Alan Watts: A “sabedoria” de se render ao capitalismo
Crítica ao livro “A sabedoria da insegurança”
Alan Watts: A “sabedoria” de se render ao capitalismo
Crítica ao livro “A sabedoria da insegurança”

O livro “A sabedoria da insegurança”, do filósofo britânico Alan Watts, tem sido referenciado com frequência no ocidente como uma luz potente capaz de indicar o caminho para o ser humano que, com o avançar dos tempos, parece se tornar cada vez mais ansioso, sem propósito e deprimido, um remédio definitivo que não atuaria só nos sintomas supracitados, mas na própria raiz do problema. Uma leitura crítica dele, entretanto, revela algo totalmente diferente e lhe quita toda possibilidade de descrições superlativas como acima.
Para começar, o livro parte de um diagnóstico míope. Em que pese consiga apontar com acerto que as pessoas hoje em dia estão cada vez mais viciadas no prazer imediato, cada vez mais agarradas ao passado ou ao futuro e desenraizadas do presente, cada vez mais ansiosas e sem rumo na vida etc., falha completamente em apontar a “etiologia” desse distúrbio: o próprio modo de produção no qual se constitui e vive o tal homem ansioso e deprimido. E fica ainda pior porque o autor não apenas ignora o caráter social do homem, e o grande “X” da questão, como trata de culpabilizar o próprio ser humano pelo seu sofrimento. A bem da verdade, não seria exagero dizer que o livro inteiro poderia ser resumido nisto: “sua ansiedade é culpa da sua mente inquieta, conserte-a!”. Culpa, ademais, a natureza pelo cérebro que nos deu, que seria o “produtor” desse sofrimento em virtude de sua consciência, capaz de recordar o passado e prever o futuro, e que causaria uma “cisão” entre “eu” (racional) e “mim” (irracional, visceral), que ele aponta como a fonte de todo mal a ser reparada. O mesmo cérebro que nos torna o ser distinto que é capaz de conhecer o mundo e a si mesmo e transformar tudo de maneira nova, criando e moldando a realidade à sua vontade. Por defender uma concepção absolutamente distorcida de homem, ignorando sua natureza social e o modo de produção capitalista onde ele se constitui e, pior ainda, localizar o problema no ser humano, considero se tratar de um livro — ou talvez seja melhor chamado de material de educação burguesa — do mais ardiloso tipo reacionário. Em outras palavras, um material que serve para tirar o foco da luta do homem do alvo real e colocá-lo em si mesmo, deixando-o totalmente cego e rendido.
“[…] se formos mesmo cidadãos deste mundo e não houver satisfação para os descontentamentos da alma, isso não significa que a natureza cometeu um grave erro ao produzir o ser humano?”
[…]
“No ser humano, a natureza concebeu desejos impossíveis de satisfazer.”
[…]
“A consciência parece ser o engenhoso método de autotortura da natureza.”
Se só isso já não fosse o bastante, o autor ainda defende uma postura de total passividade e fatalismo em relação à realidade. Postula que é um erro distinguir o homem do mundo material, e que, igualmente, tentar entendê-lo — que é o primeiro passo para transformá-lo — não só é um erro, como algo inútil e infrutífero, isso com base na postura idealista de dizer que tudo o que “julgamos sabemos” é uma “invenção” da nossa cabeça e nunca “as coisas em si”. Diz, portanto, que devemos apenas aceitar a realidade como ela é, fundidos a ela, nunca tentando entendê-la ou reagir de qualquer forma, e que nem somos capazes para tanto. Desta maneira, advoga pela adoção de uma visão absolutamente falseada sobre o mundo e o próprio homem o que, escusado será repetir, é nocivo e reacionário ao extremo. Para o homem, que, por contar com os 3 atributos formados sócio-historicamente da independência, da criatividade e da consciência, compõe a força que, unida coletivamente, transforma a natureza, cria e transforma a sociedade e o regime social e avança a história, não há nada mais pernicioso do que entorpecer a sua consciência com uma visão enganosa sobre si mesmo e sobre o mundo, de modo que acredite que não pode conhecer suas leis objetivas nem transformá-lo e não tem alternativa a não ser aceitar ser conduzido como um barco à deriva carregado pelas ondas e ventos, ou, numa outra analogia que encapsula melhor o espírito do livro, como um burro de carga que, com antolhos postos, não vê nada além do chão à frente, sendo conduzido pelo dono.
“O choque entre ciência e religião não mostra que a religião é falsa e a ciência, verdadeira. Mostra que cada sistema de definição tem o seu propósito e que nenhum deles ‘domina’ de fato a realidade.”
[…]
“Matéria é uma palavra, um ruído que se refere às formas e paradigmas envolvidos num processo. Não sabemos o que é esse processo porque não é um ‘que’ — ou seja, não é uma coisa que possa ser definida por algum conceito fixo ou alguma medida. Se quisermos ficar com a linguagem antiga e ainda usar termos como ‘espiritual’ e ‘material’, o espiritual significa ‘o indefinível’, aquilo que, porque está vivo, sempre e inevitavelmente vai escapar da moldura de qualquer forma fixa. Matéria é o espírito com um nome.”
[…]
“Sofremos da ilusão de que o universo é todo ordenado por categorias do pensamento humano.”
E como que para coroar toda a minha indigestão ao longo desta leitura com a razão, o autor, no penúltimo capítulo, deixa escancarada a natureza e propósito finais da sua obra ao apresentar a responsabilização do regime social e a subsequente revolução necessária para superá-lo como “moralismo”, que seria uma falsa saída para o problema, equivalente aos sermões que as pessoas recebem nas religiões.
“O moralista convencional não tem nada com o que contribuir para solucionar o problema. […] Pode atribuir a depressão ou o nervosismo ao sistema social e incitar os desafortunados à revolução.”
Em suma, sob toda a roupagem de “sabedoria oriental” taoista e budista colocada como um disfarce para distrair os leitores ocidentais, tudo o que há é pura ideologia burguesa. O que o autor deste livro defende não pode deixar de me trazer à mente um lema do governo do infame ex-presidente neoliberal e golpista Michel Temer, que dizia: “não pense em crise, trabalhe!”. Aqui, em poucas palavras, o que se diz é mais ou menos o seguinte: “não pense na ansiedade, aceite-a! É parte de você. Aliás, ela é você (sic). Portanto, apenas aceite-a, esqueça o passado e o futuro, ancore-se no momento presente e viva em harmonia!”. O que se almeja, ao fim, é criar um homem isolado, que não pensa, não conhece a história, descarta a possibilidade de ansiar pelo futuro e vive no automático como um animal. É mais do mesmo veneno ideológico encaminhado a paralisar a consciência do homem, desvirtuá-lo e, assim, prolongar a existência do decadente sistema capitalista.
Não haverá cura para a ansiedade e depressão das pessoas enquanto não for superado o próprio modo de produção que, ao submetê-las à exploração e opressão mais atrozes, produz os dois. Somente satisfazendo a demanda de independência (jajusong) — ao transformar o velho regime no novo, convertendo as massas nas donas da sociedade — e colocando em jogo o seu papel criador, guiado pela elevada consciência ideológica que lhes ilumina o caminho adiante para transformar o mundo e a si mesmas, unidas no coletivo, é possível pensar em vida digna e salutar, que transborda com realização e otimismo. E, ao contrário do que o autor tenta convencer, nada disso é impossível ou contrário à realidade: trata-se de uma realidade palpitante bem lá no próprio continente de onde ele diz ter tirado a sua “sabedoria”, mas mais para o leste, de onde nasce o sol com a aurora da emancipação: na Coreia socialista. Então, por que não trocamos a “sabedoria oriental” de vassalo defendida pelo autor por uma que realmente emancipa o ser humano e contribui, genuinamente, para permiti-lo viver dignamente e em harmonia com o mundo circundante?
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- 2026-06-24 16:30:55