Resto
Há uma verdade indigesta que, cedo ou tarde, nos alcança: não importa a magnitude do nosso sacrifício, a pureza da nossa entrega ou a…
Resto
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Há uma verdade indigesta que, cedo ou tarde, nos alcança: não importa a magnitude do nosso sacrifício, a pureza da nossa entrega ou a exaustão do nosso esforço, no fim, somos quase sempre o resto. O que sobra. O que cai.
Culturalmente, aprendemos a associar o “resto” ao lixo, ao descarte, àquilo que não tem valor. No entanto, na economia psíquica das relações humanas, ser o resto não é um acidente de percurso; é uma posição estrutural. Nós nos esforçamos para ser o “todo” para alguém. Queremos ser a peça que falta no quebra-cabeça do Outro, a resposta para suas angústias, o objeto que finalmente irá saciá-lo.
Investimos tempo, afeto e libido. Moldamo-nos às demandas alheias, muitas vezes silenciando nosso próprio desejo para garantir que o outro não sinta falta de nada. É um trabalho hercúleo, movido pela fantasia neurótica de que, se formos “bons o suficiente”, seremos indispensáveis. Acreditamos que, ao nos doarmos inteiramente, seremos entesourados e não descartados.
A tragédia, contudo, reside na própria natureza do desejo. Jacques Lacan nos ensinou que o desejo é movido pela falta, e não pela plenitude. No momento em que nos oferecemos como objeto de completude para o outro, anulamos a própria tensão que sustenta o interesse. Ou, pior: descobrimos que o Outro é um poço sem fundo. Não há entrega que baste, porque a falta no outro é constitutiva, anterior a nós e independente de nós.
Ao tentarmos preencher essa fenda existencial com o nosso próprio ser, acabamos consumidos. E quando a dinâmica se encerra — seja pelo tédio, pela saciedade momentânea ou pela mudança de foco do desejo — o que sobra dessa operação? Nós. Sobramos como a casca de uma fruta que foi devorada. Tornamo-nos o objeto $a$ que, após causar o desejo, cai.
Diante dessa constatação dolorosa, surge a indagação: talvez devêssemos ser mais egoístas?
O termo “egoísmo” carrega um estigma moral pesado, mas talvez precisemos resgatá-lo sob uma nova ética. Não se trata do narcisismo desenfreado que usa as pessoas como degraus, mas de uma autoconservação pulsional. Se insistimos em nos colocar na posição de objeto para satisfazer o Outro, nosso destino é inexoravelmente o de sermos descartados quando a utilidade cessar.
Ser “egoísta”, neste contexto revisado, significa retirar-se da posição de objeto. Significa reconhecer que não temos o dever (nem o poder) de completar ninguém. É a coragem de sustentar o próprio desejo, em vez de apenas servir ao desejo alheio.
Há uma dignidade em aceitar a condição de resto, mas ressignificando-a. Se somos o resto, é porque algo de nós resistiu a ser totalmente assimilado pelo outro. O “resto” é também aquilo que sobra de nós mesmos quando paramos de tentar agradar. É nesse resíduo, nessa sobra que não serve ao Outro, que reside a nossa verdadeira singularidade.
Talvez o segredo não seja evitar ser o resto — pois na dialética do amor e do desejo, sempre haverá perdas — , mas sim escolher não se oferecer como banquete completo. Quando retemos uma parte de nós para nós mesmos, quando exercemos esse “egoísmo saudável”, deixamos de ser apenas a sobra do outro para nos tornarmos, finalmente, o centro de nossa própria história.
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