Como o Mayhem ressurgiu das cinzas em Chimera
Sucessor do polêmico Grand Declaration of War provou que a banda ainda tinha lenha para queimar
Como o Mayhem ressurgiu das cinzas em Chimera
Sucessor do polêmico Grand Declaration of War provou que a banda ainda tinha lenha para queimar

Em 2004, o Mayhem completava dez anos do seu disco mais importante e quatro anos se recuperando do seu álbum mais controverso. Para o novo trabalho, a banda norueguesa precisava, de alguma forma, justificar sua própria existência.
O fardo do passado — e o pesadelo chamado Grand Declaration of War
Para entender o que Chimera significa, é preciso voltar a 2000. Após seis anos de silêncio discográfico desde o lendário De Mysteriis Dom Sathanas (1994), o Mayhem retornou com Grand Declaration of War, e o resultado foi uma das maiores divisões da comunidade do black metal naquele início de século.
O álbum é conhecido por seu estilo excêntrico, que recebeu uma recepção mista no lançamento, focando fortemente em elementos experimentais e progressivos. A nova dupla criativa — o guitarrista Blasphemer e o vocalista Maniac — havia invadido territórios considerados proibidos: spoken word, trip-hop e paisagens sonoras de doom. A produção era clínica, fria como aço polido — uma ruptura proposital com o necro sound que consagrou a cena.
Nos fóruns da época, relatos de fãs descreviam reações furiosas ao novo disco — “gay e anti-metal” era um dos termos que circulavam. O apelido “Gayhem” chegou a ganhar tração em comunidades online. Mas a história é, como sempre, mais complicada: para um segmento da crítica especializada, Grand Declaration of War era exatamente o oposto — uma obra corajosa e visionária.
>> A Grande Declaração de Guerra do Mayhem contra a humanidade
Jeff Wagner, em seu livro Mean Deviation, comparou o álbum ao Into the Pandemonium do Celtic Frost, apontando-o como um disco que havia pervertido e revirado de dentro para fora o gênero do black metal.
Independente do julgamento, o fato inegável é que Grand Declaration of War havia criado um problema. O Mayhem, então, precisava responder à questão: o que são agora?
2004: O ano certo para uma declaração diferente
O ano de 2004 carregava simbolismo. Marcava dez anos desde o lançamento de DMDS — o disco que assombra qualquer conversa sobre black metal como um fantasma que nunca vai embora. A cena havia evoluído, ramificado e em muitos pontos se fragmentado. Bandas que surgiram à sombra do Mayhem já tinham carreiras sólidas. E o próprio gênero parecia estar, nas palavras de alguns, adormecido.
Foi nesse contexto que Chimera chegou às prateleiras no dia 29 de março de 2004, via Season of Mist, em uma apresentação cuidadosa: um digipak de dez painéis dobráveis, com um encarte de doze páginas. A versão em vinil foi limitada a 1000 cópias em preto e azul splatter.
A capa imediatamente chamou atenção. A arte foi fornecida por TurboNatas, da banda norueguesa Red Harvest, e a imagem é um fotograma do filme mudo sueco-dinamarquês Häxan, de 1922 — uma obra sobre bruxaria, demonologia e histeria religiosa, dirigida por Benjamin Christensen.
A escolha era esteticamente carregada: em vez de recorrer a imagens de violência ou satanismo explícito, o Mayhem optou por algo mais subterrâneo, mais cinematográfico. Häxan é um clássico do cinema de horror que permanece perturbador décadas depois. Era a atmosfera certa.

Foto: The Movie Buff
O retorno ao veneno — e à maestria
O Mayhem escolheu se afastar do material experimental e retornar ao black metal dilacerante que os consagrou. A primeira coisa que se nota ao ouvir o álbum é a produção: excelente para os padrões do black metal.
Whore dura pouco mais de três minutos e funciona como um soco nos dentes — riffs velozes, bateria frenética, a voz cáustica do Maniac cortando tudo. A faixa é perfeita como uma reintrodução ao Mayhem. Mas o álbum não é uma corrida unidimensional de blast beats. O que surpreende em Chimera é exatamente sua capacidade de respirar sem perder a tensão.
Dark Night of the Soul traz uma dinâmica mais vagarosa, enquanto Slaughter of Dreams constrói uma introdução densa antes de explodir. O melhor conjunto de riffs e os vocais mais diabólicos do disco impulsionam essa faixa, e o toque de percussão autêntica nos minutos finais é um charme genuíno.
Impious Devious Leper Lord surpreende com o baixo de Necrobutcher chegando com clareza incomum para o gênero — o Mayhem até faz uma pausa para que a linha pesada de baixo possa ser claramente ouvida.
O faixa-título que encerra o álbum é um exercício de construção atmosférica: os riffs graves e oscilantes com palavras faladas sinistras abrem a canção antes de a fúria crua entrar de vez. A habilidade do Mayhem em construir uma atmosfera aterrorizante por qualquer meio necessário está em plena exibição ali.
A dupla criativa Maniac e Blasphemer escreve com precisão cirúrgica. O guitarrista sempre teve a difícil tarefa de seguir os passos do grande Euronymous, mas consegue tocar riffs gelados e brilhantes ao longo do álbum. As variações de tempo nas músicas e a sobreposição de duas ou às vezes três guitarras também contribuem imensamente para a atmosfera geral.
Liricamente, o disco representa uma maturidade que Grand Declaration of War tentou, com resultados desiguais. As letras são muito mais focadas em ódio e pensamentos misantropos em relação à humanidade como um todo, em vez do “EU ODEIO VOCÊ, CRISTÃOS!!!” que se via no disco anterior.

Divulgação
A recepção — um alívio coletivo
No momento do lançamento, o Mayhem ainda recebia críticas afiadas da cena underground pelo experimento de Grand Declaration of War. No entanto, assim que foi lançado, Chimera recebeu críticas entusiasmadas, com muitos críticos elogiando o álbum por seu som rápido e duro, e apreciando o fato de que, ao contrário do predecessor experimental, o disco apresenta um tipo de black metal mais cru, mais próximo dos primeiros álbuns da banda.
O site Encyclopaedia Metallum — a bíblia dos fãs de metal extremo — agregou 18 resenhas com média de 84%, um número expressivo para um álbum de uma banda que havia dividido corações nos quatro anos anteriores. O AllMusic reconheceu que a banda toca mais rápido, mais pesado e mais alto — e com maior atenção ao detalhe sonoro— do que quase qualquer outra no estilo, e o escopo expandido e a variação de Chimera mostram que, nas mãos certas, há mais nessa música frequentemente difamada do que seus detratores reconhecem.

Reprodução/Metal Army
Slaughter of Dreams
Mais de vinte anos depois, Chimera ainda soa como uma banda com algo a provar. Não por insegurança — mas porque Blasphemer e Maniac gravaram cada faixa como se fosse a última chance de fechar uma conta aberta. E foi: o vocalista deixou o Mayhem logo após a promoção do disco, substituído pelo velho conhecido Attila Csihar.
Num momento em que o black metal parecia dar um passo atrás, o disco chegou com fome e com foco — acessível o suficiente para não afastar quem estava chegando ao gênero, denso o suficiente para satisfazer quem já conhecia a banda. Para esses últimos, foi a confirmação de que o Mayhem não precisava da sombra de seus próprios fantasmas para existir. Tinha música de sobra.
A Quimera da mitologia grega era um monstro composto de partes diferentes — leão, cabra, serpente. Nomear o álbum assim é quase uma confissão: este Mayhem é feito de pedaços de eras diferentes, de membros que chegaram em momentos distintos, de uma tradição que precisou ser ao mesmo tempo honrada e reinventada. O resultado não é uma monstruosidade — é uma fera coerente, perigosa e, à sua maneira torta, bela.
메타데이터
- post_id
- 98c5e27f4641
- slug
- como-o-mayhem-ressurgiu-das-cinzas-em-chimera-98c5e27f4641
- url
- https://medium.com/@diegocataldo/como-o-mayhem-ressurgiu-das-cinzas-em-chimera-98c5e27f4641
- canonical_url
- https://medium.com/@diegocataldo/como-o-mayhem-ressurgiu-das-cinzas-em-chimera-98c5e27f4641
- author_url
- https://medium.com/@diegocataldo
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-15 10:52:00