Uma caixa de ferramentas
Parafusos, porcas, buchas e pregos, com memórias.
Sempre quis ter a minha caixa de ferramentas…

À partida pode parecer difícil saber explicar porquê…há desejos muito estranhos na vida de um ser humano. Uns querem ferraris, outros casas com piscina, ou os últimos modelos dos iphones. Eu, durante anos, lembro-me que queria desesperadamente ter uma caixa de ferramentas. Não uma qualquer, limitada às chaves de fendas e aos alicates. Uma caixa, em toda a sua amplitude, dotada de compartimentos e fechos amarelos, daqueles que fazem um "clac" seco quando apertados. Completa com parafusos, porcas, pregos e buchas para todos os tipos de situações, com prateleiras que deslizam perfeitamente quando empurramos a tampa para baixo - salvo se o martelo estiver mal posicionado.
Na semana passada o meu irmão mais novo ligou-me. Mudou recentemente para a primeira casa e fez-me uma vídeo chamada no dia em que recebeu as chaves. Quando a câmara focou, tinha um sorriso de tal forma desproporcional, que achei que ia ser tio de mais um sobrinho, ou que tinha descoberto uma mala numa parede com notas marcadas. “Jano, Jano, olha para isto!”…e mostra-me orgulhoso, em cima de uma mesinha, uma belíssima e robusta caixa de ferramentas. Não falou da cama, nem do sofá, da internet que estava por regularizar, nem da máquina de lavar que não tem. Falou da caixa, das caixinhas, das ferramentas escolhidas a dedo e como as utilizou para montar a sua torneira da cozinha! “Usei daquela fita branca e tudo”, disse. Acho que nunca o ouvi tão orgulhoso — ahaha —, e fartei-me de rir com isto. Sobretudo porque me lembrei exactamente do dia em que aconteceu comigo e do prazer que foi.
Quando saí de casa, o meu pai ofereceu-me a minha primeira caixa de ferramentas. E “primeira”, neste contexto, acho que é apenas figurativo, porque não há segunda, nem faria sentido haver. Uma caixa de ferramentas é para a vida, ainda a tenho ali guardada na dispensa, com sítio próprio, sem nada por cima a empilhar-se, sempre pronta a ser utilizada. Lembro-me perfeitamente da forma como me foi entregue, que não se quer que seja um momento de um presente, mas antes quase uma promoção, como aqueles filmes em que o velho general tira uma medalha do peito e a prende no uniforme do soldado mais novo: “Agora és tu, vai guerreiro!".
Depois há uma coisa de que quase ninguém fala e que me deslumbra a níveis provavelmente desproporcionais. O prazer absurdo de abrir uma caixa de ferramentas! A disposição das peças, a variedade, a diversidade, o encaixe perfeito, cada chave no seu lugar, numa espécie de caos ordenado. Sempre que abro a minha, lembro-me daquela cena mítica do Toy Story 2 em que o Woody vai ao restauro nas mãos daquele velhinho narigudo — nesse caso com uma caixa de costura, pode ficar para outro texto. Continuo convencido de que é uma das melhores sequências de animação alguma vez feitas. A delicadeza, o método, a precisão, é precisamente disto que vos queria falar. Talvez seja a mesma sensação que os dentistas tentam provocar quando alinham todos aqueles instrumentos metálicos numa bandeja, mas que sinceramente, a mim não me convecem da mesma maneira.
Não sei se isto é só meu, se é dos homens, das mulheres, dos filhos, ou simplesmente de quem cresceu a acompanhar pais e avós recorrerem à drogaria da Ericeira, ou à lojinha de ferragens na Cotovia, para comprar "uma pecinha" que com muita artimanha, engenho e persistência resolvia o maldito pingar do autoclismo. Aliás, falando nelas, não sei se as lojas de ferragens e drogarias não são outro daqueles patrimónios da humanidade que ainda ninguém teve o bom senso de classificar. Hoje compra-se online, fala-se com o manual do IKEA no ChatGPT para montar um móvel e pergunta-se ao YouTube como chamar um estafeta para inserir o cabo HDMI em quinze minutos, ou invocar um “Oscar”, que vai desde lavar o chão, até montar o chuveiro.
Fico sempre com estas perguntas, depois de escrever estas coisas. Será que continuaremos a gostar das caixas de ferramentas, das pecinhas e de perceber o engenho das coisas e como tudo se encaixa. Ou será que nos espera mais uma daquelas heranças silenciosas que vai ficar desaparecida nos tempos?
메타데이터
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