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Entre Bruch e Ivan Lins

Sol menor. Explodo em energia e começo os dez compassos antes da letra B. Não há dificuldade de dedilhado, de afinação, quiçá de arco —…

Ivanildo Jesus · 2026-02-11 11:43 · 28 claps · 3.4 min read
#bruch #ivan-lins
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Entre Bruch e Ivan Lins

Sol menor. Explodo em energia e começo os dez compassos antes da letra B. Não há dificuldade de dedilhado, de afinação, quiçá de arco — sou, enfim, um virtuose. Acordo do sonho me perguntando como é possível sonhar com o Concerto para Violino nº 1 em Sol menor, Op. 26, de Max Bruch. Não é o primeiro sonho musical que tenho. Disseram-me que, dormindo, falo; respondi que, na verdade, solfejo. Meus sonhos, nas noites de verão, são música.

O concerto é uma das pérolas do repertório violinístico, mais precisamente do romantismo alemão. Diferente de Brahms, que escreve — ao que dizem — um concerto “contra o violino”, Bruch escreve para o instrumento. A nota longa do começo, uma corda solta provocativa, é o prelúdio de uma tragédia esperançosa.

No sonho, não lembro bem se dava aula ou se solava. Sonho tem isso: em instantes estamos em um lugar, pouco depois em outro. Vou da sala de aula ao palco de mim mesmo. Contudo, acordo. Lá fora, a chuva tamborila. Por esses dias, a vida tem sido um eterno “olha, está chovendo na roseira”.

Das versões de que gosto, tem me agradado muito a da incrível Janine Jansen; ela consegue ser lírica, romântica, trágica e poderosa sem raspar. Feito que — por favor, abaixem as facas — o grande Pinchas Zukerman não consegue repetir.

No sonho desta madrugada, encontrei-me no primeiro movimento; contudo, dias atrás, a melodia do segundo insistia em cantar sem parar dentro de mim. Era estar no sofá, na companhia de um livro, para, num breve relance em que me perco das letras, ser preenchido pela melodia do segundo movimento. Interpretar música instrumental tem disso: cabe análise harmônica, contraponto, história e, em alguma instância — aquilo que acredito conversar mais diretamente com a experiência do leigo do que com a do melômano — , dizer do que a gente sente.

Eu tenho sentido Bruch. Tenho sentido um sol menor. Deve ser essa chuva que não passa, não cessa, intermitente, que molha tudo. Conversava com um colega que me disse, preocupado: “Você não acha que é hora de trocar os círculos, ver outras pessoas? Você convive e fala com essas mesmas pessoas há o quê, dez anos?” Aquilo ficou comigo. Há gente nova na vida. Isso de dar aula, de trabalhar pela minha própria extinção, premia-me sempre com contatos novos, potentes, diversos, que vão se transformando com o passar do tempo. Alguns ficam mais perto, outros mais distantes — é o ciclo sem fim. Porém, o núcleo duro do golpe, esse, de fato, permanece o mesmo há algumas temporadas.

“Não sei”, respondi-lhe. Alguns desses personagens principais da ópera da vida vejo, se tanto, três ou quatro vezes no ano. A vida muda, o rio segue. Dessas melodias que conversam dentro de mim, há um Bruch que conversa, sim, com Ivan Lins — mais precisamente com Um fado, quando Lins canta:

Nenhuma esperança à vista Não haverá mais conquistas Não, navegar não é preciso Viver é preciso

O concerto de Bruch me deixa com esse gosto insofismável de “nenhuma esperança à vista”. O verso quase abandona o poeta português que diz o oposto: navegar é preciso, viver não é preciso. Como se navega — e aqui atribuo talvez um juízo alienado, próprio da minha interpretação — se o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez mais pobre? Se a justiça — vide banco Master — , além de cega, está suja de corrupção? Como se navega se a tragédia anunciada das questões climáticas impõe-se sem precedentes? Navega-se para onde? Navega-se por quê?

Eu, que dou aula, preciso acreditar na utopia. Preciso falar aos infantes crente de que, em algum momento, o mundo será diferente; de que a ação deles pode ser pulsante e transformadora; de que a vida lhes será melhor. Contudo, o que faço se não consigo? Se sou só sol menor? Como lhes digo que o amanhã será diferente, se conhecer é saber que talvez não haja amanhã? Navegar… não sei. Naufragar, talvez.

Lógico, deixo tudo isso para o músico. Vou ao piano e toco a música do bom-dia, feliz. Pego a batuta, inflo o peito e dou a entrada. Sorrio. Viver é preciso.

Um pouco dessa desesperança é a chuva. Sou inundado por essa vontade de ficar em casa, de me aninhar nos livros, com chocolate quente. Faz muito tempo que não tomo banho de chuva, que não me alegro com essa possibilidade da água. Fiz isso, se tanto, uma vez, ainda menor, com colegas da rua, na época em que ainda se brincava na rua. Não brinco mais; não saio à rua se não houver porquê. Não tomo banho de chuva; não tenho sequer roupa para isso.

Meu Bruch interno começou a tamborilar pelo segundo movimento, que não é necessariamente uma antítese do primeiro. Hoje sonhei com o primeiro movimento: vibrante, intenso e esplendoroso. Observo que, em alguma hora, chegarei ao terceiro movimento, o Finale, da minha temporada Bruch.

O Poeta Pobre — Carl Spitzweg

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