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O dia que Jesus foi Baco*

Jesus nunca gostou muito de seu nome. Nada contra o salvador, pelo contrário. Simpatizava muito com suas idéias e sentia uma ponta de…

Barbara Duffles · 2020-07-01 18:56 · 22 claps · 3.1 min read
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Wiki topics: 🕊️ · Religion

O dia que Jesus foi Baco*

Jesus nunca gostou muito de seu nome. Nada contra o salvador, pelo contrário. Simpatizava muito com suas idéias e sentia uma ponta de emoção quando lia alguma passagem do evangelho. Mas o fato é que carregar este nome era um fardo e não lhe trazia benefício algum. Tímido, não conseguia se defender do escárnio dos amigos, que lhe pediam o milagre da cola na hora da prova, ou lhe amarravam no pé da mesa para crucificá-lo com chicletes mastigados. Ele também não fazia sucesso com as meninas. Nenhuma delas queria beijar Jesus. “Isso é pecado”, diziam, antes de darem o fora.

Resolveu incorporar a figura profética de vez, deixando a barba e o cabelo crescerem e assumindo uma solidão ermitã. Tirando a companhia da mãe, com quem tinha uma relação simbiótica — um dependia do outro e vice-versa -, Jesus não falava com mais ninguém. Gostava de passar o tempo costurando, enquanto a antiga vitrola da mãe tocava boleros. Fez todo o enxoval da prima Gorete ouvindo Nat King Cole. Já as camisetinhas de pagão do bebê de Vanda, a vizinha, receberam a divina inspiração de Consuelo Velásquez. Um dia, a mãe chegou em casa e flagrou o filho costurando uma túnica. “É pro carnaval”, respondeu Jesus. A mãe estranhou, pois o rapaz nunca foi chegado a essas manifestações coletivas de volúpia e beberagem.

Mas o carnaval chegou e a túnica ficou pronta. Cosida sob o lamento choroso de Omara Portuondo, ela era bege, com uma faixa vermelha para enrolar em volta. “Ficou bonita”, a mãe elogiou, mesmo sem entender para quem era o presente. Foi ao banheiro e, quando voltou, encontrou Jesus vestido nela. O filho apenas levantou uma das mãos, acenou como um profeta e saiu porta fora.

Descendo a rua do Riachuelo, onde morava, Jesus ouviu alguns gracejos. “Jesus Cristo, eu estou aqui!”, cantou um engraçadinho que passou de carro. Caminhou incólume até a rua Joaquim Silva, e subiu rumo à Santa Teresa. Esbarrou em foliões bêbados, andando em grupos. Sozinho e lento, ele seguiu pela ladeira, até chegar onde queria, o Largo dos Guimarães. Era grande a confusão. O bloco Céu na Terra estava passando, o calor era insuportável. Recebia cotoveladas, pisões no pé descalço, empurrões involuntários da multidão que seguia o bloco, cantando marchinhas do tempo da vovó. Um morador subiu o muro de sua casa e aliviou um pouco a sensação de abafado, jorrando água de uma mangueira em cima dos loucos fantasiados.

Jesus se misturou entre os foliões, e fez isso de livre e espontânea vontade. Os anos de solidão costurados em boleros haviam lhe tirado a sensibilidade do toque humano. Queria agora encostar-se no máximo de pessoas que pudesse. Queria ser empurrado, alisado e apertado, para sentir-se vivo e palpável. Enlevado pelo contato dos outros, ele achou-se munido de um poder extraordinário. Subitamente, percebeu que podia interferir na vida daquelas pessoas. Espremido, levantou o braço esquerdo, num movimento que lembrou seu famoso homônimo. Parecia captar dos céus e do sol uma energia misteriosa.

Os foliões que estavam próximos notaram algo diferente naquele homem fantasiado de Jesus. Começaram a abrir caminho para ele, que atravessou a multidão como quem atravessa o Mar Vermelho. Chegou ao muro onde estava o homem da mangueira e subiu. Os bumbos pararam. Silêncio no Céu na Terra. De repente, um grito: “Vinho!”. Outros vieram depois: “Queremos vinho! Queremos vinho!”. De cima do muro, Jesus olhava seus súditos, ávidos por vinho, bebida sagrada que ia matar-lhes a sede. Era uma responsabilidade. Nunca foi tão difícil ser Jesus. Mas ele tinha que conseguir.

Foi então que Jesus se concentrou. Olhou fixo para o alto, buscando auxílio do Pai. Tentou transportar-se para o infinito, tentou absorver a energia de todo o universo, de todos os homens, de todos os tempos. Silêncio devastador. Ele levantou a mão esquerda para cima e esperou pelo milagre. Só abriu os olhos quando ouviu os gritos enlouquecidos dos foliões: a mangueira estava jorrando vinho! Jesus mal acreditava no que tinha acabado de fazer. Ficou minutos olhando a multidão refestelando-se na chuva rósea, bebendo e dançando, bacantes e pagãos. Sem ninguém perceber, desceu o muro e se misturou novamente aos mortais, desaparecendo pelas ladeiras de paralelepípedo.

No dia seguinte, os jornais relatavam o acontecimento. Falavam em histeria coletiva, transe alucinógeno, efeitos do álcool. Os repórteres não acreditavam que um homem vestido de Jesus teria transformado água em vinho, por isso deram às reportagens um tom jocoso. Mas quem estava lá, no Céu na Terra, não tinha dúvida alguma. O autor do milagre, calmamente sentado na poltrona de sua casa, também não duvidava de seu feito. Na verdade, nem se preocupava com isso. Estava mais empenhado em ouvir Lucho Gatica e terminar sua nova túnica. Afinal, a Semana Santa estava próxima.

*Somewhere in 2009


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