamente, eles têm que sair com a vitória no final, como um jogo com as regras alteradas para sempre dar a vitória para um dos jogadores. Entretanto, o mundo real não se dobra a um mero jogo de palavras. Apenas pegar o conceito deus, dizer que ele é a coisa da qual nada maior pode ser pensada e que, portanto, tem que existir na realidade (para não entrar em contradição com o conceito) não o torna existente de fato.

Immanuel Kant, na Crítica da Razão Pura, argumenta justamente que a existência não é um predicado real: isto é, que dizer que algo (um conceito) tem a existência como atributo não o altera qualitativamente em nada, diferentemente de dizer algo como “bom” ou “ruim”. Por isso, segundo ele, ao adicionar a “existência” como um predicado desse ser absolutamente perfeito, o argumento falha no seu propósito.

Indo mais a fundo, Kant diz ainda que deduzir do conceito “ser perfeito” a sua necessária existência se torna um erro porque:

  1. “Existência real” não é algo contido dentro do conceito de “ser perfeito”, como o argumento ontológico tenta deduzir. Tal conceito pode incluir perfeitamente atributos como onipotência, onisciência e onipresença, atemporalidade, mas não a existência — esta precisa ser “adicionada” por fora. E disto se segue o seguinte.
  2. Afirmar a existência real depende de um juízo sintético, isto é, uma afirmação que acrescenta algo ao conceito do sujeito, conectando-o a algo que não está contido nele, e que o relaciona com a realidade — o que não pode ser obtido por via puramente a priori, como pretende o argumento ontológico.

De forma resumida: conceber algo logicamente dentro da sua cabeça não a torna existente no mundo real.

E sejamos sinceros? Por que tamanha volta pra demonstrar a existência de um ser onipotente e onipresente? Não era possível ser mais fácil? A contradição é gritante.

3. Argumentos a posteriori

Se a falta de base empírica se tornava um obstáculo — argumentativo e, parece-me, de persuasão — para o argumento ontológico, os de tipo a posteriori sofreram menos neste quesito.

De fato, é muito mais fácil convencer alguém sobre a existência de deus — não necessariamente o das religiões abraâmicas, mas que seja atemporal, onisciente, onipotente e onipresente — partindo da observação admirada da vida e do universo e da suposta necessidade imperativa de que somente alguém de ordem superior e transcendente poderia fazer possível tudo isso. É precisamente o que esses argumentos tentam.

3.1 Causa primeira

Foi proposto por diversos pensadores, em diferentes épocas e locais, que há de haver algo que opera não como algo que deu um “start” no movimento de todas as coisas, mas como aquilo que as move continuamente, atraindo-as como seu fim.

Aristóteles propôs uma “causa primeira”, ou “motor imóvel”. A ideia é que tudo o que está em movimento é movido por algo, mas se argumenta que esta cadeia não pode se estender indefinidamente do mesmo modo, sendo necessário um princípio que mova sem ser movido. Não se trata de um início temporal do mundo ou da vida, mas um fundamento eterno do movimento, que não depende de nada anterior para existir.

Esta formulação serviu de base para diversos argumentos posteriormente classificados como “cosmológicos”, que buscam explicar a existência ou a causalidade do mundo. Tomás de Aquino, nas “Cinco Vias”, desenvolve essa tradição em chave claramente aristotélica. Já autores contemporâneos como William Lane Craig, ao defender o argumento cosmológico kalam, apresentam uma formulação distinta, centrada na ideia de um início temporal do universo.

Diz Aquino:

1 — Via do Movimento: Baseia-se no fato de que tudo o que se move é movido por algo. É claro e evidente que existe algo no mundo que é movido. Isso leva à necessidade de um “primeiro motor imóvel”, que seria Deus.

2 — Via da Causa Eficiente: Observa que todas as coisas têm uma causa e que não é possível um regresso infinito de causas. Assim, deve haver uma “causa primeira incausada”, que é Deus.

3 — Via da Contingência e Necessidade: Aponta que as coisas no mundo são contingentes (podem ou não existir). Para que algo exista, deve haver um ser necessário que não dependa de nada, que seria Deus. Deus chama à existência “ex nihilo”, isto é, “do nada”.²

Enquanto Craig argumenta o seguinte:

Tudo o que começa a existir tem uma causa.

O universo começou a existir.

A causa do universo existir é Deus.³

A estrutura que subjaz à 1ª via — a distinção entre “ato” e “potência” e a ideia de que tudo o que se move é movido por outro — não é algo empiricamente evidente, senão uma herança metafísica de Aristóteles. A física moderna descreve o movimento por meio de leis impessoais, como a inércia e a gravidade, sem recorrer a finalidades ou a um “motor” que atraia os entes como seu fim. Se o movimento pode ser explicado por relações entre estados físicos e leis naturais, a introdução de um “ato puro” como fundamento último se torna uma hipótese metafísica adicional e desnecessária. Essa lógica aristotélica não é uma realidade dada, portanto algo passível de questionamento. Igualmente, a distinção entre causalidade “acidental (per accidents)” e “temporal (per se)” é totalmente uma hipótese metafísica desnecessária e não demonstrada. E justamente neste sentido, ao questionar as referidas distinções e postular o movimento como atributo imanente da matéria e as interações recíprocas como uma lei impessoal, o argumento perde toda a validade e força. Em outras palavras, a causalidade é recíproca e simultânea, sem “ato” e “potência” nem distinção hierárquica entre “per accidens” nem “per se”

Ademais, este tipo de argumento tem dois grandes furos:

Primeiro: pressupor que é necessário um primeiro começo e que a regressão ao infinito é logicamente impossível no tipo de relação causal considerado — de cadeia de dependência simultânea entre causas. Esta premissa não é uma verdade lógica ou matemática evidente, mas uma tese metafísica sem a devida demonstração necessária para que se possa acreditá-la.

Mas, antes, o que seria “metafísica”? Em termos simples, trata-se de um campo da Filosofia que lida com questões que vão além da experiência direta e da verificação empírica, como a natureza do ser, da existência ou do que estaria “por trás” da realidade física. Diferentemente das ciências, que se apoiam na observação e na experimentação, a metafísica opera sobretudo no plano conceitual e especulativo, buscando fundamentos últimos para aquilo que existe.

No caso da tese em questão, não está claro por que uma tal regressão seria impossível no caso específico, sendo mais assumido do que propriamente demonstrado. Portanto, afirmar que a cadeia de causas precisa ter um início não passa de uma intuição metafísica, não de uma demonstração factual.

Kant, ainda na mesma obra, argumenta que o princípio da causalidade só tem sentido dentro do mundo das experiências, aqui onde vivemos, e que, portanto, tentar estendê-lo para além do universo como um todo a fim de concluir uma “causa primeira” seria uma extrapolação indevida. Neste mesmo sentido, diria que tentar intuir sobre a existência ou não desta primeira causa seria algo chamado de “antinomia da razão” — isto é, um ponto em que, devido aos limites da própria razão, não é possível chegar a uma conclusão concreta e tanto a defesa, quanto a refutação da tese, são igualmente plausíveis.

Nisso, penso ser possível concordar com Kant, mas não como uma impossibilidade intransponível intrínseca à razão, como ele defendeu; mas no sentido de que, devido a não determos, até o presente, conhecimento com total exatidão sobre a origem do universo, não ser possível afirmar nem negar com precisão sobre este ponto pela via única da razão sem cair na antinomia. Em outras palavras, enquanto ele coloca uma limitação própria da razão, insuperável, eu opto por condicionar esta limitação ao tempo. Isto não significa de forma alguma, entretanto, concluir a existência de deus — o que, como veremos a seguir, não seria nada além de um imenso, e conveniente, salto e um problema dez vezes maior do que o inicial.

Segundo: tomar deus como resolução da questão. Olhar para a extensão, complexidade e beleza do universo da vida e concluir a necessidade da existência de um criador externo, de uma causa ou um motor primeiro que não foi ele próprio causado, não resolve a questão. O argumento redefine seletivamente o escopo da causalidade para excluir deus, o que exige uma justificação que não é dada. Caso contrário, perde-se a validade.

É, do mesmo modo que em Anselmo acima, como criar um jogo com as regras alteradas para que você sempre vença no final. Se tudo tem que ter uma causa, o que te autoriza a dizer, convenientemente, que deus não tenha a sua? Em linhas gerais, resume-se a isto: conveniência. Seria necessário haver uma causa, um antecedente, zilhões de vezes maior do que o próprio universo para que o deus atemporal, onisciente, onipotente e onipresente que o criou pudesse existir. Portanto, o problema inicial não é resolvido, mas ampliado à enésima potência.

Entre recorrer a tal “solução” que não resolve, senão complexifica infinitesimalmente o problema, é mais prudente lançar mão de qualquer outra explicação mais parcimoniosa e com mais evidência, mesmo que pouca.

3.2 Design inteligente

Ainda partindo do espanto e admiração pela beleza da vida, alguns postulam que apenas um ser sumamente inteligente possa ter arquitetado tudo isso para ser belo e funcional do jeitinho que está. No entanto, tal raciocínio está fundamentado mais no sentimento desinformado do que na razão esclarecida, e é ao examiná-lo segundo esta que se revelam as suas falhas.

Pode-se dividir, para fins didáticos, este argumento em dois níveis:

  1. Astronômico: Toma o ordenamento e a dinâmica dos corpos celestes como evidência da existência de um designer inteligente que os tenha colocado lá intencionalmente com todo cuidado.
  2. Vital: Toma o ordenamento e a dinâmica das formas de vida como evidência da existência de um designer inteligente que as tenha criado, cada uma, com as condições necessárias para viver e se reproduzir sem problemas.

Em primeiro lugar, como no argumento anterior, assumir deus como explicação para a complexidade da vida não seria resolução alguma, mas um ponto final arbitrário e conveniente.

Em segundo lugar, a indução da existência de deus em ambos os casos não se sustenta à luz das explicações fornecidas pela física e pela biologia modernas. Isto porque elas lançam luz sobre aquilo que a pessoa indouta— e, modestamente, incluo-me entre elas, posto que não sou nenhum especialista nas duas ciências — acha que é expressão da máxima perfeição e acabamento, revelando as falhas, desperdícios e irracionalidades ignorados.

O universo é repleto de pontos contraditórios à vida e que até a ameaçam diretamente, como: buracos negros; galáxias se movendo em rota de colisão; radiação mortal no espaço etc.; para não falar do fato de a maior parte dele ser composta por planetas inóspitos, quando não é apenas vazio. A falar da nossa querida terra, ela também, dentro de cerca de 1 bilhão de anos, ver-se-á ameaçada pelo sol, além de estar sujeita a impactos de asteroides, supererupções vulcânicas, inversões do campo magnético, explosões de raios gama vindas de estrelas distantes etc.

A vida orgânica, também, segue a mesma lógica. Para citar alguns exemplos: o canal de parto humano é mal dimensionado, causando dores imensas e risco de morte materna; o apêndice não é muito mais que um órgão vestigial, que só serve para inflamar e matar; os dentes do siso, em sua maioria, não cabem na mandíbula, exigindo extração dolorosa; o sistema imunológico ataca o próprio corpo em doenças autoimunes; a coluna vertebral humana, imprópria para a postura ereta, é propensa a hérnias de disco, dores lombares crônicas e ciática; as mitocôndrias, centrais de energia da célula, produzem radicais livres que danificam o DNA, causam envelhecimento e câncer; etc. Ainda parece que tudo foi meticulosamente criado e colocado no seu respectivo lugar por um designer inteligente preocupado com a nossa vida?

Tudo isso, que vai de encontro direto à ideia de “criação perfeita por um designer inteligente”, são recordações de períodos passados e do longo processo evolutivo, esclarecidos novamente por Charles Darwin no século XIX. Com seus estudos, ele lançou luz sobre o fato de que a vida não surgiu do nada e pronta, tal como está hoje, mas veio passando por um longuíssimo processo de adaptação e evolução selecionada pelo ambiente, processo que, escusado seria dizer, segue em curso. É verdade, a acumulação gradual de pequenas variações, selecionadas de modo diferencial pelo ambiente, pode produzir a ilusão de um designer. Contudo, as contradições, falhas, os desperdícios, os órgãos vestigiais, os atalhos mal construídos etc. são marcas inequívocas da longa história evolutiva que põem em cheque a ideia de uma criação perfeita e acabada por um designer.

Aqui, por honestidade, preciso admitir a minha ignorância sobre o tema e fazer uma recomendação mais que necessária: Richard Dawkins, em seu livro “Deus, um delírio” e outros, explica estes temas em muito mais detalhe e profundidade do que eu poderia.

Ao se defrontar com este ponto e o anterior, qualquer teísta poderia lançar a carta “Então quer dizer que tudo surgiu do completo acaso?! Qual a chance disso?!”. É um pouco contraditório apontar a absurdidade da vida ter surgido ao acaso e, entrementes, convenientemente não fazê-lo com a ideia de deus. Mas o fato é que a vida não se deu por acaso: o que Darwin mostra é justamente o contrário — um processo longo de acumulação que culminou no que é agora, que será diferente do futuro, e assim sucessivamente.

Quanto à origem do universo, como dito anteriormente, (ainda) não é possível tecer afirmações com exatidão — o que, de novo, não se trata de uma evidência favorável a deus e nem uma permissão para atribui-la a ele. O fato de termos um universo aparentemente ajustado de modo fino para a nossa existência e desenvolvimento não é evidência de um designer, apesar de sua aparente improbabilidade. Dizer o contrário é ter a visão limitada ao próprio umbigo. O que diria um teísta sobre o fato de a esmagadoramente imensa maior parte do universo, que conhecemos, ser estéril e não ter vida? Teria o designer criado isto aqui e se aposentado logo em seguida? A hipótese mais parcimoniosa, e a que a ciência confirma a cada descoberta, é que não há design algum. O universo simplesmente é, e a vida surge onde as condições permitem, por processos cegos e materiais. Não há finalidade, não há garantias. Por mais que possa doer no nosso ego ouvir isto, trata-se da realidade que está dada. A ciência não está interessada com “conforto” ao explicar o mundo; ela precisa de evidências. E as evidências, até hoje, apontam para um universo indiferente, não para um criador preocupado.

Antes de partir para o próximo ponto, trago o resto das 5 Vias de Aquino, que dizem:

4 — Via dos Graus de Perfeição: Nota que há diferentes graus de perfeição nas coisas. Entre as coisas encontramos algo que é mais ou menos bom, verdadeiro, nobre e outras qualidades. Isso sugere a existência de um ser absolutamente perfeito, que é Deus.

5 — Via da finalidade: Observa que as coisas no mundo agem com um propósito, mesmo as que não têm inteligência própria, o que indica um ser inteligente que dirige tudo, ou seja, Deus. Vemos que coisas sem inteligência operam de maneira ordenada e para um fim. Isso não pode ser por acaso, mas por designação; logo, deve haver algum ser inteligente que ordena todas as coisas segundo um propósito, e a quem chamamos Deus. (ibidem)

O argumento confunde uma relação lógica com uma existência real. Quando se diz que um número é “mais próximo de zero” que outro, não faz sentido postular um “número maximamente próximo de zero” que exista em algum lugar — o máximo é um limite ideal, não uma substância. Do mesmo modo, os graus de bondade ou verdade que percebemos nas coisas são comparações baseadas em conceitos humanos abstraídos da realidade, não evidências de um “ser maximamente bom” pairando no mundo das ideias. Trata-se de uma herança platônica que reifica conceitos, transformando abstrações em entidades. Assim sendo, o onus probandi permanece com quem afirma que tal ser existe.

A aparência de propósito na natureza é explicada de forma mais parcimoniosa por Darwin: como dito anteriormente, a seleção natural de fato produz em nós a ilusão de um design. Entretanto, os órgãos mal adaptados, soluções subótimas e outros como citado acima são marcas da história evolutiva natural, não de uma inteligência planejadora. Além disso, o argumento projeta no mundo natural um modelo de ação exclusivamente humano (agir com intenção para atingir um fim) — o que constitui um antropomorfismo. A natureza não age “com propósito”; nós é que interpretamos processos naturais como se o tivessem. Os animais agem segundo o que está codificado em seu DNA — que, desnecessário será dizer, não foi inscrito lá por um deus, mas surgiu e evoluiu ao longo da história — e segundo o que aprendem no contato direto com o ambiente, como nós também.

3.3 Moral

Outra argumentação comumente utilizada pelos teístas é o de deus como necessidade irrecusável para que haja moral objetiva no mundo; sem ele, a moral seria relativa, sem fundamento; e, em poucas palavras, tudo seria permitido. É possível encarar esta questão sob 2 aspectos.

Primeiro: o deus da tradição judaico-cristã é, ele próprio, algo de moral?

Antes de mais nada, é preciso situar: quando pensamos em deus como régua objetiva da moral, estamos falando de um deus abstrato, sem características, pálido e etéreo? Ou estamos falando de algum deus em particular, com as suas características bem marcadas e com adoradores por todo o mundo? Como, na prática, nota-se o segundo caso — e porque considerar um deus descaracterizado, indiferente aos assuntos humanos, não faria diferença prática nenhuma na nossa vida — seguirei por este caminho, considerando o deus da tradição judaico-cristã.

Para que deus seja a fonte e a régua suprema da moral, seria necessário que ele próprio fosse muito moral, o sumo benfeitor. Porém, é isso que vemos, tomando por exemplo a bíblia? Qualquer pessoa que teve contato minimamente com o livro poderá rapidamente dizer que não: o que temos ali é um deus vingativo, ciumento, sanguinário e muito sádico — coisas incompatíveis com os padrões morais modernos. E é importante enfatizar: não é assim apenas no velho testamento — do modo que qualquer religioso poderia fazer, ignorando ousada e convenientemente metade do seu livro sagrado, da palavra do seu deus — como também no novo testamento. Este, embora melhor que o anterior em linhas gerais, ainda contém muitos aspectos imorais e questionáveis, jamais utilizáveis como base para a nossa vida, como: defesa da escravidão; submissão feminina; deus punitivo; a própria ideia de inferno (lugar de tortura infinita) etc., para não falar da doutrina do pecado que o permeia e que não serve para absolutamente nada além de diminuir o ser humano no que parece quase um jogo sadomasoquista com deus.

Os religiosos, não sem alguma astúcia, podem se defender desse tipo de objeção de duas formas:

  1. Interpretação: dizendo, convenientemente, que todas as passagens problemáticas devem ser levadas em conta considerando o contexto. Porém, quem é que determina se algo deve ou não ser levado em conta, e de que forma deve ser feito? Se esta é a palavra de ninguém menos que deus — onisciente, onipotente, onipresente — quem raios poderia ter a autoridade para dizer o que ali vale e o que não? Teria deus, do alto da sua onipotência e onisciência, permitido que escrevessem a sua palavra de maneira tão dúbia e aberta? Ora, há uma contradição gritante aqui. A situação é pior para o lado dos protestantes: enquanto os católicos têm no magistério a autoridade interpretativa unificada, eles não; assim é que, a cada segundo, nasce nas esquinas uma nova denominação cristã, cada uma com a sua interpretação.
  2. Retórica: outro ardil utilizado por eles é o jogo retórico, semelhantemente ao que vimos anteriormente. Diz que, pelo fato de deus ser o bem supremo, como defende Agostinho de Hipona, ele tem carta branca para fazer o que bem entender, inclusive exterminar populações. Porque, por definição, tudo o que ele faz já é moralmente correto, então suas ações não poderiam ser julgadas por critérios externos. Isto, entretanto, levanta um problema: se o que deus faz é bom simplesmente porque ele faz, a moral se torna arbitrária; se, por outro lado, ele age conforme o bem, então este não depende dele — o que nos remete diretamente ao famoso “dilema de Eutífron”, apresentado por Platão na Grécia antiga, que coloca a posição de deus neste tema em cheque total. Aqui, como anteriormente, nota-se como colocar deus na questão não a soluciona, senão a complexifica ainda mais.

Isso nos mostra que, em suma, não há escapatória para o problema: ou se assume os mil problemas da bíblia e perde novos fieis, cada vez mais esclarecidos pela expansão do acesso à informação hoje em dia; ou se mantém nesse jogo fugindo até onde der, e enganando a quem se prestar a cair. O fato é: o deus da tradição judaico-cristã não é, ele próprio, moral; nem a religião construída em torno dele tem nada a ensinar sobre moralidade, mesmo que se torça o livro tentando arrancar os pontos positivos ignorando argutamente os negativos. De igual maneira, advogar por um deus pálido e descaracterizado não resolveria o problema, mas nos remeteria de volta ao dilema visto acima.

Segundo: a moral objetiva é possível? Sem deus?

Aqui, entra uma questão cara: a moral é objetiva ou é subjetiva? É dizer: ela está aí, dada, e cabe a nós acatá-la; ou cada um faz o que quer, conforme a sua perspectiva, e está tudo bem?

Kant, que até o momento fora um aliado tático, agora se torna adversário: em sua Crítica da Razão Prática, ele defende deus como um postulado da razão prática, necessário para garantir a coerência entre moralidade e realização do bem supremo, isto é, a união entre virtude e felicidade. Isto, porém, não impede de surgir a questão: temos acesso confiável a uma moral objetiva? A profunda divergência entre os códigos morais desenvolvidos por diferentes povos e épocas indica que nossos juízos estão fortemente condicionados por fatores históricos, sociais e psicológicos, o que coloca um pesado fardo de prova sobre quem afirma a existência de uma moral objetiva acessível de forma inequívoca à razão humana independentemente de contextos históricos e sociais. É dizer: dado que a nossa razão está condicionada por tais contextos sócio-históricos, torna-se altamente problemático sustentar que a moral esteja objetivamente dada e seja acessível de modo direto e inequívoco pelo simples exercício da razão.

Isto não significa dizer, entretanto, que está tudo bem cada um fazer o que quer: que uma população coma pessoas, enterre bebês deficientes ou coisa parecida só porque, na sua comunidade, é normal. Com o avançar do conhecimento e da técnica, nossos sistemas morais foram se tornando mais estáveis e articulados, com consensos básicos, como os imperativos categóricos do próprio Kant — “agir segundo máximas que possam virar lei universal”. O que se nota é que o acesso a padrões morais mais robustos é mediado historicamente. Mas não há deus aqui. É produto da racionalidade esclarecida humana, progressivamente desenvolvida e refinada ao longo da história. Se, assumamos que sim, deus existisse como régua e padrão absoluto da moral, seria apenas abstratamente, distante; não condicionando diretamente o agir moral do ser humano. Foi apenas o homem que, ao longo da história, desenvolveu e aperfeiçoou a moral, de modo que não há necessidade prática nenhuma de recorrer a deus aqui, para falar a verdade. Chegamos à moral através do conhecimento; enraizámo-la por meio da educação e punimos aqueles que a infringem. Parece-me simples assim. É claro que a questão é mais complexa, mas a estrutura fundamental é esta: a moral é um produto da evolução social e da racionalidade humana, não um decreto divino.

Ainda há muita imoralidade no mundo, é verdade, mas muito menos do que em tempos remotos, mas o fato é: deus não tem parte nenhuma nisso.

3.4 Experiências pessoais

Outro tipo de argumento, certamente mais comum na vida cotidiana, são os que apelam às supostas experiências com deus.

Aqui, novamente, não podemos tratar de um deus abstrato, pois este nem teria como ser adorado numa religião, mas um específico, que será o cristão.

Neste caso, não há jogos retóricos nem palavrórios obscuros: trata-se pura e simplesmente de psicologia. Não é incomum ver pessoas dizendo que deus não pode ser entendido; deve ser “sentido”; e que, para tanto, você deve ir à igreja para lá conhecê-lo.

Mas o que isso significa, na realidade, é se inserir num ambiente totalmente preparado em termos de clima social, iluminação e som, para produzir determinadas respostas em quem está presente. Não é muito diferente de um show de música, onde todos os reunidos ali estão quase que num êxtase coletivo, guiado pela música estridente e pelas luzes. A música alta, com conteúdo sentimental, pode tocar o coração de alguém aflito, que se porá a chorar, por sua vez influenciando as pessoas à volta, que passarão a clamar por deus, criando, ao fim, uma cadeia social e ambiental que se retroalimenta. Quem é introduzido ali é facilmente arrastado pela correnteza, é a força da psicologia das massas. O indivíduo inserido em coletivos ritualísticos e religiosos, por vezes num estado que o predispõe às sugestões dadas por quem guia a cerimônia ou lida diretamente com ele — fragilizado, à espera de socorro etc. — é levado na corrente de hipnose junto com os demais presentes. Se tirar a música, as luzes, as pessoas no transe induzido, as figuras revestidas de autoridade simbólica, as palavras persuasivas etc., não sobrará nenhuma “experiência com deus”. Em resumo, é pura manipulação psíquico-sensorial produzida pelo ambiente. Nada que acontece dentro de qualquer experiência religiosa está além das explicações já dadas pela Psicologia e demais ciências que estudam o funcionamento do cérebro e do corpo.

Também os casos de “possessão” e similares são assim. Primeiro, não há evidências da existência de uma alma imaterial; o que há é a consciência como uma função do nosso órgão máximo, o cérebro; segundo, não há “demônio” ou coisa parecida que a tome; Tudo o que há é um comportamento modelado pela cultura religiosa da pessoa que ali cresceu. Ao fim e ao cabo, a “possessão”, tanto nas igrejas de matriz protestante quanto nas católicas, serve de um teatro de alto valor persuasivo, que trabalha sobre uma emoção que permite manipular e dominar as pessoas mais do que qualquer outra: o profundo medo a respeito do desconhecido, daquilo que está além da sua compreensão e controle.

De maneira resumida, as experiências pessoais nada mais são do que erros de atribuição. É vivenciar algo dentro do cenário ritualístico, religioso, que é natural do ser humano enquanto ser natural e social, e atribuir isto falsamente a deus ou a algo sobrenatural.

4. Conclusão

Restam, ainda, alguns argumentos do tipo: “entre acreditar e não acreditar em deus, eu prefiro acreditar. Assim, livro-me do inferno”; “a chance de deus existir ou não é de 50/50”.

O primeiro argumento, conhecido como “Aposta de Pascal”, é o mais cínico: por acaso deus, do alto de sua onisciência, não saberia que a sua crença nele é puramente oportunista? Alguém que procedesse com tal pensamento, ou então per accidens acabasse escolhendo acreditar no “deus errado”, escorregaria direto para as labaredas do inferno.

O segundo também não se sustenta: como vimos, as evidências disponibilizadas pelos avanços nas ciências apresentam como extremamente implausível a existência de um deus tal como nos é apresentado — atemporal, onisciente, onipresente, onipotente, envolvido diretamente com os assuntos humanos — indicando muito mais a improbabilidade dessa hipótese do que o inverso.

Assim, como tentei demonstrar ao longo deste texto, nem pela via puramente racional, nem pela via empírica, é possível para os apologistas bater o martelo e encerrar o caso com a vitória do teísmo. De novo, isto não significa “provar a sua inexistência”, mas indicar que não há, até o presente — e dificilmente haverá no futuro — justificativa suficiente para afirmá-la ou mesmo inclinar-se timidamente em direção a ela.

Para fechar, poderia haver quem protestasse: sem deus, qual é o sentido da vida? Para que existimos?

A tomar a bíblia como exemplo, pessoalmente penso que não há nada digno de ser chamado de propósito ou sentido da vida ali. De forma resumida, o ser humano é criado e submetido a inúmeras dores e sofrimentos para, no final, ser julgado sobre se deve arder em tortura eterna ou viver em eternidade adorando a deus. Mas poderia isto ser algo digno? Toda a nossa existência se resumir a uma estrutura de submissão e recompensa e a adorar a um deus? Penso que não, absolutamente não. É, no mínimo, filosoficamente muito insatisfatório.

Geralmente, o sentido da vida é tido como algo que não vem pronto ou inato, mas algo muito particular, construído ao longo da trajetória de cada pessoa. Pessoalmente, tenho como o sentido da vida aquilo que a Filosofia Juche, criada por Kim Il Sung, estabelece: o homem é o dono e o transformador do mundo, é o fator que decide tudo. Não pretendo me desviar para os detalhes dela aqui, mas o sentido da vida humana reside precisamente em ocupar essa posição e desempenhar esse papel, transformando a natureza e a sociedade, rompendo com os grilhões da exploração e superando o capitalismo e construindo o comunismo. E além: conquistando todo o cosmos. Certamente podemos e devemos fazer isso. Para mim, é aqui que está o sentido, e penso que jamais poderia haver outro mais elevado e nobre.

Para isso, não precisamos de nenhum deus. É uma limitação da qual, quanto antes nos livrarmos, melhor. São antolhos nos nossos olhos e uma bola de ferro nos nossos pés, que anseiam mirar ao futuro e marchar em direção a ele.

Enquanto vocês creem em Deus, nós cremos no homem. Ele é o dono de tudo. É preferível crer no homem do que em Deus. Portanto, consideramos o povo como o céu e nos dedicamos inteiramente ao seu bem-estar.” KIM IL SUNG

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Argumento_ontol%C3%B3gico

  2. https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-04/vias-para-chegar-deus.html

  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Argumento_cosmol%C3%B3gico_Kalam

  4. Conversa com reverendo Billy Graham


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