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Pega ladrão

[Infância — Subúrbio — Crônica — Ladrão — Brincadeira]

Robertson Frizero · 2024-10-04 14:12 · 0 claps · 3.9 min read
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Pega ladrão

[Infância — Subúrbio — Crônica — Ladrão — Brincadeira]

“Pega ladrão”

“Pega ladrão”

Meus primos, que moravam em outro bairro, achavam esquisito. Mas lá para os lados de Bangu, todo mundo concordava comigo: o bom mesmo era ser ladrão.

Acho que a minha primeira vez foi aos nove anos de idade. Os dois mais fortes ficavam de longe observando o grupo, pensando estrategicamente nas escolhas a fazer. Eles conheciam o nosso potencial, pelo menos sabiam do que cada um era capaz na hora da verdade. Malandragem e perna comprida contavam pontos. Depois de algum tempo, eu passei a ser um dos primeiros escolhidos por conta do meu talento para encontrar esconderijos — os mais fracos ficavam sob a minha guarda, protegidos da polícia por não terem pés ligeiros para a fuga. Mas, nos primeiros dias, eu era sempre um dos últimos a ser escalado para a ação.

— Eu fico com o Gordinho e você fica com o Chorão.

Bochechas grandes rendem apelidos quando a gente tem nove anos de idade, mas eu não ligava. Tinha bom fôlego para correr e alguma inteligência acima dos demais, só faltava provar para o líder — eu não iria decepcioná-lo. Além disso, o Chorão, com oito anos de idade, era um péssimo ladrão: bastava alguém da polícia apontar do outro lado do quarteirão, ele começava a gemer e às vezes até chamava a mãe dele para acudir. E ela era daquelas mães chatas, que apareciam na janela e gritavam lá de cima para a gente não encostar a mão no filho dela. Mas ninguém batia nele, nem a polícia nem nós, os ladrões — o Chorão é que era um frouxo!

Havia regras bem claras: o quarteirão era o limite. Não podia atravessar a Beirute e ficar dentro da padaria. Na Trípoli ninguém se arriscava mesmo, pois do outro lado era a favela. Também não valia cruzar a Rua Raul Azevedo e entrar no pátio de nenhuma das escolas, camuflando-se no recreio. Fugir para casa, nem pensar — vontade de fazer xixi resolvia-se atrás das bombas hidráulicas dos prédios, se o zelador não estivesse olhando. Água, a gente pedia para a mãe, depois de acertar uma trégua com alguém do outro grupo. Todo mundo parava, polícia e ladrão bebiam no mesmo copo. Depois eles contavam até dez para os ladrões correrem e a caçada recomeçar. A gente respeitava isso como um código de honra.

Polícia e Ladrão era brincadeira séria. Podia levar horas, uma manhã inteira até, para a polícia pegar todos nós. Prender era fácil: se um deles colocasse a mão em você, era cadeia na certa. E a cadeia ficava nas escadas da portaria do Edifício Minas Gerais, porque eram as maiores e sem nenhum obstáculo em volta. Facilitava muito, pois para soltar um companheiro ladrão bastava encostar a mão nele. E os prisioneiros não podiam levantar o traseiro dos degraus. Era uma operação ousada, exigia rapidez para evitar ser preso também por ele, o guarda da prisão.

Nossos melhores soltadores de ladrão eram o Mil e o André, irmão dele. O André era o mais alto de todos e dava medo nos menores — mas isso era problema da polícia, que escolhia os mais fracos para tomarem conta dos presos e colocava os melhores corredores para prenderem a gente. Não adiantava nada, nenhum deles era mais rápido que o Mil. Enquanto um vinha por trás do Edifício São Paulo, o outro despistava a polícia fingindo que ia atravessar a Raul Azevedo, ou provocando com nomes feios inventados na hora. E o Mil sabia dar apelidos como ninguém, a gente ria muito quando um guarda queria sair no soco com ele e deixava o André livre para agir. Essa era a nossa principal arma: enquanto a polícia se preocupava em defender os presos, a gente tirava eles do sério, jogando pedras ou palavrões só para desarmar a guarda e libertar os companheiros.

Por isso todo mundo lá no Bairro Jabour concordava comigo: ser ladrão era bem mais divertido. No meu colégio em Bangu, diziam a mesma coisa: tinha colega de turma com um par de Kichute especial para correr da polícia. E lá para os lados da Rua dos Banguenses era bem mais complicado: os ladrões podiam se esconder da Ceilão até a Cobé e da Bombaim até a Sibéria. Isso era praticamente um mundo inteiro para a polícia cobrir, uns doze quarteirões bem grandes. Ser ladrão era muito, muito melhor.

Com o tempo, fui me especializando na função. Quando o André foi para o Segundo Grau, assumi com o Mil a tarefa de soltar os presos e cheguei até a escolher os companheiros ladrões quando ele ficava de castigo em casa. O Carlos Aury, meu melhor amigo, era rápido para fugir, mas não sabia ofender como o Mil. Nada que não se resolvesse com a ajuda dos meninos mais velhos e seus palavrões de adulto. Mas, aos poucos, a brincadeira foi sendo interrompida pelos tiroteios — bandidos de verdade, da favela da Coreia, passaram a correr entre os blocos de quatro andares, fugindo da Polícia ou disputando com gente da favela do Sapo o domínio da área. A primeira a tirar o filho das brincadeiras foi a mãe do Chorão. Quando um dos chefes da favela do Rebu foi baleado sob a janela do meu quarto, meu pai gradeou todo o nosso apartamento térreo. Mesmo a minha mãe — ela sempre mandava eu ir brincar na rua, lugar de menino correr e gastar energias — passou a preferir que eu ficasse pela manhã matando os índios de plástico do meu Forte Apache.

Era divertido cavalgar portão afora empunhando um Winchester 73. Mas jamais me esqueci de como era bom ser ladrão.

[Robertson Frizero]

O último registro que tenho desta crônica é de 2009, mas certamente foi escrita antes disso.


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