tem janela no espelho?
“tem um espelho na janela, tu visse?”, me disseram na reunião da comissão de saúde dos trabalhadores.
tem janela no espelho?
“tem um espelho na janela, tu visse?”, me disseram na reunião da comissão de saúde dos trabalhadores.
Quem Conhece Sabe como costumo espiar espelhos. nas reuniões agradáveis dessa comissão, sempre bato um retrato em uma janela espelhada do prédio, me espantando de me achar tão bonita num dia necessariamente exaustivo, com discussões tão densas pra encaminhar em deliberações — sei que a chave do encanto tá nas mãos usadas pra abraços sinceros: toramos por horas um pau desgraçado de críticas e toda vez percebemos que começamos as reuniões pensando pelo umbigo, mas só encaminhamos futuro decidindo em franco conjunto. ser parte dessa evolução e ver como contribuo pra ação conjuntiva acaba temperando meu olhar de gentileza — tanto pelos meus olhos quanto pelo que transmito sentir. deve rolar umas sincronias corporais pra isso.
nas reuniões desagradáveis, só bato retrato pra ver quão atraente pareço aos olhos de quem faz o inferno pra usar fundo público pra si sem querer considerar mais de uma frase que não seja sua — o que me gera reações traumatizadas. o clique é só uma checada que não quero rever, embalada por quem me alivia o pensamento — o Cores vai querer saber, alguém que me ama como eu mamo vai me distrair o sentimento.
mas ando barbarizada com amostras do que uma queridíssima assistente social que amei trabalhar junto me falou outro dia: “as pessoas não olham mais pra dentro e se desesperam pra se encontrar por fora de si”.
a gente reconhece o que leva dentro da gente na medida do contato: interajo contigo, conheço tua palavra e pego emprestada, tu conhece minha palavra e pega emprestada, a gente fala o que acha de tu e eu, satura o papo da vez e segue processando o que ficou. interesses? noções? babados?
tenho andado em espaços não lá evitáveis por compromisso: com a defesa do direito à saúde e de um projeto de psicologia que saiba reconhecer o que fazemos de nós nos ambientes, pra propor mudanças — de bens comuns -viáveis, necessárias e desejadas. e não é surpresa que nessas veredas, encontre quem queira disputar Sua Palavra de Comando, mas adoece o quanto isso impede os avanços conjuntos que supostamente são comandados.
Asmolov é um psicólogo russo que deu-le um FECHO outro dia que a psicologia hegemônica ainda se acha ciência do comando, atrasada pras mudanças que correm por interesse de vida em comum ou de dominação. tô vendo o que a atrasa: temos na psi brasileira um Código de Ética babadeiro que bate na tecla da solidariedade entre pares e diferentes, mas quem rosna certezas performáticas pra predominar espaços de mando regulatório se isenta e isola dessa tecla no convívio. aperta outras teclas pra facção de gênero, raça, região, classe darem o mermo Enter.
costumo espiar espelhos, e minha cabeça muitas vezes vira um caleidoscópio de improvisos. mas no cara a cara quero visão conjunta. palavra conjunta. ação conjunta. é ela que, por interesse conjuntivo, confirma o porvir.
메타데이터
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